Em 30 de abril são lembrados os cem anos de nascimento de Darcy Penteado (1926-1987), artista plástico, escritor e ativista de direitos humanos que foi importante para a estruturação do movimento LGBTQIAPN+ no Brasil e para o controle da epidemia de HIV/Aids na década de 1980.
Penteado iniciou sua trajetória no final dos anos 1940, como caricaturista e ilustrador para veículos de imprensa, além de atuar como figurinista e cenógrafo no teatro. Nas décadas seguintes, consolidou-se como artista plástico — participando da Bienal Internacional de São Paulo —, retratista de personalidades como Audrey Hepburn e ilustrador de obras de autores como Jorge Amado e Carlos Drummond de Andrade.
“Em 1976, ao completar 50 anos, ele se assumiu publicamente gay, algo incomum no período. Ele já era uma figura conhecida, de classe média e com certo privilégio, e não precisava se expor, mas escolheu fazê-lo. Sua atitude teve grande impacto, servindo de referência e incentivo para que outras pessoas fizessem o mesmo. Nascia, nesse período, sua fase militante”, contextualiza o diretor e roteirista do longa-metragem “Darcy faz 100 anos”, Lufe Steffen.

‘O Lampião da Esquina’ e a luta por direitos civis
Em 1977, o Brasil recebeu a visita do jornalista britânico e editor do pioneiro jornal de diversidade sexual “Gay Sunshine”, Winston Leyland. O evento inspirou a criação de “O lampião da esquina”, primeiro periódico brasileiro voltado à pauta LGBTQIAPN+, publicado entre 1978 e 1981, em plena ditadura militar.
Entre seus principais participantes estavam João Silvério Trevisan, Aguinaldo Silva e o próprio Penteado, que discutiam abertamente sexualidade, política e direitos civis.
“A primeira reunião aconteceu na residência do Darcy, que a partir de então tornou-se uma figura central no movimento. Tudo passava por ele”, aponta Steffen.
No periódico, sua atuação ajudou a deslocar a homossexualidade do campo do desvio moral para o campo dos direitos humanos, atuando como ponte entre ativistas e a intelectualidade.
“Ele era um dos nomes mais conhecidos do grupo, pois já tinha uma trajetória consolidada como artista plástico e atuava em outras áreas. Foi um líder evidente em um período muito difícil para qualquer tipo de manifestação que confrontasse normas estabelecidas. Na época, o país vivia uma ditadura rigorosa, e tudo que se relacionava à homossexualidade era visto como contrário à moral e aos bons costumes. Com isso, contribuiu para abrir caminhos e apoiar muitas pessoas. Seu papel foi essencial naquele contexto”, relata o escritor João Silvério Trevisan.
Em 13 de junho de 1980, um ato nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo marcou a primeira passeata do movimento homossexual no Brasil. Ele reivindicava o fim da repressão da Operação Limpeza liderada pelo delegado Wilson Richetti, acusado de perseguir, prender e torturar prostitutas e LGBTQIAPN+ que circulavam pelo centro da cidade.
“Penteado apareceu na frente do teatro lendo um manifesto. Além disso, atuou no movimento “Diretas, Já” e pela preservação da Amazônia ainda nos anos 1980, produzindo conteúdos para o ‘Lampião da Esquina’”, conta a pesquisadora da vida e obra de Penteado Jaqueline Ferreira.
A militância também passou a se manifestar mais fortemente por meio das suas pinturas e gravuras. “A partir da década de 1970 em diante, sua obra se torna claramente mais politizada”, aponta Ferreira.

Primeiro cartaz sobre sexo seguro na epidemia de HIV/Aids
A chegada dos primeiros casos de HIV/Aids no Brasil, que inicialmente atingiram majoritariamente pessoas LGBTQIAPN+, mudou a pauta da militância. Foi nesse período de medo e informação escassa sobre o vírus que Penteado teve uma atuação ainda mais corajosa e simbólica.
“Em 1983, Darcy foi um dos articuladores de uma reunião com o então secretário de Saúde de São Paulo, Paulo Roberto Teixeira, que buscava estruturar as primeiras respostas à epidemia na cidade. Esse encontro desdobrou-se em uma série de palestras públicas no Instituto de Saúde entre o final de 1983 e ao longo de 1984. Em 1985, ele integrou o grupo fundador do Gapa-SP (Grupo de apoio à prevenção da Aids de São Paulo), a primeira ONG brasileira dedicada ao tema”, lembra o professor de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP) Júlio Simões.
