Em maio, a Intel divulgou a última versão do seu estudo “Global Innovation Barometer”, uma pesquisa focada em educação, que ouviu cerca de 12 mil pessoas pelo mundo. O Brasil está fortemente representado nas páginas do estudo, que indica que mais de 80% dos brasileiros acredita na força das tecnologias para impulsionar a educação no país. Um dado ainda melhor da pesquisa reforça que, mundialmente, a geração dos chamados ‘millenials’ acha que uma das principais áreas onde a tecnologia pode ser benéfica é, justamente, a educação.

Ao todo, os números do Brasil parecem promissores. 77% dos entrevistados acredita que ‘escolas e professores devem se apoiar mais na tecnologia’; 57% acha que deve haver mais educação tecnológica nas escolas; e 65% acredita em uma melhoria na relação aluno-professor com as tecnologias. Mas apesar dos números mostrarem um olhar positivo sobre a utilização das TIC, o quanto o país está realmente acompanhando estes avanços na prática das salas de aula?

Para Beth Almeida, professora doutora da PUC-SP e pesquisadora do uso de tecnologias na educação, e para Gisele Cordeiro, Coordenadora Pedagógica do CIEP Adão Pereira Nunes, no Rio de Janeiro, o Brasil está avançando bem no quesito uso de tecnologias na educação, mas ainda estamos longe do patamar ideal. “Acredito que estamos evoluindo, mas é preciso ousar mais. As políticas públicas nessa área ainda são tímidas”, indica Gisele.

Já para Beth, é importante lembrar que os projetos piloto de inclusão de tecnologias nas escolas já não são mais pilotos e começaram a se expandir, o que é um bom sinal. “Nós tivemos o UCA [Um Computador por Aluno], o ProInfo e hoje já temos até o ProInfo Rural. Claro que temos que pensar que ainda não estão universalizados, porque ter um laboratório em uma escola é muito pouco, mas é um avanço”, defende a professora.

Mas o ponto mais importante a se tocar vai além das políticas públicas de inclusão das ferramentas em sala de aula. A formação de professores para que o uso das tecnologias tenha resultados educacionais positivos é ponto chave para garantir o avanço. “Mesmo que os professores que estão terminando suas licenciaturas hoje já tenham um nível muito bom de inclusão digital, o uso pedagógico dessas tecnologias envolve um outro conhecimento, e isso ainda precisa ser muito trabalhado na formação”, afirma Beth.

Para ela, a formação continuada é essencial para que os professores cheguem à fluência digital necessária na sala de aula do século 21. Além disso, criar grupos de trabalho para que aconteçam trocas de conhecimento com frequência também é um atividade importante. “É fundamental que essa formação tenha como eixo a experiência do professor com o uso das tecnologias. Não pode existir um curso centrado apenas na instrumentalização, nem apenas teórico. Tudo deve estar integrado à prática pedagógica”, aponta.

E para que esses recursos cheguem à escola com força para engajar e ensinar os alunos, é necessário que o educador saiba criar atividades com as quais os estudantes se identifiquem. Conhecer a cultura dos alunos é um dos primeiros passos para que a inclusão das TIC em sala de aula seja bem sucedida. “Precisamos ser mais objetivos nos currículos e oferecer oportunidades de situações reais de aprendizagem aos alunos, onde eles possam experimentar, tomar decisões e criar”, defende Gisele.

Mas para Beth a utilização das tecnologias na escola não engloba apenas a necessidade de utilizar uma linguagem parecida com a dos alunos para que o processo de ensino e aprendizagem se aprimore. A educadora afirma que a inclusão social, um dos papeis da escola hoje, passa também pela inclusão digital. “Não se pode mais pensar em formar uma geração excluída digitalmente. A tecnologia para o aluno, hoje, é instrumento da sua cultura e o trabalho deve ser feito a partir do que é a cultura do aluno”. Gisele acrescenta que o professor deve “compreender o que motiva e aguça a curiodidade dos seus alunos e incluir isso em seu planejamento de forma consciente e transparente”.

Como muitos educadores já estão integrados às tecnologias, colocá-las como ferramenta escolar, de forma rica para os alunos, não é um passo tão longo. Para ambas as professoras, vale iniciar analisando os recursos que a escola já tem à mão. “Um bom começo é observar seus alunos, circular pelas redes para ver o que existe de novo e criar redes colaborativas com outros colegas para discutir, refletir e aprender sobre novas possibilidades”, indica Gisele.

Utilizar os Recursos Educacionais Abertos (REA) também é uma opção para professores procurarem referências e materiais que podem ser incorporados à sala de aula. “É importante que o professor saiba avaliar e selecionar os REA que sejam adequados para o seu contexto de trabalho, para o aluno e de acordo com as condições para o uso na escola”, explica Beth.

Mas o mais importante é que o estudo seja contínuo. Afinal, os recursos se atualizam quase que diariamente. Para Gisele, “todos teremos a tarefa de ser eternos ‘aprendentes’. A velocidade da comunicação, da informação e da criação avança e precisamos estar atentos para as mudanças. O professor que não aprende, não terá ferramentas para ensinar seus alunos a aprenderem.”

E os desafios não param de aparecer. As tecnologias não estão presentes nas escolas apenas por meio das políticas públicas, mas na mão de cada um dos estudantes – os tablets e celulares fazem parte da vida dos alunos, em todas as redes de ensino. Beth avalia que o uso pedagógico efetivo das tecnologias na educação acontece na integração dessas com o currículo escolar. “Integrar tecnologias com o currículo é muito mais do que fazer intermídia com o conteúdo curricular. Integração mesmo é ir além, fazer uma articulação entre as informações e criar diferentes linguagens em vídeo, som, imagem”, exemplifica. E é justamente nesta integração que as TIC começarão a transformar a sala de aula tradicional.

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