A chegada das novas tecnologias à escola, se considerada sozinha, sempre pareceu insuficiente para o avanço das formas de aprender. Trazendo novos argumentos a essa discussão, o gerente de educação da Intel Semicondutores do Brasil, Rubem Paulo Saldanha, defendeu em seminário na Interdidática, em São Paulo, que a maioria dos professores é propensa a usar as tecnologias da maneira menos inovadora possível, praticamente só para fazer pesquisas, trocar emails e fazer cursos online.

 

Sonia Mele/Divulgação

Currículo com “cada coisa na sua hora” tem de ser repensado se quisermos que a tecnologia entre na educação, diz Saldanha

 

Saldanha apresentou, no dia 29 de abril, o seminário “A necessidade do Currículo Flexível nos Projetos de um Computador por Aluno”. O debate buscou provocar uma reflexão a respeito das adaptações que devem ser feitas no currículo escolar, para que a disponibilidade da tecnologia – principalmente nos projetos de um computador por aluno – não fique restrita a se transformar em mero livro eletrônico. Parafraseando Paulo Freire, ele disse que “frente a um mundo cada vez mais colaborativo, protagonista e autor, na escola o aluno ainda recebe as informações como ouvinte, passivo, memorizando mecanicamente os conteúdos, depositando-os divididos em caixas de acordo com a matéria do momento, sem fazer relação entre elas e entre estas e a realidade do seu dia a dia, em uma autêntica educação bancária”.

 

O gerente enxerga a escola brasileira como distante dos alunos, dos professores e da sociedade. “Os estudantes não se reconhecem lá dentro. Esse afastamento desmotiva os alunos, desvaloriza os professores e não abre espaço para o desenvolvimento da autonomia e para a construção do conhecimento. Vemos um currículo engessado, que prega ‘cada coisa na sua hora’. Isso deve ser repensado se quisermos que a tecnologia realmente entre na educação”. Quando o computador estiver na mão de todos, um dos grandes desafios será manter a atenção dos jovens. Com tantos programas e serviços disponíveis, não é difícil perder o controle de uma sala cheia de computadores, afirma.

 

Baseado em pesquisas que realizou entre 2007 e 2009, Saldanha afirma que os professores não são muito propensos a interagir com as pessoas pela internet, usando redes sociais e outros recursos voltados à autoria própria ou coletiva, característicos da web 2.0. “Eles usam a internet, sim, porém mais para enviar e receber e-mails, fazer pesquisas acadêmicas, cursos online e até baixar músicas”. Ele acredita que os professores precisam sair de sua zona de conforto, forçar um pouco para adquirir confiança. “Há uma resistência. Mas eles precisam se esforçar para que não acabem simplesmente acostumando o novo meio a sua maneira. É preciso se acostumar ao novo meio, fazer coisas inovadoras. Não adianta ter computadores na sala de aula para fazer ditado no editor de texto”.

 

Sonia Mele/Divulgação

“Dizem que o mimeógrafo é antigo, mas é o uso que faço dele que é assim”, diz Mary Grace, comparando com as TICs

 

Após a palestra de Saldanha, a pedagoga Mary Grace Martins entrou em cena para falar sobre ‘Desafios e possibilidades de uso das TIC na Educação’. Segundo ela, quando uma tecnologia é inserida na escola, o professor automaticamente percorre um caminho de superação de desafios: entra, adota, adapta, se apropria (percebe sentido), inventa (é capaz de elaborar uma aula, criar, mudar). “Um exemplo é o portal do professor do MEC. Lá, podemos pegar aulas prontas, adaptar e criar novas aulas, publicar ou simplesmente olhar e se inspirar. Tudo depende do grau de confiança do educador.”

 

 

Para Mary, um dos principais desafios é tirar o foco da tecnologia, do aprender informática, e deixá-lo no conteúdo. O suporte tem de ficar quase invisível, para o pedagógico aparecer de verdade. “O trabalho com TICs na educação não envolve apenas aspectos técnicos. O mais importante é o currículo. Estamos cansados de criar apenas consumidores de conteúdo, precisamos incentivá-los a criar”. Os jovens já estão inseridos na era digital – acostumados a jogar, usar serviços de mensagens instantâneas e outros recursos dos computadores e da web. “Os alunos têm habilidade técnica, facilidade de uso das TICs, porém o professor precisa orientar esse uso para garantir melhores condições de aprendizagem. Não é natural que eles usem espontaneamente a tecnologia para educação, produção, análise etc. Não é preciso dar aula de informática, mas sim utilizar as tecnologias em diferentes contextos de aprendizagem”, diz a pedagoga.

 

Com a inserção dos computadores nas salas de aula, o objetivo nunca deve ser utilizar a ferramenta, mas sim aprender algo. “Dizem que mimeógrafo é antigo, ultrapassado, mas é o uso que faço dele que é assim. Mesmo se fosse o único recurso disponível, poderíamos fazer um uso bacana. Essa é a grande questão”, completa Mary.

 

Ela dá algumas dicas para os professores que pretendem incorporar a tecnologia em classe: trabalhar com roteiros de aprendizagem (webquests, webgincanas etc) e propor atividades socialmente reconhecidas (produção de vídeos, CDs, quadrinhos, jornais, podcasts etc). “Não adianta dizer apenas ‘façam uma pesquisa na Wikipedia. Precisamos propor atividades que tenham valor para o aluno, que ele leve para casa e mostre para a família. Só assim os jovens vão se envolver e aprender mais”.

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