Aconteceu no dia 14 de maio, em São Paulo, o terceiro dia dos Encontros Estadão & Cultura, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. O evento discutiu as possibilidades e o futuro do livro digital, que vem ganhando espaço em nosso cotidiano com as novas tecnologias. Flávio Moura, diretor de Programação da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), e Samuel Titan, do Instituto Moreira Salles, conversaram mediados por Alexandre Matias, editor do Link, do Estadão.

O Instituto Claro, que publicou em abril a reportagem “Kindle, iPad e outros e-readers: o que eles já fazem e o que poderão fazer pela educação?“, esteve presente para descobrir o que o debate trouxe de novidades sobre como a leitura e o aprendizado são afetados, de uma maneira mais ampla, na era dos leitores digitais e da banda larga.

O ponto de partida para o debate foi o surgimento de suportes mais confortáveis que a tela do computador para leitura – e-readers, como o Kindle, e tablets, como o iPad. “Nunca consegui ler um livro inteiro no computador. É desconfortável a luminosidade da tela, a posição que precisamos ficar por muito tempo. Os dispositivos portáteis estão solucionando esses problemas”, diz Samuel, que acredita que o computador é um ótimo mecanismo para busca de conteúdo, mesmo se não quisermos ler com o suporte eletrônico. “A tecnologia potencializou minha vida de leitor de livros de papel. Antes da popularização da internet, era difícil achar algumas obras, muito caro importar. Hoje há diversas lojas que comercializam livros on line, com preços mais atrativos”, completa.

Flávio, por outro lado, ressaltou a importância da web para lermos revistas, ensaios e outros conteúdos complementares que não conseguimos comprar. “Mas é uma experiência diferente. Fazemos uma leitura ansiosa, com diversas janelas minimizadas. Nossa concentração é fragmentada. O iPad e o Kindle são muito úteis para esse tipo de experiência, pois permitem maior conforto e menos interrupções”, afirma. Ele também lembra um empecilho que os novos gadgets trazem consigo: a necessidade de formatos e plataformas exclusivas, pois o arquivo que roda em um aparelho não serve para o outro. “Um formato mais amigável é o PDF, que funciona em computadores e nos dispositivos portáteis. O mais interessante, a médio prazo, será a entrada do Google Books. A empresa disse que já digitalizou 12 milhões de livros, que servirão para qualquer device. Será um ótimo serviço publico”.

Samuel, que também é professor de Literatura na Universidade de São Paulo (USP), percebe que, na prática, os jovens ainda não estão fazendo um bom uso do conteúdo disponível na web. “Eu poderia pensar que, com o digital, meus alunos leriam mais e melhor, agora que têm acesso a tantas coisas. Porém, até agora, minha impressão é que eles estão lendo menos e pior. É frustrante ver que, quando peço a leitura de alguma obra importante, em vez de procurar um e-book completo, muitas vezes eles acabam pegando um resumo no Google ou Wikipedia. Além da preguiça e falta de tempo, acho isso é reflexo de um hábito coletivo de resolver problemas, que acaba esgotando nossa experiência”. Ele lembra que, no âmbito acadêmico, o PDF tem um papel extremamente importante, por sua velocidade de compartilhamento e facilidade de produção. “Um dos vetores por trás da transformação editorial que vivemos hoje veio da comunidade científica. Há muito tempo a troca de idéias não é só impressa, pelas revistas especializadas. Pesquisadores do mundo inteiro se comunicam a todo instante pelo meio digital. O PDF é quase que o veículo universal de publicação acadêmica. O paper geralmente é um documento digital”, diz o professor.

Época de mudança de paradigmas

Durante o debate, o momento atual de digitalização dos livros foi comparado com o que aconteceu há mais de dez anos no mercado editorial. “O fotolito sumiu e entrou em cena a edição eletrônica. Os custos despencaram e ficou mais fácil publicar. Surgiram diversas editoras pequenas e o panorama brasileiro ficou muito mais interessante. Um fenômeno parecido acontece agora, muito mais players podem entrar no mercado com as portas digitais. Há menos mediadores entre o desejo e a possibilidade de publicar. Qualquer autor, grupo literário ou político terá a chance de fazer o que até então era inviável. Podem surgir coisas interessantes”, acredita Samuel. Além de permitir o self publishing de material digital, a internet pode ser vista como uma plataforma de lançamento de autores, que começam seu trabalho na web e depois conseguem partir para os livros físicos. Flávio lembra que “alguns nomes razoavelmente consolidados no panorama brasileiro vieram desse meio. Autores novos, na faixa dos 30 anos, saíram da era digital, como Daniel Galera, João Paulo Cuenca, Cecília Giannetti e Daniel Pellizzari”.

Seis histórias inovadoras

O mediador da conversa destacou que algumas editoras, como a Penguin, já fizeram experiências realmente inovadoras com a literatura, agregando ferramentas digitais. “Não é apenas juntar um recurso a um livro comum. Só adicionar um vídeo no final da história, por exemplo, é muito simples. Coisas meramente ilustrativas só chamam atenção dos olhos. O interessante são conteúdos diferenciados, produtivos”, diz Flávio. O ‘novo’ livro digital pode representar um novo passo na literatura, principalmente com o advento dos tablets, que permitem mais experiências interativas e multimídia. Para o organizador da Flip, “agora podemos olhar literatura como algo mais amplo. O antropólogo Hermano Vianna diz que até os games estão na vanguarda de novas formas de narrar. Vivemos um momento embrionário. Tão importante que também é difícil de ser direcionado”.

Em 2008, a Penguin realizou a We Tell Stories, uma série com seis histórias de seis diferentes autores, cada uma amparada por um recurso digital diferente: o conto de fantasmas Slice usou blogs e Flickr, ‘feitos’ pelos personagens; em Fairy Tales, você pode decidir o nomes das coisas, pessoas e fazer outras escolhas que definem o rumo da trama; Your Place and Mine foi escrito por um site em tempo real, durante seis dias; 21 Steps é um suspense contado com o auxílio do Google Maps, que mostra os passos do personagem pelo mapa, além de fotos e conteúdo extra. Todas foram maneiras interativas e inovadoras de contar histórias, que não podem ser reproduzidas no papel.

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