Em 1985, Penteado foi responsável pela arte do primeiro cartaz sobre sexo seguro, denominado “Transe numa boa”.
“Ele criou uma obra-prima do ponto de vista da consciência política para a época. Em vez de aderir ao clima de medo e ao discurso conservador difundido por lideranças de diferentes áreas, propôs uma abordagem direta e responsável, incentivando a vida sexual com cuidado e informação”, relembra Trevisan.
“Deixou claro o caminho a seguir: não era momento de abrir mão da liberdade conquistada, mas de enfrentar o preconceito, que se intensificava com a epidemia de Aids, especialmente contra a comunidade gay naquele período”, comenta Trevisan.
“O cartaz é um marco na comunicação sobre prevenção, pois apresentava formas de reduzir riscos, como o uso de preservativos e práticas sexuais sem penetração, algo incomum na época. Enquanto muitas campanhas adotavam um tom repressivo, associando o sexo ao perigo e pregando abstinência, sua proposta era clara: é possível viver a sexualidade com liberdade, desde que com cuidado. Essa abordagem, baseada em informação e autonomia, permanece atual até hoje”, complementa Steffen.
No livro Histórias da Aids no Brasil – 1983-2003, os autores Lindinalva Laurindo Teodorescu e Paulo Teixeira lembram que a comunidade LGBTQIAPN+ se mobilizou para conseguir financiar o cartaz de Penteado, sendo o jornalista Celso Curi um dos encarregados de arrecadar fundos junto a amigos. Gloria Kalil, Zé Kalil e pessoas da Fiorucci doaram o dinheiro, de forma anônima.
“Ricardo Veronesi, que veio a ser secretário de Higiene e Saúde do Município de São Paulo (SP), em 1985, foi um dos críticos mais ferozes do cartaz. Viu nele ‘a utilização de um problema de saúde pública para fazer propaganda do homossexualismo’”, aponta o livro. “O material acabou censurado e recolhido”, relembra Trevisan.
Luta contra apagamento histórico
Nos anos finais de sua vida, Darcy Penteado assumiu viver com HIV para pessoas do seu círculo íntimo. “Há também um breve depoimento de Penteado no documentário um tanto sensacionalista ‘Estou com Aids’ (1986), em que questiona a associação estigmatizante entre homossexualidade e a doença. Sua atuação combinou engajamento na organização das primeiras respostas públicas à epidemia com uma crítica importante aos efeitos de pânico e estigmatização que marcaram aquele momento”, analisa o antropólogo Júlio Simões.
“Nesse período, nota-se que a sua produção artística começa a ficar mais nostálgica, com elementos sombrios. Ele passa a afirmar que ‘se cansou da militância’ e vai se isolando e sumindo, aos poucos, das cenas política e artística, até finalmente se apagar”, contextualiza Ferreira sobre a morte do artista, em 1987.
Apesar de ter sido uma figura central no movimento de direitos humanos brasileiro, Ferreira aponta que o legado de Penteado passou a sofrer com apagamento histórico, estando hoje quase esquecido.
“Após sua morte, Darcy deixou parte da sua obra para o município onde nasceu, de São Roque (SP). O acervo está trancado em uma sala pequena, sem acesso ao público. Lá estão registros importantes do movimento LGBT e também artísticos, como obras da Bienal de São Paulo”, lamenta a pesquisadora.
Para comemorar o seu centenário, pesquisadores se mobilizaram para a produção do filme “Darcy faz cem anos”, que mistura documentário e adaptações de contos do escritor, ainda sem data de estreia oficial. Além disso, Ferreira disponibilizou sua pesquisa, feita com Alexandra Cavassana, sobre a obra do artista e ativista em um site, trazendo ao grande público registros até então inacessíveis.
Aos 81 anos, João Silvério Trevisan relembra o amigo e companheiro de militância. “Darcy era extremamente simpático, com um dos sorrisos mais bonitos que já vi. Tinha uma doçura genuína que não era forçada, mas parte de quem ele era: uma pessoa afável, acessível, agradável e de grande generosidade. Foi uma enorme perda”, finaliza.
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