“Quando se prepara uma aula que dependa da internet, vamos sempre com um plano B. Já aconteceram inúmeras vezes de não podermos utilizar, porque não está disponível. É um pouco chato, porque preparamos e estamos super animados de fazer e na hora, não dá certo. Você vai dar uma aula, com duas planejadas”. O depoimento é da professora Priscila Guimarães, que trabalha em uma escola, localizada no bairro de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro (RJ), da rede municipal de ensino.

Dando aulas desde 2011, ela já aprendeu a tentar driblar as adversidades do dia a dia com apenas 26 anos. Hoje, é professora de língua portuguesa de duas turmas de 8º ano do ensino fundamental, com cerca de 35 alunos em cada uma. Três vezes na semana, na parte da manhã, entra na sala de aula pensando em dar o seu melhor.
 
Além da infraestrutura precária, o maior obstáculo enfrentado por ela é manter o interesse do aluno. “Ele foi obrigado pelos pais a estar ali. Acha que você é inimigo dele. Primeiro, temos que conquistá-lo e depois passar o conteúdo. É uma luta diária, até porque cada dia você passa por uma experiência diferente”, aponta.
 
“Mas não se pode simplesmente colocar a culpa no aluno. Se ele não está interessado, então penso: o que posso fazer para motivar? Será que é culpa dele ou é de toda uma estrutura?”, releva a professora, que também está em greve há mais de 60 dias, em apoio ao movimento puxado pelo Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (Sepe). “Há descaso do poder público e obviamente que eles não estão interessados se os alunos estão aprendendo. Nós é quem estamos e em alguns casos, a família.”
 
Um estudo Fundação Varkey GEMS, de Londres, organização não-governamenral, revelou no início de outubro, que dentre 21 países, o professor é mais valorizado na China. O Brasil está em 20º, à frente apenas de Israel. Ainda, a pesquisa mostra que os brasileiros confiam nos professores, mas os entrevistados acreditam que o sistema educacional atrapalha o resultado do ensino. E 95% acham que os salários são muito baixos.
 
Aprendizado na periferia
Também, Priscila é responsável por aulas do programa de Redes de Desenvolvimento da Maré, na comunidade da Maré, localizada na periferia carioca. Ela encontra as terças e quintas pela manhã estudantes que almejam cursar ensino médio técnico, e fazem com ela um preparatório para prestarem provas em colégios federais. “Ainda, levantar questão do espaço onde vivem para pensarem sobre seu local de atuação. Não é só preparar para prova, mas também fazer com que moradores reflitam sobre a realidade da Maré”, explica.
 

Priscila (segunda da direita para a esquerda) e grupo do Curso
Pré-vestibular chegam à Cúpula dos Povos, em junho
de 2012 (Crédito: Arquivo pessoal)
 
As quartas à noite, é a vez do pré-vestibular. Cerca de 40 alunos se preparam para fazer as provas no final do ano com a ajuda de Priscila. O público, além de estar no ensino médio, também é composto por estudantes que estão afastados há 15 anos da escola, em alguns casos. “Independente da idade, querem a universidade”, conta.
 
“Na maré, os alunos estão ali porque querem. Tem aquele prazer maior de querer aprender. Mas também por não terem essa obrigação do estudo, às vezes vão abandonando. Tem uma turma mais flutuante. O desafio ali é levar o máximo de informação para eles. Enquanto na escola, a preocupação não é que informações passar, mas como passar”, analisa ela. A turma do preparatório para ensino médio começou com 40 alunos. Atualmente, está com 20.
 
Ser professora
“Para mim, antes de tudo, poder ensinar é um sonho e uma grande responsabilidade”, diz Priscila confessando que sempre quis ser professora. “Você está lidando com o futuro de pessoas, é formadora de opinião, caráter e postura de um cidadão. Se quer mudar um país tem que pensar em educar.”
 
Na opinião dela, o papel do professor tem se modificado ao longo do tempo. “Se a sociedade muda e a escola não, passa a ser um problema. Então, vão ter mais desafios hoje sim. Não sei se maiores, mas pelo menos diferentes. Temos que adaptar para buscar esse novo ensino”, conclui.
 

Carolina Borges (esquerda), uma das alunas do Curso Pré-vestibular,
em aula-campo (Crédito: Arquivo pessoal)
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