Graduado em Pedagogia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e com mestrado em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) com a dissertação “A Pedagogia da Migração do Software Proprietário para o Livre: Uma Perspectiva Freiriana”, Anderson Fernandes de Alencar tem fortes convicções relacionadas ao uso das tecnologias no ambiente de ensino. Ainda assim, continua a pesquisar. Agora doutorando (novamente pela USP), está discutindo o tema “O conhecimento livre e a mercantilização dos bens intelectuais: implicações no campo da Educação”.

O trabalho deste pedagogo, que não por acaso atua no Instituto Paulo Freire, gira em torno de relações entre tecnologia, sociedade e educação. Ao longo dos anos, ele descobriu que, antes mesmo dessa “sociedade conectada”, a tecnologia, como instrumento político, já era discutida por quem idealizava uma educação para todos, a exemplo do pernambucano Paulo Freire.

Na entrevista abaixo, Alencar – que foi palestrante no 10º Fórum Internacional do Software Livre, em Porto Alegre, discursando sobre casos de migração do software proprietário para o livre -, fala sobre as relações entre uma educação popular e o uso dos softwares, e relata suas impressões acerca do tratamento do assunto software livre no mundo acadêmico.

De que forma você defende a utilização do software livre na educação?

Eu defendo que a tecnologia tem de ser usada de forma consciente na educação, seja com software livre ou com proprietário. Não pode ser: “Ah, chegou um novo software livre, vamos comprar e tentar mudar o ensino”. Defendo que todo o processo tem que ter reflexão. O mito da novidade não é benéfico. Como disse o educador Paulo Freire, uma ação tem que estar atrelada a uma reflexão. Ou seja, se você só adota uma nova prática sem levantar questões, você comete o erro do uso pelo uso, sem finalidade. Quando um educador decide que ele quer promover uma inovação utilizando um software livre, ele tem que ter bem claro o que aquilo realmente representa: vou usar por quê? Para quê? A favor de quem?

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Já que você citou Paulo Freire, gostaria explicasse o que defende na sua tese de mestrado, que diz que o educador já discursava sobre a democratização à tecnologia num momento do século XIX em que esse tema ainda não estava nos centros de debates.

Ele (Paulo Freire) já defendia que a educação é política, defendia que não existe a educação neutra, que não podemos fazer uso neutro da tecnologia, pois é necessário se escolher um caminho. Ou seja, ele fala de uma ação política mesmo. E a discussão do software livre passa pelo escopo político. Ele fala da crítica à dependência tecnológica e de uma tecnologia a serviço das causas de emancipação e mudança social. Tudo isso tem muito a ver com os conceitos que cercam o software livre, que é tido como uma opção para um mundo mais “humano”.

Existe a possibilidade da infoinclusão sem o software livre?

Eu não creio, mas vai depender da concepção de inclusão digital de cada um. Tem gente que acredita que a infoinclusão só acontece quando os alunos também conseguem produzir conhecimento, outros acreditam que mobilizar pessoas, formar turmas e colocar alunos em contato com os softwares já significa muito, e que isso não precisa ser feito, necessariamente, com software livre. Temos ainda as instituições que fazem uso do dual boot (uso de dois sistemas operacionais – um com código aberto, outro fechado). Há quem condene a prática, mas o CID (Comitê para Democratização da Informática), por exemplo, tem bons projetos sociais e faz dual boot.

É, mas a impressão que se tem é que a corrente de pesquisadores e educadores que defende o software livre faz uma certa pressão para que os que o utilizam tomem partido e demonstrem apoio à causa…

É, entendo o que você está falando, mas é uma pressão positiva, porque alguns projetos citam, por exemplo, o termo “emancipação digital”, mas como emancipar pessoas no mundo digital se você aprisiona elas ao sistema? A pressão que existe é para que o discurso seja coerente com a prática. Se você parte de uma concepção emancipadora, realmente é contraditório utilizar software proprietário. Além disso, tem a filosofia de replicar, por isso que digo que é uma pressão positiva, porque replicar conhecimento e compartilhá-lo é algo humano, solidário.

Essas questões do software livre e da filosofia que o cerca, presentes na sua tese de mestrado, serão mantidas no doutorado?

Poderei passar por essas questões, mas o meu objeto de estudo é a mercantilização dos bens intelectuais e os seus impactos na educação. Na verdade, quero descobrir se essa mercantlização do saber está afetando a educação. Pois se uma grande parte do saber humano é proprietário, como fica a educação? Quero ver também como as instituições, que se deparam com uma nova fase devido aos cursos de educação a distância, estão lidando com as licenças. Realmente todos os materiais disponibilizados pela web para os alunos têm as licenças pagas? Como é promover educação a distância quando ainda vivemos num mundo digital bastante proprietário? Tudo isso eu quero conseguir responder.

Estando numa das principais universidades do país, onde circulam pesquisadores do Brasil e do mundo, como você observa a discussão do software livre no meio acadêmico?

A discussão ainda precisa ser ampliada. O que percebo é existe a preocupação de se discutir uma pedagogia crítica. Há poucos dias vimos um exemplo quando a USP anunciou o adiamento do início da primeira graduação a distância da universidade [Licenciatura em Ciências, cujo vestibular seria em agosto], pois foi feita uma análise crítica e, para alguns, o modelo ainda não era o ideal. Embora eu tenha várias ressalvas a essas questões, acredito que é esse o caminho: tem que se pensar sempre nessa linha do “a quem serve essa universidade?”. Bem, mas sobre o software livre especificamente, existe um movimento, sim, para defendê-lo. Temos já grandes repositórios na web onde é possível compartilhar grandes pesquisas e há muito pesquisador fazendo isso. Utilizando, por exemplo, o Internet Archive [site de uma organização sem fins lucrativos dedicada a manter um arquivo de recursos multimídia e disponibilizá-los gratuitamente] e utilizando para as obras a licença Creative Scientific, criada nos moldes da Creative Commons [ao escolher essa licença, o autor oferece alguns dos seus direitos para qualquer pessoa, mas somente sob determinadas condições, como utilizar o crédito do autor, não usá-la para fins comerciais ao distribuí-la, só distribuir obras derivadas sob licença idêntica à licença que rege a obra original etc].

Mas deve haver uma corrente da resistência…

Eu diria que essa corrente é muito mais motivada por questões comerciais. São os que defendem que “quando coloco algo na internet, as vendas caem”, mas isso já foi objeto de estudo e pesquisas comprovaram que não é uma regra. Em relação aos livros, por exemplo, o suporte do papel ainda é muito importante. Pela praticidade, pela mobilidade. Os e-readers ainda são caros, inacessíveis à imensa maioria e levarão tempo para serem realmente substitutos os livros, se é que em algum momento isso acontecerá.

 

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