Introdução

A presença da cultura afrodescendente nos currículos do ensino básico, no Brasil, deixou de ser uma opção para se configurar numa obrigação. É lei, fruto da longa luta pela garantia do direito de todos os afro-brasileiros de ver a sua cultura valorizada e preservada e de todos os brasileiros de ter acesso à rica história e à contribuição cultural dos povos africanos para a cultura e para a História do Brasil.

A partir da lei 10.639/03, passou a ser obrigatório o ensino de história da África, dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política – pertinentes à História do Brasil. O conteúdo deverá ser ministrado no âmbito de todo o currículo escolar, principalmente nas áreas de Educação Artística,  Literatura e História Brasileiras. Com a lei foram inseridas na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) alterações com foco na valorização da cultura afrodescendente (artigos: 26-A e 79-B).

Para tornar a lei realidade, partilhamos com você, professor, algumas visões tendo como foco a inserção destes conteúdos no cotidiano da escola. Mais do que cumprir uma lei, estamos possibilitando a cada cidadão o acesso ao conhecimento, à história e a cultura do afrodescendente.  Esperamos assim, que o docente possa utilizá-las, reelaborando-as, se necessário, para trabalhar em situações específicas de cada nível do ensino.

De maneira geral, o texto que se segue deverá articular a história e a cultura afrodescendente aos currículos do ensino básico. Isto significa indicar os conteúdos que podem trazer elementos da cultura afro-brasileira e comentar possibilidades, mais do que sugerir sequências de trabalho.

Porque abordar o tema em sala de aula

Educação Infantil:
Ao lado da rica e conhecida tradição europeia de contos de fadas, contadas e recontadas às nossas crianças, é muito importante trazer contos e histórias em que emergem histórias africanas e contos que possuam negros como protagonistas, como por exemplo, os  livros da escritora Cidinha da Silva: ‘Kuami’, ‘o Mar de Manu’, ‘Você me deixe, viu? eu vou bater meu tambor!’- Outro autor com vasta produção é Joel Rufino dos Santos. Há muitos outros livros infantis qe trazem histórias e que podem estar presentes nas rodas de conversa, nas leituras compartilhadas e em dramatizações. Proporcione a todas as crianças o contato que este universo.

Ensino Fundamental I:
O estudo da História, como é pesquisada e construída (vestígios materiais e imateriais) pode ser um interessante momento para se trabalhar com a cultura afrodescendente. Alunos podem ter contato com uma história mais rica do continente africano, trazendo informações sobre o espaço as riquezas e produtos africanos, assim como a organização social dos povos africanos: os sistemas políticos organizados, os reis, as rainhas. A Coleção História Geral da África, disponível aqui e lançada em 2010, poderá ser um suporte para um estudo mais organizado da história que remete aos afrodescendentes.

Uma pesquisa voltada ao Brasil colonial também pode se configurar no momento inicial para o trabalho com o papel da contribuição negra nos mais diversos contextos, visto que não foi somente a mão de obra escrava dos africanos mas os saberes, as diversas culturas trazidas e aqui vividas pelos africanos escravizados contribuíram para a construção do país e para o desenvolvimento de sua cultura.

Ensino Fundamental II:
Os currículos do Ensino Fundamental II integram os processos de colonização das Américas. Neste contexto, trabalhar a questão da escravidão e do papel do comércio negreiro como fonte de acumulação primitiva de capital é fundamental, visto que o sistema colonial definiu contextos e histórias tanto das metrópoles como das colônias. O tráfico de escravos, juntamente com o embate e a exploração dos povos indígenas são elementos fundamentais do estudo da colonização nas Américas.

É possível também aprofundar o conhecimento da história dos povos africanos, antes de sua escravização: as culturas, os diferentes modos de vida, as línguas as diversas organizações sociais e políticas dos povos africanos. É importante construir o conceito de que a sua história não se inicia com a escravidão. Sociedades organizadas, agricultura, técnicas inovadoras e a produção de riquezas são algumas das características fundamentais das sociedades africanas de então.

No ensino fundamental II, na área de Geografia, os estudos sobre a constituição da população brasileira podem trazer interessantes discussões sobre a situação numérica de negros e a sua condição social. Pode-se trabalhar com as características da distribuição dos negros nas diversas, seus motivos e conseqüências. Comparações com outros países americanos, como o Haiti, os Estados Unidos, entre outros, e a condição em que foram realizadas essas migrações forçadas, também pode ser temas de interesse.

Há na área de Artes, tanto no Ensino Fundamental como no Médio, várias possibilidades de trabalho, desde o entendimento do papel da arte no desenvolvimento cultural do país até o uso da imagens como fonte de informação dos estudos históricos. Destaca-se a produção de Debret que documentou a sociedade brasileira do século XIX. Seus desenhos, litografias e aquarelas mostram cenas do cotidiano da corte, além de atividades dos escravos e dos índios.

Na música e na dança são igualmente vastos os exemplos de traços africanos no Brasil, os quais podem ser percebidos nas emboladas de coco, no repentismo de viola, nos catiras, congadas, nas folias de boi (Boi Bumbá do Maranhão ou Touro Candil do Mato Grosso do Sul), nos sambas, nos funks, nos RAPs, entre outros. Vale notar que em cada uma destas manifestações artísticas, há cenário, indumentária  e aspectos teatrais e performáticos característicos.

