O III Simpósio Online de Educação a Distância, realizado no fim de novembro pelo Portal Educação, trouxe discussões sobre as mais atuais ferramentas e metodologias utilizadas em EAD. Os debates levantaram questões pertinentes ao futuro da modalidade, tendo em vista as posições do poder público e as possibilidades tecnológicas das quais se pode tirar proveito.

A primeira – e, aparentemente, inesgotável – discussão na mesa “Perspectivas do MEC para a EAD” foi em torno do reconhecimento pelo MEC do ensino a distância. Hélio Chaves Filho, diretor de regulação e supervisão em EAD da Secretaria de Educação a Distância (Seed), representou o Ministério. Segundo ele, a posição do MEC não é de combate à modalidade, mas sim de garantia de um bom acompanhamento dos alunos e do seu estudo: “A política do MEC é de identificação de falhas. Se a metodologia adotada é ruim, o aluno não é bem atendido e não obtém resultados satisfatórios. Há cursos em que alunos apresentam média de 0,5 presença ao mês”. Ele ainda relata o caso descoberto pelo MEC de alunos de Letras que se graduaram em EAD sem nunca terem feito uma redação durante o curso, já que até as avaliações eram sempre compostas por questões de múltipla escolha.

Um exemplo trazido à discussão foi o dos projetos telepresenciais, para os quais, segundo o MEC, o material disponível é adequado, porém, a metodologia é fraca, já que o aluno não tem o acompanhamento ideal. A coordenadora pedagógica da Universidade Católica Dom Bosco Virtual, Blanca Martín Salvago, concorda com a posição de Hélio e acrescenta: “A qualidade não depende tanto da modalidade de ensino, mas sim do atendimento ao aluno, da interação, do material disponível… Há muitos cursos presenciais que são ruins, assim como há cursos a distância excelentes”. Ela ainda discute o paradigma do autodidatismo na EAD, que não é o modelo correto de aprendizado: “O aluno de EAD tem que ser autônomo, e isso não significa estudar sozinho. O autodidatismo é muito pobre. Ele até pode buscar sozinho, na internet, bibliografia para os seus estudos, por exemplo, mas ele também precisa de um professor que o acompanhe. Aluno autônomo, sim, mas solitário, não”.

O reconhecimento de cursos de mestrado pela Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (Capes) foi um tema levantado pelo major Santos Silva, coordenador do projeto de Convergência de Mídias do Curso Regular, que possibilita filhos de militares nas fronteiras do Brasil cursarem o Ensino Fundamental e Médio (confira aqui reportagem sobre o projeto, que foi um dos vencedores do Prêmio Instituto Claro – Novas formas de prender na modalidade Desenvolvimento.

Reconhecimento e avaliações
O representante do MEC informou que não há hoje, no Brasil, nenhum curso a distância de mestrado reconhecido pela Capes, apesar de haver instituições que o digam. “Aqui, recorre-se a cursos de EAD de fora do país, mas isso não quer dizer que eles têm validade. Eles até podem ser feitos, a questão está na validade das certificações obtidas”. Isso também vale para os conselhos profissionais que oferecem cursos de EAD na condição de lato sensu: “A formação interna em instituições de renome vale para fora? Se elas não estiverem certificadas com o poder público, não há equivalência. Sem credenciamento certificado, não há validade nacional”. Você pode conferir aqui as instituições credenciadas no site do MEC.

Mas, como falar de educação a distância sendo que o modelo apresentado pelo MEC exige avaliações presenciais, por exemplo? E onde entram os pólos de graduação a distância nesse debate? Segundo o supervisor de EAD do MEC, o poder público encontra dificuldades no método de avaliação atual, já que os alunos estão espalhados pelo país (em 2008, eram 750 mil graduandos em EAD entre instituições públicas e privadas). Ainda assim, ele explica: “A garantia da autoria é o que motiva a regra de avaliação presencial no trabalho de conclusão de curso. Tem, sim, que mostrar o RG e assinar um documento”.

Dúvidas e deveres
O que pesa mais na qualidade do ensino, ele ser presencial ou o aprendizado verdadeiro? Essa questão trazida pelo Major Santos Silva em relação aos pólos de graduação esquentou o debate. Resumidamente, os pólos são locais estruturados de modo a atender adequadamente estudantes de cursos a distância, com biblioteca, laboratório de informática, tutores etc.

“Até agora, não nos convenceram de que retirar os pólos seja uma boa ideia”, disse o representante do MEC. “O poder público mantém essa estratégia pois foi um recurso encontrado que permite mais pessoas se formarem. Se 90% dos brasileiros não têm internet com banda larga em casa, por que pensar que os pólos são dispensáveis?” Segundo ele, frequentemente, na EAD, ignora-se a obrigação de bom atendimento, transmitindo ao aluno todas as responsabilidades do processo de aprendizado, como ter internet em casa, por exemplo.

