Presente no cotidiano de muitas crianças e adolescentes, a maquiagem levanta debates sobre saúde, consumo e os limites entre brincadeira e adultização.

“As crianças usam maquiagem principalmente como parte da brincadeira de imitação e faz-de-conta, reproduzindo o comportamento de adultos ou personagens que admiram. Isso é mecanismo de aprendizado social e treino para papéis futuros”, analisa a antropóloga e professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) Jaroslava Varella Valentova.

Já adolescentes costumam usar maquiagem como ferramenta de experimentação de identidade. “Ela se relaciona aos ritos de passagem para a vida adulta, servindo para expressar individualidade e pertencimento a grupos, explorar a sexualidade e praticar os códigos de aparência da cultura”, compara.

Ludicidade é benefício

Os produtos usados costumam ser os emprestados de adultos ou os infantis, que são formulados com menos pigmentos, produtos químicos e fragrâncias. Ambos são regulamentados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) após testes de segurança e toxidade.

Independentemente da modalidade, há poucos estudos sobre o uso de maquiagem por crianças e adolescentes. “Em levantamento da literatura, descobrimos que a exposição das crianças à maquiagem corre aproximadamente aos quatro anos, e os produtos usados mais cedo são esmaltes e batons”, aponta a farmacêutica e docente da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS) Cássia Garcia.

A ludicidade é tida como um benefício do uso de maquiagem por crianças e adolescentes.

“Ela ajuda a desenvolver criatividade e faz-de-conta, importantes para desenvolvimento cognitivo e emocional. Também é um treino simbólico para situações sociais adultas e ajuda a explorar a identidade de gênero, já que cada sociedade tem ‘regras gerais’ de aparência em meninos e meninas. As crianças aprendem as regras para perceber que não se enquadram nelas e para desenvolver outras identidades”, relata a antropóloga.

Lista de problemáticas é extensa

No campo dermatológico, a pele da criança é mais fina e sensível, sendo suscetível a irritações e alergias.

“Os ingredientes cosméticos podem ser absorvidos pela pele, cair na corrente sanguínea e atuar em outros órgãos.  O desencadeamento de sensibilizações para alergias futuras também pode ocorrer com maior frequência na infância. Além disso, mesmo aplicados em pequenas quantidades, ainda não está bem estabelecido o quão perigosos eles são”, contextualiza a médica do Departamento Científico de Dermatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) Marjorie Uber Iurk.

“O uso é mais problemático para crianças que têm alguma doença cutânea, como dermatite atópica, alergia ou pele ressecada”, acrescenta a médica.

É no campo social que os problemas se sobrepõem.

“Em um momento de construção de identidade e autoestima, a maquiagem traz uma conotação de ser necessário mudar características físicas para seguir um padrão de beleza. A criança entende que seu rosto e pele naturais não são bonitos, aprovados e, por isso, precisam ser mudados”, alerta a médica.

Valentova aponta risco de adultização, ou seja, quando se impõem características, comportamentos, responsabilidades e estéticas adultas à criança ou ao adolescente, geralmente com conotações sexuais.

“O uso é problemático quando há pressão do meio do meio, como pais, mídia e competições. Também quando se deixa de brincar para focar excessivamente na aparência, o que pode gerar ansiedade, problemas com autoimagem, baixa autoestima, transtornos alimentares, entre outros”, complementa.

“A autoimagem pode ficar condicionada à validação externa e ao ‘sucesso’ da maquiagem, ou seja, a pessoa acha que só será aceita quando maquiada. Há também ansiedade social, medo de ser visto sem maquiagem ou de não estar dentro do padrão do grupo. Para completar, podem-se suprimir características naturais em prol de um padrão homogêneo”, descreve a antropóloga.

Já a psicóloga e coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Joana de Vilhena Novaes, destaca a relação da maquiagem por crianças e os filtros e aplicativos de manipulação de imagem nas redes sociais.

“O fenômeno dialoga com cultura de rede, consumo e sociedade do espetáculo. Há uma extensão da manipulação de imagem do virtual para o dia a dia”, aponta.

Ela aponta questões de gênero relacionadas ao fenômeno.

“A pergunta é: a quem o consumo de maquiagem se destina e por quê?  A maquiagem também é um indicador de erotização do corpo da mulher: um corpo normatizado deixado pronto para ser consumido. Assim, você tem um marcador importante de controle, de vigilância e opressão desse corpo feminino desde a infância, travestidos de entretenimento e brincadeira”, reforça.

Para completar, há questão econômica na maquiagem infantil. “É mais um nicho de consumo a ser cooptado”, lembra Novaes.

Orientações para os pais

  • Garcia explica que o melhor tipo de maquiagem par uso de crianças e adolescentes ainda é o infantil. “Busque produtos de fabricantes idôneos, com rótulos completos, indicação de faixa etária e prazo de validade. Além disso, não repasse produtos de uso adulto para as crianças, principalmente os vencidos”, adverte.
  • Iurk recomenda evitar ao máximo o uso de maquiagem por essas populações, mesmo da versão infantil. “Ao comprá-la, você estará dando um aval para a criança usar em maior quantidade e frequência, o que pode trazer problemas”.
  • Já quando o uso for necessário, Valentova recomenda priorizar situações lúdicas, como brincadeiras, peças teatrais e festas temáticas, definindo limites e ocasiões para isso.
  • Vale conversar sobre como a maquiagem aparece na mídia. “Eu e meus filhos percebemos que a professora de uma série infantil está excessivamente maquiada, o que não condiz com a rotina de ambiente escolar. Além disso, reforce que a beleza é editada, e que os padrões midiáticos são inatingíveis”, recomenda Valentova.
  • Monitore a motivação para uso de maquiagem e se há pressão por aceitação.
  •  “Cuidado com comentários quando a criança está de maquiagem. Exalte a beleza natural em vez do uso do cosmético”, recomenda Iurk.
  • Converse sobre diversidade e beleza. “Aborde que o valor da pessoa está em suas qualidades, habilidades e caráter. Que cuidar e valorizar a pele e os traços naturais são a base de uma autoimagem saudável. E que a maquiagem é uma forma de expressão e arte, não uma obrigação para ser belo ou aceito”, lista Valentova.
  • Em adolescentes, Iurk recomenda diálogo franco sobre autoestima. “Quanto mais maquiagem o adolescente usar, mas deixará de enxergar sua beleza natural. E muitos influencers que recomendam maquiagem o fazem como propaganda, para ganhar dinheiro”, finaliza a médica.

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Crédito da imagem: Flashpop – Getty Images

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