São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Goiânia, Curitiba, Porto Alegre, Salvador, Campinas, Cuiabá, Florianópolis, Vitória, Uberlândia, São José do Rio Preto, Teresina, Santos, Aracaju, Brasília, Campo Grande, Fortaleza, Recife, João Pessoa e Sorocaba são as cidades brasileiras onde a TV digital já está em funcionamento.

 

A transição para o sistema digital vai até 29 de junho de 2016 e está acontecendo aos poucos. Por isso, ainda não são todas as emissoras que estão transmitindo no novo formato. Além disso, embora os domicílios munidos de antena UHF e televisores digitais ou conversores – também conhecidos como o set-top box (STB) – usufruam de imagens de melhor qualidade e sem chuviscos, os brasileiros ainda não podem interagir verdadeiramente com a programação que recebem.

 

Interatividade na TV Digital, quando for
possível, deverá depender da internet

 

O Portal do Instituto Claro entrevistou três pessoas que pesquisam a fundo o tema e trouxe uma triste evidência para compartilhar: o fato de que a TV digital deve demorar, e muito, para ter impactos significativos na educação brasileira. Dois motivos se apresentam. O primeiro é que o novo sistema, embora transmitido abertamente, não pode ser ainda considerado democrático, pois depende da compra de equipamentos específicos pelos cidadãos, o que talvez ainda demore a acontecer. O segundo, mais sério ainda, é que a tão propagada interatividade – principal diferença que existe entre o sistema digital e o analógico – na verdade ainda não está minimamente disponível para os cidadãos. A questão se agrava pelo fato de que para ter interação, o usuário da TV Digital será obrigado a ter internet, o que também dificulta a democratização dessa nova mídia.

 

Promessas e potencialidades para o aprendizado
A interatividade é considerada a grande inovação do sistema de televisão digital, por permitir que as emissoras de televisão ofereçam aplicações com a participação dos telespectadores, sem a necessidade de computadores ou outros equipamentos adicionais. Na educação, ela é a grande promessa para professores como Sergio Amaral, que pesquisa usos educativos da televisão digital no Laboratório de Novas Tecnologias Aplicadas na Educação da Unicamp (LANTEC) e no Programa de Pós Graduação da Unesp. Para ele, “com a interação, a TV Digital é mais que televisão.”

 

Segundo Amaral, a TV digital tem muita chance de melhorar a educação a distância e as pesquisas de uso da ferramenta caminham fundamentalmente nessa direção. “Nosso desafio é criar um ambiente de ensino-aprendizagem na televisão – e isso não foi feito nunca nesse suporte. Não se trata de mais Telecursos. Temos que fazer um espaço para que o aluno entre na aula e possa interagir com o conteúdo. Só que esta interação também não é ‘clique na alternativa correta’, é questionar, conversar com o palestrante se for ao vivo”, explica.

 

Sergio Amaral avalia que esse tipo de tecnologia irá permitir que o professor dê aula por meio da televisão como se fosse uma aula presencial. “Só que o professor deve associar-se à linguagem televisiva. Não pode ser simplesmente uma aula gravada, senão ninguém agüenta”.

 

Acervo pessoal

Cosette: “Conteúdos partirão do princípio de diálogo com o público”

 

Dessa maneira, já não será uma empresa a responsável pela produção do conteúdo, e sim, os próprios professores do curso de ensino a distância. É por isso que Sergio Amaral destaca a importância da multiplicação de canais, que, como ressalta, depende de vontade política e é o que permitirá “o grande salto da TV digital”: “a expectativa é que as universidades possam ter seus canais”, afirma. Nesse caso, além da capacitação de professores, outro grande desafio será em relação aos custos de produção, que são caros quando se trata de televisão.

 

Para Cosette Espíndola de Castro, professora do Programa de Pós Graduação em TV Digital da Unesp, a TV Digital permitirá, ainda, vídeos coletivos, documentários com links – que podem ter mais ou menos tempo de duração, de acordo com o que os usuários escolhem -, envio de e-mails, ver a programação em múltiplas telas etc. “Um diferencial importante é que os conteúdos vão partir do principio de que você pode dialogar com o público”, diz.

 

O que muda para o educador
Para Sergio Amaral, “a TV digital é mais uma ferramenta da qual devemos nos apropriar e trabalhar a questão pedagógica. Estamos pesquisando agora porque não queremos cometer o mesmo erro que cometemos com outras ferramentas. A educação não aproveitou nem o rádio!”

 

Fernando Moraes Fonseca Junior, membro do Núcleo de Educação da Fundação Padre Anchieta, destaca que “em um primeiro momento, o que muda é que o aluno chega de um jeito diferente: mais informado, com um conjunto de práticas sociais que a escola não entende. Isso já acontece hoje com a internet: os alunos vão se apropriar antes que os professores. Daí a importância de incorporar o que o aluno tem, pesquisar, buscar informação”.

 


“SBT, Record, Rede TV e Globo já começam a testar a interatividade
em circuitos fechados, com objetivos comerciais”, diz Fonseca

 

Contudo, como a set-top box ainda não está preparada para que a interatividade aconteça dentro dela, esta por enquanto só pode ser planejada e testada em laboratório. Como explica Fonseca, até agora, a maior parte dos conteúdos já desenvolvidos e testados são conteúdos que permitem interação apenas por meio da internet. Ou seja, o aluno recebe o conteúdo pela televisão digital e tem que interagir usando um computador ou um celular. Segundo Sergio Amaral, em relação à interatividade ideal, o que os pesquisadores estão fazendo agora é pensar e desenvolver questões como conceito, formato e layout desse conteúdo para quando tudo estiver pronto e surgir a demanda.