Seguindo essa linha de raciocínio, segundo a qual os deveres das instituições vão sendo transferidos para os alunos de EAD, para Hélio, em algum tempo poderia se exigir dos alunos um laboratório de física em casa. Questionado se não seria mais vantajoso e barato para aquela pessoa que possui internet em casa não ter que ir ao pólo, ele responde: “E aquela pessoa que não tem, promovemos um atendimento diferenciado e com mensalidade diferente? Deve haver uma garantia de ensino observada pelo poder público. Não podemos olhar quem tem computador em casa como possibilidade de reduzir o tempo envolvido nos estudos, mas sim como uma oportunidade de ampliar esse tempo em casa”.

Dentro da discussão sobre os pólos, o papel do professor-tutor foi destacado. Na mesa sobre “Perspectivas tecnológicas para a EAD”, João Mattar, pesquisador de tecnologias aplicadas na EAD, lembrou que esses profissionais recebem muito pouco e chegam a atender até 400 alunos por turma. Ele diz: “Uma educação a distância que quer ser levada a sério não pode pagar R$ 600 para um tutor de 100 pessoas”. Susane Martins, coordenadora do Programa de Educação a Distância da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), discute: “Deve haver uma adequação da realidade. Que possibilidade instituições têm para manter um tutor por turma de 15 alunos? O que estamos buscando: interação mínima e produção maior? Tudo depende da capacidade que a instituição tem para preparar professores, tutores, e o tempo de dedicação que cada um deles tem”. Para Susane, “tutor” é apenas um termo que surgiu para diminuir o cargo, já que sua função é mediar ensino e aprendizado, assim como o professor no presencial.

Todos os debatedores concordaram que não deve existir distinção de exigências qualitativas com relação à EAD. “O nível de exigência deve ser o mesmo para que não haja discriminação”, segundo Blanca. A posição do MEC é de que deve haver um rito para trabalho desses docentes. Muitas instituições têm usado professores do ensino presencial para dar cursos a distância, sendo que eles podem não estar bem ambientados à modalidade. “A formação continuada desses professores é o que temos estimulado. Se o salário não é adequado, o MEC tentou encontrar uma solução nas bolsas de estímulo à pesquisa que vem dando”, disse Hélio.

Tendências
Quando incentivados a apontar tendências tecnológicas para o futuro da EAD, a coordenadora da Unisinos destacou a necessidade do discernimento: “O processo de inovação tem que estar ligado à aplicabilidade. Não podemos achar que tudo serve para tudo”. A entrada dos leitores digitais no mercado mundial, em especial o Kindle, da Amazon, que já está disponível no Brasil, foi o exemplo mais comentado. É claro que num primeiro momento, haverá custos, como o do próprio aparelho (que pode ser comprado por cerca de R$ 1 mil). Ricardo Ferreira, presidente do Portal Educação, vê um contraponto: “Mesmo com o custo inicial, valerá a pena, pois o intercâmbio das editoras deixará de existir e os livros estarão mais acessíveis”.

Hélio lembra de outras vantagens, como as ecológicas: “Além da portabilidade do aparelho, haverá uma crescente conservação de recursos renováveis, com menor número de árvores derrubadas para a produção de papel, por exemplo. Sem entrar na questão do ‘peso de mil livros’, que será reduzido”. Apesar disso, os debatedores não descartaram a preocupação em torno dos direitos autorais e da substituição das bibliotecas físicas pelas digitais que, segundo o representante do MEC, não apresentam material o bastante para serem consideradas suficientes a uma graduação, levando em conta, inclusive, as de domínio público.

A adequação dos professores ao leitor digital foi levantada por Susane. Segundo ela, o professor vai ter que trabalhar outras habilidades de abstração do conhecimento e percepção dos conteúdos da leitura, já que a cultura do tato na leitura de um livro será substituída e “outras práticas cognitivas deverão ser desenvolvidas”. O representante do MEC discordou da necessidade de “novas habilidades” e adequação do ensino trazendo o conceito de nativos digitais para a discussão: “Quem nasce, hoje, já tem esse cognitismo incorporado”.

Videorreportagem sobre o Kindle, no Olhar Digital

Ainda pensando no futuro, a representante da Unisinos apontou o Mobile Learning – qualquer forma de aprendizado que ocorra quando o aprendiz não está num ponto fixo ou locação predeterminada e tira vantagens das oportunidades oferecidas por tecnologias móveis – como a tendência para os alunos de EAD. A sua universidade se destaca no país em estudos na área.

Finalmente, o representante do MEC foi questionado sobre o uso da conexão à internet via rede elétrica. Segundo ele, o Ministério está comprando tecnologia para computador, com projetor acoplado e conexão via energia elétrica. A iniciativa “Projetor ProInfo”, que está em sua fase piloto, deve ser implantada nas escolas públicas que mostrarem ter estrutura para recebê-la – o que pode ser aproveitado pelos pólos de graduação. “Assim, um professor pode chegar no laboratório de informática, passar seus arquivos para o computador e dar a aula com o projetor.”

O simpósio, que também abordou outras temáticas ligadas à educação a distância além das perspectivas para a modalidade, apresentou diferentes visões sobre o tema, principalmente ao permitir que um membro do MEC discutisse com entusiastas da EAD assuntos pertinentes à realidade atual no país. Ainda há muito o que se discutir e aperfeiçoar, mas restou a nítida impressão de que o poder público está aberto a sugestões e ao debate que visem ao melhoramento do sistema educacional de ensino a distância.

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