Caio Fernando Abreu e Paula Dip se conheceram na redação da Editora Abril, na década de 70 (Crédito: Acervo pessoal)

 

No ano em que se completou 20 anos do falecimento do escritor Caio Fernando Abreu – vítima de complicações da Aids, em 25 de fevereiro de 1996 –, o autor nunca esteve tão presente nas redes sociais. São diversas as páginas em homenagem a ele no Facebook, embaladas, principalmente, por adolescentes e jovens. Mas, afinal, porque Caio F. faz tanto sucesso no Facebook?

“Atribuo esse encantamento à profundidade de seus temas. Caio escreveu com sensibilidade sobre o amor, a solidão, o sexo, o planeta, a busca do sentido da vida, coisas que estão dentro de todos nós. Como dizia Lygia Fagundes Telles, Caio foi ‘o escritor da paixão’”, opina a jornalista Paula Dip, amiga de Caio e autora do livro “Para sempre teu Caio F., cartas, conversas, memórias de Caio Fernando Abreu”.

“A literatura de Caio F. aponta as dores humanas. Há a busca de qualquer coisa que dê sentido à vida. Por outro lado, ela traz uma carga acentuada de rebeldia que talvez também atraia os jovens”, complementa a doutora em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Linda Kogure.

Temas tidos como atuais também já se faziam presentes na obra do escritor desde a década de 70, como a aceitação da diversidade sexual e a ecologia. “Caio assistiu a todas as revoluções dos meados do século 20: desde o homem na lua, o ‘sex, drugs and rock and roll’ até a chegada do punk, dos computadores, da aldeia global de McLuhan. Ele foi uma testemunha do seu tempo e previu um futuro que, infelizmente, não viveu para ver”, conclui.

Da web para o livro

As referências à obra de Caio F. no Facebook são trechos retirados de contos peças e cartas. Paula Dip não considera esses recortes negativos. “O problema é que muitos parágrafos estão fora do contexto da obra. Isso é um desperdício: Caio merece ser lido na integra”, justifica.

E será que esse jovem sai da internet para o livro? Para as especialistas, essa pergunta não é fácil de ser respondida. “A literatura é uma arma poderosa, mas livros são caros e as pessoas preferem comprar feijão e arroz que investir em livros. O Caio já dizia isso. Espero que essas pessoas possam ir a uma biblioteca e conhecê-lo na íntegra”, assinala a jornalista.

Escolas e o escritor

A obra de Caio F. também pode ser usada pedagogicamente. Para as séries iniciais, Linda sugere o uso do livro “As Frangas”, inspirado numa coleção de galinhas decorativas que Caio guardava sobre a sua geladeira. “Cada franga tem uma personalidade e sua própria história. Pode-se introduzir temas como a intolerância e o bullying; regionalismos e as relações com o outro”, descreve.

Para as séries mais avançadas, a pesquisadora indica o romance “Limite Branco”, que narra a trajetória do protagonista dos 12 aos 19 anos. “O capítulo ‘O Mundo’ fala sobre a relação tão singular do tempo e espaço da criança e a forma que ela constrói o seu mundo imaginário”, ressalta.

Os estudantes também podem assistir ao documentário “Para Sempre Teu, Caio F.”, com roteiro de Paula Dip e direção de Candé Salles. Para completar, está programado para o dia 30 de outubro o lançamento do novo livro de Paula Dip: “Numa hora assim escura, a paixão nas cartas de Caio F. a Hilda Hilst”. “Tive acesso a um pacote de cartas inéditas de Caio para Hilda. As primeiras delas escritas por um Caio de apenas 19 anos que eu não conheci”, finaliza.

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