Sérgio Amadeu da Silveira, sociólogo e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, é conhecido por seu trabalho em prol do software livre e da inclusão digital no país. É um dos grandes responsáveis pela implantação dos telecentros comunitários em São Paulo, foi presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação(ITI), participou da criação do Comitê de Implementação de Software Livre (CISL) e foi consultor de conteúdo da Campus Party 2009. Autor de várias publicações, entre elas Exclusão Digital: a miséria na era da informaç ão. Entre os dias 21 e 24 de julho, Sérgio participou ativamente do 11º Forum Internacional Software Livre (Fisl11), em Porto Alegre (RS). Em entrevista ao Portal do Instituto Claro, ele fala sobre o evento e discute os caminhos do software livre na educação.

 

Qual a importância do Fórum Internacional de Software Livre, como espaço para troca de informações sobre tecnologias livres?

É o principal evento do Brasil, e um dos mais importantes do mundo, sobre tecnologias abertas. Esse ano foi realizada sua décima primeira edição, ou seja, existe ele há mais de uma década. É um evento sui generis, porque reúne tanto desenvolvedores de softwares, quanto educadores, disseminadores, pesquisadores e acadêmicos. Junta empresas e comunidades, é uma ação completa. Por isso tem tanto sucesso. Cada vez mais, ele se afirma como um grande fórum de tudo aquilo que está acontecendo no mundo do software livre e do código aberto.

 

Como foi sua participação na edição deste ano, a Fisl11?

Este ano, eu fiz uma palestra sobre a conjuntura atual da internet. Mostrei quais são as principais disputas que existem na rede. Há as forças que querem reduzir as possibilidades de liberdade de expressão e de criação de conteúdos e tecnologias. Do outro lado, as forças que querem incentivar essa tendência extremamente importante, de garantir a inovação e a criatividade, não só de texto, de imagens, mas também de protocolos, de novas ferramentas que surgem a cada dia. A internet é uma obra inacabada. Exatamente por não ter um dono, por ser um arranjo colaborativo, por ser uma rede não proprietária, uma rede distribuída, ela permite que, a qualquer momento, uma pessoa invente uma nova aplicação para a rede, e que essa aplicação se torne um sucesso. Web não é sinônimo de internet. A web surgiu a partir dos esforços da equipe do Tim Berners-Lee e se popularizou a partir dos anos 90. Ela foi fundamental para disseminar a internet, o modo gráfico da internet, o protocolo http. Depois disso, foram criadas ferramentas como a Voz sobre IP e as redes Peer-to-Peer, de troca de arquivos. E tudo isso só foi desenvolvido porque você não precisa pedir autorização a ninguém para fazer essa criação. Então, no fisl11, eu quis expor os ataques que essa liberdade de criação na rede – não só de conteúdos escritos, visuais etc., mas também de tecnologias – está sofrendo hoje. A chamada indústria da intermediação, que vivia de intermediações tecnológicas no mundo industrial, não se conforma com a existência de uma rede distribuída que aumente enormemente o poder dos indivíduos (A íntegra da palestra pode ser baixada no Blog do Alex Moura).

 

O senhor também participou de uma mesa sobre educação com o Nelson Pretto. Como a cultura hacker pode mudar o ensino-aprendizado?

A escola está em crise na França, nos Estado Unidos, no Brasil, no mundo inteiro. A escola é um modelo fechado de disseminação de conhecimento, e ainda é muito hierarquizada. Hoje, ela enfrenta a realidade de que boa parte das informações, da produção simbólica da humanidade, está na internet. A internet é o maior repositório de informações já construído na história. Então nós precisamos recriar, repensar, os modelos de transformação, de informação e de conhecimento. Temos de trabalhar mais com o incentivo ao aprendizado, organizando processos de exploração de conhecimentos que estão codificados. Nós, educadores, precisamos prestar atenção nas comunidades hackers, no sentido tradicional da palavra, que são os aficionados por códigos. Eles são os criadores da internet, que desenvolvem software livre. Devemos observar como um menino de 14 anos está desenvolvendo códigos, enfrentando desafios e criando coisas excepcionais. O jovem quer entender aquele processo, quer se desenvolver superando suas limitações cognitivas, quer avançar. Então essa cultura hacker, de enfrentar desafios e compartilhar resultados com todos, pode auxiliar na educação. Tem tudo a ver com a mudança necessária no processo de ensino-aprendizado atual. Foi isso que discutimos na mesa organizada pelo professor Nelson Pretto.

 

Como os softwares livres, aplicados na sala de aula, podem contribuir para o processo de ensino-aprendizagem? Eles já são bem aproveitados nas escolas?

Não. O software, em geral, é entendido como se fosse uma ferramenta comparada a um bloco de notas. E ele não é isso. Na verdade, o que pode auxiliar na revolução necessária, que precisamos construir nas escolas, são as redes informacionais. Rede é um conjunto de protocolos e de softwares. Devemos utilizá-las como parte integrante do processo de ensino, incentivar os professores, junto com os alunos, a criar comunidades de aprendizado. Então o processo de desenvolvimento do software livre é mais importante do que o próprio software.

 

Para um futuro próximo, que caminhos inovadores o senhor enxerga para os softwares livres na educação?

Eu acho que o software livre tem feito muita coisa inovadora. Os desenvolvedores liberam códigos e criam uma série de ferramentas, que vão além dos programas efetivamente educativos. Há browsers que permitem que a gente etiquete sites, coloque palavras chaves e guarde em repositórios, como o del.icio.us. São extremamente úteis para organizar nosso processo de ensino-aprendizado. É um longo caminho de tecnologias abertas, desde plataformas para o ensino on line, como Moodle, até aquilo que popularizou a escrita na internet, que foram os blogs. O WordPress, além de repositório de blogs, é um software que pode ser instalado na escola. Existem também as ferramentas wiki, da Wikimedia Foundation, principalmente, que permitem a construção de processos colaborativos, tais como a Wikipedia, que é a maior enciclopédia já construída. Ou seja, já existe uma contribuição muito grande para a educação, mas ela mal começou. O desenvolvimento e uso de software livre é crescente, é a essência da internet.

 

Fazendo um balanço geral do Fisl deste ano, houve destaque para a educação?

Eu estive em diversas mesas do Fisl11, participei de discussões durante os dois dias. O fórum tem mais de 400 atividades simultâneas. Entre elas, há um eixo muito forte, especificamente de educação, que reúne educadores e outros profissionais que pensam o ensino. Os debates sobre como os processos e os softwares podem contribuir para a melhoria da educação foram uma marca forte do evento de 2010.

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