 

Fernando Fonseca Junior conta que emissoras como SBT, Record, Rede TV e Globo já começam a testar a interatividade em circuitos fechados e já têm experimentações em programação interativa, com objetivos comerciais. Para ele, é a impossibilidade de interatividade que justifica sua afirmação: “Da maneira como a TV digital está hoje e ainda estará por algum tempo, não traz beneficio nenhum para a educação”.

 

Entenda por que a TV Digital é diferente da analógica

    • As imagens e sons são transmitidos em forma binária (1 e 0)
    • Como vídeos, áudios e sinais são comprimidos, é possível transmitir maior quantidade de conteúdo por um mesmo canal
    • Aumento do número de canais: para cada canal analógico, serão quatro digitais
    • Não há interferências, chuviscos e borrões: ou você vê perfeitamente ou não vê nada
    • Imagens chegam em alta definição, mas dependem da resolução do televisor
    • Possuirá interatividade, que depende de canais de retorno como telefone, banda larga, 3G

 

Segundo Fernando Fonseca Junior, ainda, o entrave da interação passa pela questão dos direitos autorais do Ginga, sistema de middleware desenvolvido pela Puc-Rio e pela Universidade Federal da Paraíba, responsável pela intermediação entre o hardware e as aplicações interativas. “Isso já patina há uns dois anos e não tem prazo para ser resolvido. Só quando isto estiver definido é que os conteúdos poderão ser efetivamente criados”. Ainda assim, segundo Fonseca Junior, quando a interatividade for liberada, vai demorar para que o telespectador possa, efetivamente, interagir. O motivo é que os equipamentos já comprados não corresponderão à nova tecnologia e precisarão ser atualizados.

 

Contudo, ele acredita no na TV Digital como potencializadora de aprendizado quando tudo estiver pronto: “A TV já consegue ensinar muita coisa, quando ela quer e quando ela não quer. A TV digital permite um passo além: ela proporciona uma experiência intensa, com possibilidade de se aproximar, tirar dúvidas, olhar novamente, receber explicação de outro espectador.”

 

Mais especulação que resultados
Outro argumento usado a favor da TV Digital na educação diz respeito ao seu caráter mais democrático, em comparação a outras mídias, inclusive a internet. Para Fernando Fonseca Junior, a TV digital, quanto ativa, deverá somar a interatividade da internet à presença maciça da televisão nos lares brasileiros. Ele e Cosette Espíndola de Castro citam as estatísticas: a televisão está em 98% dos lares do Brasil, enquanto apenas 20% da população tem computador com internet em casa.

 

 

Contudo, Fonseca Junior assume que quando se fala nessas estatísticas trata-se de especulação, pois quem está em 97% dos lares é a TV analógica e não a digital. Quem garante que a internet não vai se expandir mais rapidamente? Apesar disso, um fato a considerar é que, embora exija a compra de outros equipamentos, a transição para a televisão digital será obrigatória no país. Isso quer dizer que, por lei, quem quiser assistir televisão depois de 29/06/2016 terá que fazê-lo por meio da TV digital.

 

“Acredito que a TV ainda vai ser um meio de maior necessidade na média da população, justamente pelo hábito de ver televisão. Qualquer melhoria na TV faz qualquer um querer se atualizar. O computador ainda é visto como instrumento de trabalho e mais da metade nunca usou um computador”, defende Fernando Fonseca Junior.

 

Sergio Amaral concorda e considera o fato de a interação acontecer por meio de um aparelho que quase todo mundo já conhece e de grande penetração na sociedade, um diferencial favorável à TV digital. “O aluno não vai ter que gastar muito mais. Ele já tem uma televisão, comprar uma set-top box é mais barato que um computador e uma banda larga”.

 

Também para Cosette Espíndola de Castro “para a qualidade de imagem e a interação que a TV Digital vai permitir, seriam necessários um computador e uma conexão de internet muito bons, e, portanto, mais caros que a TV digital”. Ela afirma que a internet vai estar dentro da própria televisão.”É uma ruptura muito grande com a televisão que conhecemos”, diz.

 

Interatividade distante
Assim como afirma Fernando Fonseca Junior, uma TV Digital que possa ser realmente chamada de interativa, dentro dos moldes que conhecemos na web, por exemplo, ainda não é uma realidade para os brasileiros. Há problemas técnicos a serem solucionados, como é o caso do Ginga, citado pelo pesquisador, mas também existe o fato de que essa interatividade depende de outros equipamentos existentes na casa do telespectador.

 

Como explica o Fórum Brasileiro de TV Digital, um espaço que agrega emissoras de TV, indústrias de eletrônicos, acadêmicos e muitos outros agentes interessados no tema, para ter interatividade plena o usuário tem de ligar sua TV Digital a alguma rede de comunicações, como internet banda larga ou um modem de telefonia fixa ou móvel. Somente dessa forma poderá enviar dados, de forma a participar de enquetes, interagir com a programação ou participar de games.

 

Segundo Fonseca, “qualquer que seja o canal de retorno para a interatividade, este vai ter um custo extra para o usuário, pois dependerá de uma infraestrutura”. As opções de canal disponíveis hoje são a banda larga, por cabos, rádio ou pela linha telefônica, como o speed, e os serviços de 3G das operadoras de telefonia celular. Ele não descarta que essa infraestrutura venha a ficar disponível a custo baixo para o cidadão: “A questao é encontrar um modelo de negócio mais favoravel, a um preço mais barato que internet”.

 

Para saber mais

 

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