Introdução

Os poetas que valem realmente fazem a poesia dizer mais coisas do que dizia antes deles. Por isso precisamos deles para ver e sentir melhor, e eles não dependem das modas nem das escolas, porque as modas passam e os poetas ficam. Como afirma Antônio Candido, os poetas ficam e tanto isso se faz verdade que em 2013 comemora-se o centenário de um dos nossos maiores poetas: Vinicius de Moraes.  Vinicius nasceu em 19 de outubro de 1913, foi poeta, compositor, intérprete, jornalista, crítico, diplomata, são muitas as faces desse escritor que trouxe contribuições enumeráveis para nossa música e nossa literatura. O poeta cresceu próximo aos avós e recebeu uma educação religiosa que o influencia em suas primeiras produções literárias.

Em 1924, iniciou o Curso Secundário no Colégio Santo Inácio. Nesse mesmo ano, fez amizade com Moacyr Veloso Cardoso de Oliveira e Renato Pompéia da Fonseca Guimarães, este, sobrinho de Raul Pompéia, com os quais escreveu o “épico”  escolar, em dez cantos, de inspiração camoniana: os acadêmicos. Durante os anos escolares, compôs algumas canções junto com colegas e namorou todas as amigas de sua irmã Laetitia.

Em 1929, formou-se em Letras e, em seguida, ingressou na faculdade de Direito e lá começou uma amizade com Otávio de Faria, que o incentivaria a publicar seu primeiro livro, em 1933, O caminho para a distância, na Schimidt Editora. Á partir daí passou a publicar várias obras e iniciou, em 1936, carreira política, quando substituiu Prudente de Morais Neto, sendo representante do Ministério da Educação junto à Censura Cinematográfica. Neste período, conheceu Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, dos quais se torna amigo. Em 1938, ganhou uma bolsa de estudos do Conselho Britânico e viajou para Inglaterra para estudar língua e literatura inglesa.

Retornou ao Brasil em 1939 em companhia do amigo Oswald de Andrade, devido a grave eclosão da II Grande Guerra.

Nota-se que Vinicius de Moraes, apesar de não participar da Semana de Arte Moderna de 1922, torna-se amigo de seus idealizadores e participantes, o autor insere-se na segunda fase do Modernismo brasileiro, momento em que as características iniciais dessa estética literária estão estabelecidas: a temática do cotidiano, a linguagem coloquial, o verso livre, entre outras.

Segundo Antônio Candido, nenhum outro poeta se aproximou mais dessas características do que Vinicius de Moraes, que conseguiu reconstruir o soneto, aproximando o erudito do popular, transformando o versículo solene dos primeiros livros em ritmo suspenso entre verso e prosa, de modo a não haver mais nem verso nem prosa, mas verso e/ou prosa, em franca ida e volta.

Ainda, segundo Cândido, os anos de 1937 e 1945 foram importantes para a renovação da linguagem do poeta, na obra Cinco elegias (1943), uma representação da naturalidade do amor, a inquietação relacionada á experiência corrente, o mistério traduzido em familiaridade e temperado com uma espécie de humor sem agressão traços que nunca mais sairiam de suas receitas. É notável o sentido experimental da linguagem, que o levou inclusive a jogar com os aspectos visuais, tão em moda atualmente. Vinicius reconhece essa própria mudança, como se vê no poema. Elegia quase uma Ode. Meu sonho, eu te perdi; tornei-me em homem. O verso que mergulha o fundo de minha alma; simples e fatal, mas não traz carícia… Lembra-me de ti, poesia criança, de ti. Que te suspendias para o poema como que para um seio no espaço. Levava em cada palavra a ânsia; De todo o sofrimento vivido; Queria dizer coisas simples, bem simples; Que não ferissem teus ouvidos, minha mãe; Queria falar em Deus, falar docemente em Deus; Para acalentar tua esperança, minha avó; Queria tornar-me mendigo, ser miserável; Para participar de tua beleza, meu irmão; Queria, meus amigos… queria, meus inimigos… Queria… queria tão exaltadamente, minha amiga; Mas tu, Poesia. Tu desgraçadamente. Poesia; Tu que me afogaste em desespero e me salvaste; E me afogaste de novo e de novo me salvaste e me trouxeste; Á borda de abismos irreais em que me lançaste, e que depois eram abismos verdadeiros. Onde vivia a infância corrompida de vermes, a loucura prenhe do Espírito Santo, e ideias em lágrimas, e castigos e redenções mumificados em Tu… Iluminaste, jovem dançarina, a lâmpada mais triste da memória; Pobre de mim, tornei-me em homem…

Observa-se que o poeta reconhece seu papel como homem-poeta, alguém que trará temas e reflexões caros e necessários ao nosso tempo. Alguém que nos trouxe poemas tão belos e inesquecíveis como o Soneto de Fidelidade, Soneto de Separação, Operário em Construção, entre outros. Poeta que se aproximou do universo feminino, que trouxe o mar, o amor, a beleza como temas pessoais e universais.

REFERÊNCIAS:
CÂNDIDO,  Antônio. Vinicius de Moraes;. In: Brigada Ligeira e outros escritos. São  Paulo: Unesp, 1992
MORAES, Vinicius de. Elegia quase uma ode.