Ensino Médio:
O ensino médio pode ser uma excelente etapa para que o professor auxilie o aluno a discutir com mais eficiência e perspicácia as temáticas sociais e políticas contemporâneas. É momento de reflexão, debates e pesquisas.

Na área de Ciências Humanas é possível trabalhar questões como os problemas relacionados à distribuição e à posse de terra no Brasil o que, necessariamente, envolve a questão das comunidades remanescentes de quilombos, hoje 724 distribuídos no país. Os estudos sobre a sociedade atual e a permanência das desigualdades envolvem a reflexão acerca do lugar dos afro-descententes: sua contribuição a uma sociedade em que ainda não têm acesso à cidadania plena, a necessidade da inclusão de um Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro, para que essas questões possam emergir.

Na área de Literatura, vale incluir o estudo da obra de escritores afrodescendentes que apresentam textos que possam contribuir para a história e cultura do país. Textos de escritores de todos os tempos como Luiz Gama, Cruz e Souza, Carolina Maria de Jesus, Lino Guedes, Joel Rufino dos Santos, Cidinha da Silva, Conceição Evaristo, Antonieta de Barros, Elisa Lucinda, Solano Trindade, dentre outros podem  contribuir imensamente com o currículo.

Um interessante conjunto de filmes como Quilombo, de Cacá Diegues, Vista a minha pele, de Joel Zito Araújo, Abolição, de Zózimo Bulbul, As filhas do vento, de Joel Zito, Chico-Rei, de Walter Lima Júnior, kiriku, Raízes entre outros materiais podem dar suporte para que o professor trabalhe e reflita com seus alunos.

Indicação de Livros:
Professor, aqui você encontra um conjunto de fontes para que o trabalho com a cultura e a história afrodescendente:

História Geral da África (8 volumes da edição completa). Brasília: UNESCO, Secad/MEC, UFSCar, 2010: A coleção História Geral da África é distribuída (em pdf) gratuitamente. Esta coleção é considerada um dos  projetos editoriais mais importantes da UNESCO, nos últimos trinta anos, sendo um grande marco no processo de reconhecimento do patrimônio cultural da África e dos afrodescendentes. Ela permite compreender o desenvolvimento histórico dos povos africanos e sua relação com outras civilizações.

Para fazer download do livro acesse aqui!

Origens africanas do Brasil contemporâneo: Histórias, línguas, culturas e civilizações, 
de Kabengele Munanga,  Editora: Global, 2009. O livro traz um conjunto rico de informações acerca dos diversos aspectos  do continente africano, em sua enorme diversidade, em termos étnicos, lingüísticos e culturais.

Gosto de África,  de Joel Rufino dos Santos,  Global Editora, 1999. Esta obra apresenta  um conjunto de histórias do Brasil e da África, em que vê-se está presente a articulação cultural entre os países.

Com a palavra, Luiz Gama, de Lígia Ferreira, Imprensa Oficial, São Paulo, 2011. A belíssima obra da Profa. Dra. Lígia Ferreira traz poemas, artigos, cartas e máximas do abolicionista Luiz Gama ao leitor. A obra não é mostrada somente a sua produção como jurista, mas sua vida e a sua ação como como conselheiro e protetor de homens e mulheres negros esperançosos pela liberdade.

Para entender o negro no Brasil de hoje: história, realidades, problemas e caminhos, de Kabengele Munanga e Nilma Lino Gomes Livro de Professores. São Paulo: Ed.Global/Ação Educativa, s.d. Um livro que aborda diversas questões que se referem ao negro no Brasil contemporâneo e os problemas que estes enfrentam na sociedade atual.

Negras Raízes de Haley, Alex. Circulo do livro, 1983 A obra traz a história de Kunta Kinte, um africano tirado da família para ser escravizado na América. Parte de sua vida pregressa antes de ser capturado por mercadores de escravos. Uma vida tranqüila, em comunidade, com descrições detalhadas acerca da vida dos africanos antes e após a escravidão.

Indicação de filmes:
Kiriku e a feiticeira, Michel Ocelot (desenho animado) – O filme traz a história de Kiriku e suas ações em uma aldeia na África, uma história rica e cheia de informações sobre a cultura deste continente.

Quilombo, de Cacá Diegues, 1984  – Apresenta informações sobre os quilombos e sua formação, estruturas e política. No século XVII escravos  de um engenho em Pernambuco se rebelam e partem para o Quilombo dos Palmares.  Ganga Zumba (futuro líder dos quilombos) está entre os escravos fugitivos.

Abolição, de Zózimo Bulbul, 1988 –  Documentário traz informações sobre a dura realidade dos afrodescendentes no Brasil. Apresenta entrevistas, análises e uma rica documentação.

As filhas do vento, de Joel Zito Viana, 2004 – Apresenta a vida de uma família negra e suas dificuldades para sobreviver e se desenvolver na sociedade, passando por diversas situações de preconceito racial.

Raízes, A minissérie é baseada na obra de Alex Haley e conta toda a história do africano Kunta Kinte, sua vida na aldeia de Juffure, Gâmbia, até a captura e a escravidão nos Estados Unidos da América. A mini-série foi um fenômeno televisivo nos anos 70.

O fio da memória, de Eduardo Coutinho, 1991. O filme trata do racismo, responsável pela perda da identidade étnica e pela marginalização de  muitos  afro-brasileiros.

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Marli Paixão
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Marli Paixão

Material espetacular! Sou professora da área e a contribuição é excelente, estou compartilhando com colegas!

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