A revolução na comunicação causada pela popularização da internet ainda está em curso, é um processo contínuo. Depois da apropriação dos ambientes web que conectam pessoas em tempo real, a sociedade passou a se organizar nesses ambientes visando também defender interesses. Por meio da internet, movimentos que carregam causas sem muita visibilidade no dia a dia da grande imprensa ou das pautas políticas, como a indígena ou a causa afro, têm conseguido ampliar suas atuações, reforçar laços entre seus membros e promover uma valorização de suas respectivas culturas.

Tendo em vista a possibilidade de criação de perfis em redes sociais, blogs, fóruns e sites,o fato é que hoje até mesmo comunidades que estão distanciadas de um convívio social mais intenso podem interagir intensamente com o mundo. Na Amazônia, o programa Curumim Digital, organizado pelo Projeto Rondon em 2011, trabalha justamente com a ideia de tornar possível que uma dessas comunidades utilize a tecnologia a seu favor. A iniciativa foi responsável pela criação de um blog para a reserva indígena Beija-Flor. O interessante é que a solicitação para esse serviço havia partido dos próprios habitantes da reserva, que queriam divulgar o artesanato que produziam, além de disseminar na internet as oportunidades turísticas da região em que moram.

A descoberta

Luísa Souza, estudante da Unipampa (Universidade Federal do Pampa) e membro da iniciativa para a criação do blog, conta que os índios da comunidade conheciam pouco sobre internet e aparelhos eletrônicos. Por isso,o projeto teve de ser dividido em etapas. A primeira tinha como objetivo ensinar conceitos básicos, como ligar o computador e ficar online. As fases seguintes serviram para auxiliá-los a utilizar o blog como uma ferramenta do dia a dia. O projeto foi desenvolvido em parceria com o estudante Fabrício Silva, da Unifran (Universidade de Franca).

Luísa Souza

Educador e membro da tribo durante atividade de oficina

“Foi engrandecedor ver a alegria deles quando postaram no blog pela primeira vez. Para muitos, era o primeiro contato com o computador”, conta Luísa. O trabalho foi realizado com cerca de 20 habitantes da comunidade, que tinham a possibilidade de repassar o conhecimento que adquiriram a outros moradores da tribo que se interessassem.

Para Luísa, a adaptação às condições locais foi um fator importante. Ela conta que, em determinada circunstância,o grupo teve de usar a parte de trás de um banner para apresentar uma projeçãode slides dentro de uma oca. Em outro momento, o chão de terra serviu como lousa e os dedos, como giz, para demonstrar o funcionamento de uma câmera fotográfica.

Segundo o cacique da reserva Beija-Flor, Fausto de Andrade, “o blog ajudou bastante a divulgar o trabalho da comunidade e o artesanato”. Ele afirma que o número de visitas à tribo também aumentou depois da criação da página na web. O objetivo é que, daqui para a frente, os moradores da reserva continuem atualizando o blog com seus trabalhos e atividades. Recentemente, a reserva inaugurou a Etnotrilha do Selvagem, uma trilha pela floresta que serve para apresentar aos visitantess um pouco da cultura, dia a dia e hábitat dos moradores da comunidade. O evento também teve direito a cobertura fotográfica através do blog.

Os participantes do projeto também produziram um vídeo sobre as atividades na região:

https://youtu.be/92TZTmP8ugM

É preciso empoderar os movimentos por meio das TICs

Em Alagoas, as TICs estão sendo trabalhadas pelo pesquisador Ronaldo Araújo com o objetivo de fortalecer laços do movimento afro e ampliar sua capacidade de mobilização. Professor e coordenador de pesquisas na Universidade Federal de Alagoas na área de tecnologia da informação com foco em ciências humanas, comunicação e arte, Araújo iniciou neste ano o mapeamento de ambientes web mantidos por grupos daquele Estado para avaliar o quanto eles interagem, trocam informações e divulgam ações e eventos uns dos outros. A pesquisa faz parte do projeto de extensão “ÒdeAyé Conectado”. “Fiquei surpreso pelo número de ambientes web mapeados -foram 19 ao todo- e pela atividade intensa em alguns deles. Mas percebi que a interação entre eles ainda é restrita, e a ideia é trabalhar esta questão, pois a fragmentação enfraquece o movimento”, explica o pesquisador. A metodologia para avaliar a interação foi centrada inicialmente em um estudo de blogrools, uma lista que a maior parte dos blogs apresenta com indicação de outros ambientes web a serem visitados. Em um segundo momento, as publicações de conteúdo dos grupos na web também foram avaliadas. “Agora vou promover um encontro presencial para confirmar ou retificar esta percepção inicial e seguir com as práticas previstas, que incluem discussões de estratégias para divulgação de causas em comum e compartilhamento de experiências e ações web que tiveram como objetivo o engajamento”, conta o líder da pesquisa. Atualmente, o movimento afro de Alagoas está espalhado pela rede em blogs e até em fan pages do Facebook que destacam aspectos culturais, sociais e políticos, e Araújo defende que empoderá-los com o auxílio das TICs é essencial para aumentar a capacidade dos grupos de sensibilizarem a sociedade.

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