Por Profa Glaucia Luiz

Porque abordar o tema em sala de aula

Estudar o poeta Vinicius de Moraes muitas vezes acaba sendo uma tarefa delegada ao Ensino Médio, pois o escritor apresentado como um autor da segunda fase do Modernismo Brasileiro. Além disso, em alguns casos, também a Educação Infantil e o Ensino Fundamental I iniciam o trabalho com os poemas-canções da obra A Arca de Noé, o que pode ser o ponto de partida para se conhecer todas as contribuições trazidas por esse poeta.

Inserir Vinicius de Moraes nos currículos do Ensino Fundamental e Médio é uma ação  necessária para que se conheça a forma peculiar como este poeta relacionou o mar, a praia, a vida amorosa, o compromisso com o amor – sentimento um pouco esquecido de nosso tempo.

Pode-se iniciar a apresentação da vida de Vinicius de Moraes a partir de (dependendo do nível) trechos do documentário sobre Vinicius[1], relacionando vida e obra do autor, discutindo sobre o fato do Rio de Janeiro estar presente em tantos poemas, no fato de o autor ter se casado nove vezes e estar sempre em busca do amor.

A relação vida-obra de Vinicius estabelece uma forma de olhar para a realidade de maneira intensamente crítica, pois traz para a poesia o que se vive no cotidianamente, o crítico e pensador Antônio Cândido afirma que ninguém trouxe mais o dia a dia para os poemas do que este poeta.

Vinicius de Moraes cresceu em meio a uma intensa produção artística, graças às influencias que recebia de sua mãe (amante da música popular) e de seu pai (amante da música clássica). O poeta manteve relações de amizade com importantes intelectuais do século XX, trocou correspondências com inúmeros outros poetas, falou explicitamente de suas influências literárias, foi um homem público ativo.

Esses fatos devem ser discutidos em sala de aula, pois se identifica – e comprova-se – como se cria e se reconhece o repertório cultural de um artista, como ele se constrói literariamente.

O poeta trouxe temas necessários para este tempo: o amor, a mulher, o mar, e isso não se vinculam a uma ou outra estética literária, mas se liga ao humano, ao que é fundamental trabalhar com meninos e meninas que vivem num tempo em que muitas dessas referências foram esquecidas.

Ler algumas das cartas trocadas com Mario de Andrade, Carlos Drummond de Andrade pode, por exemplo, ilustrar para os alunos como se estabelecem relações de análise da realidade, como se reconhecem essas influências na obra de Vinicius e, também, auxilia na leitura de poemas dedicados a esses amigos.

Segundo Susana Moraes, filha de Vinicius, conta que quando moravam em Los Angeles, o pai foi para lá como diplomata, era seu primeiro posto Los Angeles e ali, por volta de 1944 ou 1945 – e ele se apaixonou por jazz. Nessa época, além de diplomata, ele escrevia eu acho que para o Diário de Notícias, para um desses jornais da época, crônicas de cinema e crônicas sobre jazz. Lá em Los Angeles, travou amizade com um sujeito chamado Neshui Ertegun, que mais tarde criou a Atlantic Records, um selo importante de jazz. Neshui também era apaixonado e tinha uma lojinha onde vendia os discos, muito frequentada por músicos. A música na nossa casa nos Estados Unidos era basicamente jazz e essa paixão de Vinicius se desenvolveu. Eu tinha uns 6, 7 anos e tem algumas improvisações de Charlie Parker que até hoje sei de cor, nota por nota. Lembro-me de irmos algumas vezes a New Orleans, uma vez especialmente para ouvir Jelly Roll Morton, de quem ele se tornou amigo. É claro que também se ouvia Música Popular Americana, Gershwin, Frank Sinatra mas basicamente era jazz. Reconhece-se nesse depoimento o que deve ser visto com os alunos do Ensino Médio, por exemplo, como Vinicius foi se alimentando também musicalmente para iniciar, junto com Tom Jobim, João Gilberto e outros compositores, a Bossa Nova no Brasil. Importante mostrar para os alunos como se constrói um intelectual que tanto representou o país dentro e fora dele. Na Educação Infantil e Fundamental I, pode-se trabalhar com os poemas: A casa, O Relógio, tomando destacando os aspectos sonoros e o ritmo de cada poema. Pode-se apresentar o poema que Arca de Noé que dá nome ao livro relacionando-o a uma obra de Sidónio Muralha, Televisão da Bicharada, mostrando as semelhanças em relação à sonoridade.

No Ensino Fundamental II, é possível ler alguns contos e crônicas abordando as questões cotidianas que ali se apresentam, como Conto rápido, Conto carioca, em que vemos cenas do dia a dia da cidade do Rio de Janeiro. Isso pode ter como proposta uma leitura expressiva em que cada aluno prepara uma apresentação para os colegas, enfatizando os aspectos de construção do No Médio, Vinícius integra a lista de vários vestibulares e é uma oportunidade de, para além das obras de leitura obrigatória, empreender um estudo mais amplo da vida e da obra do autor, contextualizada no seu tempo.

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