A preocupação de um professor com as condições de estudo dos seus alunos fora da escola demonstra comprometimento com a profissão. A busca de soluções, quando este professor constata que as tais condições não são as melhores, demonstra ainda mais: que ele também carrega consigo entusiasmo e disposição para tentar melhorar o nível da educação no país.

 

Divulgação

No celular, um dos quizzes criados pelo professor Suintila sobre física

 

Suintila Valiño Pedreira, 44 anos, tem perfil que se encaixa neste segundo grupo mais “completo”. Professor de Física em Campo Grande (MS), ele observou que parte dos seus alunos do período noturno da Escola Estadual Consuelo Muller não conseguia fazer as lições de casa, tampouco ler as páginas do livro didático indicadas em sala.

 

“Aqui em Campo Grande há duas fábricas de massa onde muitos deles trabalham. Por se tratar de produção de alimento, são ambientes que exigem máxima higiene, e os livros têm que ficar longe dali”, diz Suintila. Após refletir sobre aquela realidade, um ideia ocorreu ao professor: oferecer alguns conteúdos aos alunos pelo celular. “Todo mundo carrega um telefone hoje em dia. E os celulares, de um jeito ou de outro, estão sempre por perto”, justifica.

 

A primeira maneira que encontrou para materializar a ideia não oferecia possibilidade de interação do aluno com o conteúdo sugerido via celular. “Eu enviava torpedos com resumos das teorias e com fórmulas”, diz.

 

Os custos dessa iniciativa ficavam por conta e risco do docente, o qual utilizava o seu plano de telefonia que inclui 300 torpedos por mês.

 

Os resultados não apareceram na proporção esperada. Suintila tinha a impressão de estar “falando sozinho” e, por isso, investiu mais dezenas de horas na busca de um outro recurso.

 

“O meu objetivo é colocar conteúdo que represente um livro didático, ou grande parte dele, num celular, mas ainda não descobri como fazer isso”, admite o professor, entusiasta dessa tecnologia como ferramenta pedagógica.

 

Imagem do conteúdo de um quiz enviado para os alunos

 

Enquanto não atinge o objetivo maior, Suintila comemora um outro caminho interessante que descobriu recentemente e que “conquistou” os alunos. “Encontrei o Mobile Study no site de uma universidade australiana e esse aplicativo me permitiu fazer vários quizzes.”

Os questionários, como explicou o professor, são criados ainda no computador. Depois, baixados para o celular. O arquivo, então, é enviado por SMS ou por bluetooth.

 

Para que o quiz funcionasse como uma ferramenta “casada” com o assunto exposto em sala de aula, Suintila estabeleceu uma dinâmica para os retornos: após receber o arquivo, o aluno tem até uma semana para responder. “Mas eles respondem muito antes disso”, afirma. “Eles” são cerca de 80% dos que compõem o grupo de alunos.

 

Cristina Gonçalves Bonfim, aluna do professor Suintila que cursa atualmente o 3º ano, aprova a atividade. “Assim é mais fácil aprender. Ele envia, a gente responde, e, se estiver errado, ele já responde novamente com explicações. A gente vai interagindo até enviar a resposta correta”, diz Cristina, que em seguida acrescenta: “Desse jeito, até na fila de um banco podemos estudar.”

 

A dinâmica virtual pode se estender para o presencial. Como relatou a aluna, houve ocasião em que ela acertou a resposta mas ainda ficou com dúvidas sobre o assunto. “Quando cheguei na aula, o professor já sabia qual era a minha dificuldade e rapidinho ele conseguiu me explicar aquilo que eu não havia entendido muito bem”, conta Cristina.

 

 

Sobre o conteúdo enviado em formato de quiz, o professor diz que, por se tratar de um arquivo pequeno (400kb), os alunos costumam guardá-lo na “caixa de entrada” do celular e consultá-los até nas vésperas de provas, como uma forma de revisar o que foi aprendido.

 

Em busca da independência
Apesar de satisfeito com o avanço obtido no sentido de utilizar o celular como ferramenta pedagógica, o professor Suintila destaca uma preocupação que o acompanha. “Estou totalmente vulnerável à universidade que disponibiliza o aplicativo. Se quiserem tirá-lo da rede, não tenho mais como oferecer esse recurso de aprendizado aos alunos.”

 

O esforço dele agora, portanto, é para conseguir desenvolver um aplicativo semelhante. Devido à formação que possui (além de físico, é técnico em eletrônica), já deu alguns passos iniciais, mas lamenta a falta de parceiros. “Seria bem mais fácil se alguma empresa se interessasse por investir no desenvolvimento e na massificação da ferramenta, que é uma solução simples, mas que tem efeitos enormes”, opina Suintila.

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