A robótica aparece cada vez mais nos currículos escolares no Brasil. Porém, problemas como escassez de professores preparados e falta de bibliografia na área impedem uma maior disseminação dessa prática pedagógica. Ainda assim, nas escolas em que oficinas do tipo se estabeleceram na sua grade, os resultados são positivos. Por meio da robótica, pode-se trabalhar o desenvolvimento de diversas competências do aluno, desde organização ou trabalho em grupo até conceitos da física e matemática, por exemplo.

Embora haja um grande número de kits de robótica padronizados à venda no mercado (leia mais, clicando aqui), um caminho talvez mais rico em termos pedagógicos passa pela chamada “robótica livre”, que trabalha com reciclagem de materiais eletrônicos e é geralmente baseada em software livre.

Divulgação/Colégio Dante

Alunos interagem entre si e desenvolvem projetos

No colégio Dante Alighieri, em São Paulo, as oficinas de robótica e mecatrônica acontecem há pelo menos 10 anos. E a procura por essas oficinas, extracurriculares, não para de crescer. A professora Renata Pastore, que foi uma das responsáveis pela implementação das oficinas, acredita que, na robótica, “quando o aluno começa, não tem como parar”. Diversos alunos do colégio participam das oficinas por mais de cinco anos, e a grande maioria segue para cursos na área das engenharias. Mas ela adverte que é necessário preparar docentes, e esse também é o principal problema enfrentado: “O professor precisa mudar o trabalho dele. Ele passa a ser um coautor do trabalho que ele realiza com o aluno. Ele precisa aprender como se colocar no lugar do aluno, e como parceiro do aluno”.

Renata também leciona no curso de pós-graduação da Faculdade Presbiteriana Mackenzie, na área de Tecnologia Educacional. Ela afirma que, apesar de alguns impedimentos (tais como custo e horário de oferecimento do curso), a procura vem crescendo, e a grande maioria dos professores que procuram essa especialização tem uma boa entrada no mercado de trabalho.

No caso do colégio Dante, os materiais utilizados variam de acordo com a idade dos alunos envolvidos na oficina, e os fins pedagógicos da mesma. No caso de oficinas para iniciantes, a escolha é por kits pedagógicos, já que neles existe todo um preparo anterior para a formação de habilidades lógicas e cognitivas. Como os kits são limitados, a partir de turmas mais experientes ocorre uma transição para a utilização de sucata e lixo eletrônico. Com esses materiais, as possibilidades são infinitas, segundo Valdenice de Cerqueira, coordenadora do departamento de tecnologia educacional do colégio. Junto com a utilização desses materiais, existe todo um trabalho com oficinas de arte e a respeito da questão ambiental envolvida na reciclagem do lixo eletrônico.

Mas nem sempre a escolha por materiais usados é de cunho ambiental ou social. Para Sérgio Américo Boggio, diretor de tecnologia educacional do Colégio Bandeirantes, “a montagem com peças do mundo real torna as experiências mais reais”. Ele organiza há anos no colégio uma oficina de mecatrônica que tem por objetivo despertar o interesse dos alunos para o mundo das engenharias.

Algir Facco/CMID

A robótica livre se utiliza de materiais diversos e do software livre

As oficinas são voltadas para alunos do 2º ano do ensino médio e pretendem ainda recriar em pequena escala processos industriais. Os materiais utilizados são de segunda mão, já que não é possível encontrar disponível no mercado peças “reais” e novas. Essa escolha, além de recriar problemas recorrentes nas indústrias, diminui o custo das oficinas. Com kits pedagógicos pré-fabricados, apesar do caráter educativo, problemas inesperados não aparecem e não exigem uma excelência na hora da montagem, “numa montagem real, se os alunos não puserem as peças alinhadas, o motor não funciona direito”, lembra Sérgio.

Há também uma iniciativa de utilização da robótica nas escolas, para além dos kits pedagógicos, que ocorre em Santa Maria, Rio Grande do Sul. No CMID (Centro Marista de Inclusão Digital), a prática da robótica encontrou ferramentas como o software livre, a metareciclagem e o recondicionamento de computadores. Há três anos, o CMID trabalha com a robótica livre, que é a utilização de hardware livre (por exemplo, a sucata), e o software livre. Com peças remanescentes do projeto de recondicionamento de computadores, alunos da oficina de robótica desenvolvem seus projetos. No colégio Marista, antes das oficinas de robótica livre, trabalhava-se com a robótica “tradicional”, que se utilizava de kits pedagógicos. Para Eloir Rockenbach, responsável pela implementação das oficinas, entretanto, “isso era muito distante da realidade, já que o colégio fica localizado numa periferia”.

Algir Facco/CMID

Um dos robôs desenvolvidos no CMID

Para Eloir, existe uma diferença prática muito grande entre a utilização dos kits e a robótica livre: “na robótica livre, nós fazemos parte do processo, ou seja, temos acesso àquele conhecimento, àquele código, mas não só conhecer, como também alterar. Na robótica livre, eu adapto, por exemplo, o software à minha ideia. No caso dos kits, eu que tenho, muitas vezes, que adaptar minha ideia ao kit”. O impacto social das oficinas também é um diferencial da utilização da robótica livre. A demanda por profissionais preparados na utilização de softwares livres, tanto pelo governo, tanto pela iniciativa privada, vem crescendo. Na robótica livre, toda a manipulação de códigos e hardwares é fonte de embasamento profissional para os jovens.

Tanto por motivos ambientais, sociais e financeiros, a robótica livre vem surgindo como uma alternativa aos kits pedagógicos. Porém, alguns problemas como a escassez de professores preparados ainda persistem. Como Sérgio Boggio lembra, “você não prepara professores do dia para a noite”. A implementação das oficinas de robótica na rede pública fica mais difícil com essa barreira, salvo o caso de iniciativas pontuais e centros de ensino técnico. O número cada vez maior de prêmios na área, e o apoio de empresas e governo mostram, porém, que a sociedade em geral se convence da importância de se aliar conhecimento e prática, por um ensino mais enriquecedor.

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