Sabe aquela imagem dos robôs apresentada nas produções hollywoodianas, nas quais eles são retratados com cabeça, tronco e membros e parecem sempre ter saído de um laboratório de última geração? Lembra que eles têm dezenas de botões, comandos obscuros e controles remotos que, quando falham, provocam caos e causam desespero nos seus programadores?  Esqueça tudo isso, pois a ciência dos robôs pode ser algo muito mais simples. E quem afirma isso são educadores e alunos que assimilaram os conceitos da robótica e os dissecaram nos ambientes educacionais a partir da prática nos laboratórios de informática.

Por mais decepcionante que possa soar aos apaixonados por ficção científica, robôs são simplesmente dispositivos autônomos programáveis controlados por um programa de computador. E esse programa pode ser armazenado, como qualquer outro, em um computador que temos em casa, no escritório ou na escola, ao invés de ser instalado em um “boneco” capaz de andar, falar e fazer tudo aquilo que vemos nos filmes de Steven Spielberg.

Desmistificados pelas empresas de softwares, que vislumbraram o nicho educacional, os robôs ganharam espaço em salas de aula e caíram na simpatia dos jovens. Como a programação de um robô requer a aplicação de conhecimentos de diferentes áreas, como a física e a matemática, a atividade demonstra um forte caráter multidisciplinar. “A robótica caiu como uma luva para a grade curricular porque propõe o estímulo do raciocínio, o trabalho em grupo e faz com que alunos se apropriem de produções científicas”, afirma Terezinha Cysneiros, diretora pedagógica do Colégio Apoio, do Recife. Neste mês, o grupo de alunos do Apoio conquistou o tricampeonato no Campeonato Regional de Robótica Lego e se classificou para a disputa do Brasileiro, agendado para outubro, em São Paulo.

Quer acompanhar as atividades da equipe independente Terradróide?

Os campeonatos são um aditivo importante do processo, um estímulo para os alunos, que passam a trabalhar em projetos que exigem dedicação e muita pesquisa. No Brasil, os mais populares entre as escolas são promovidos pela empresa Lego que, em parceria com a ONG First, realiza etapas em todas as regiões do país. De acordo com Adriano Gifone, consultor técnico da Edacom – empresa responsável pela organização dos campeonatos –, são 18 etapas regionais e uma nacional. A competição nacional, que sempre acontece em grandes arenas onde mesas repletas de estruturas legos concentram as disputas, é a fase que garante vaga nos mundiais.

Foi de um desses campeonatos, realizado na Dinamarca, que a equipe Terradróide – do município de São Caetano do Sul – retornou no início deste mês trazendo o troféu de campeã. Na liderança do grupo, nada de professor, mas um adolescente de 17 anos. Vinicius Milani formou uma equipe independente no ano passado, após se desligar do projeto de robótica da escola com o qual tinha contato desde 2003. “Eu queria poder dedicar mais tempo, pois realmente mergulhei no mundo da robótica e considerava pouco o horário que tínhamos na escola”, esclarece Vinicius. “Montei uma equipe e minha casa se tornou uma espécie de QG [quartel general] do grupo”, conta.

Uma casa espaçosa localizada em uma rua pacata de São Caetano do Sul foi, de fato, o local mais frequentado nos últimos seis meses por Kevin Branciforti, Vinicius Possato, Leonardo Seabra, Luiza Garutti, Luca Cirillo, Vitor Voni, Giovanna Milani e seu o irmão, o mentor do grupo Terradróide. “Treinamos de domingo a domingo, seis horas por dia”, conta Giovanna, 13 anos, sob o olhar da mãe Kátia, que apoia a iniciativa. “A gente percebe como a robótica traz concentração e responsabilidade aos meninos, além do reconhecimento, pois aqui em São Caetano há empresas que já sondaram o Vinicius para oferecer emprego”, diz Kátia Milani.

Para sugerir soluções criativas e funcionais ao tema “Conexões Climáticas”, proposto neste ano pela Lego para os seus campeonatos, a Terradróide escolheu investir no fundo do mar. Com o auxílio de especialistas que consultaram (oceanógrafo, engenheiro), construíram um sistema de automação cujo protagonista é um robô móvel que tem de realizar 18 missões. Numa mesa com construções feitas com peças Lego, o robô teve de demonstrar como seria possível diminuir a precipitação das chuvas a fim de evitar fenômenos como enchentes, por exemplo.

 

O maior desafio das equipes participantes nessas competições é programar o robô para que ele cumpra as trajetórias definidas na superfície da mesa e não extrapole o tempo máximo de dois minutos e meio. Vancleide Jordão, professora de robótica do colégio Apoio, destaca que o trabalho em grupo é ponto crucial para o sucesso do projeto. “É natural que haja debate para definir estratégias, mas é essencial que haja colaboração entre os integrantes”, diz.

Ela cita a façanha obtida pela sua equipe no último campeonato regional, neste mês. “No primeiro dia, ficamos em último lugar. Então nos reunimos, repensamos a programação, todos escutaram todos, pensamos na melhor forma de refazermos e, no dia seguinte, fomos campeões”, relata Vancleide.

Um outro olhar

Longe da badalação dos campeonatos, o analista de sistema Rodrigo Barbosa defende: “Robótica educacional é muito mais do que competições. Existe um trabalho imenso que muitas vezes não resulta em torneios, pois nas escolas do interior do país a realidade é outra”.

Rodrigo fala com a autoridade de quem, há cinco anos, promove cursos de robótica para professores do ensino fundamental e leva a linguagem de programação Logo a salas de aula do Paraná. “Essa linguagem é diferente da utilizada nos programas oferecidos pela Lego, pois é mais carregada de conceitos matemáticos e geométricos”, explica.

Após trabalhar a robótica com cerca de 50 turmas de 40 alunos em média, Rodrigo considera que não vale a pena determinar um assunto e fazer com que os alunos trabalhem em cima dele. “Acreditamos que o importante é darmos liberdade de criação, mas não defendemos isso à toa, e sim porque a linguagem Logo foi desenvolvida tentando ser o mais fiel possível aos conceitos do Piaget [Jean Piaget, epistemólogo que pesquisou o desenvolvimento cognitivo].

Rodrigo destaca ainda que, quando há liberdade, a tendência é que as pesquisas e os trabalhos que dela resultam sejam aplicáveis ao cotidiano dos alunos. “No município de Prudentópolis, por exemplo, onde a produção de tijolos é uma das principais atividades, vimos soluções de robótica voltadas para as olarias serem reconhecidas pelo mercado”, conta.

Gostou da robótica? Quer saber como levá-la à sua escola ou inscrever uma equipe em campeonatos? Visite os endereços abaixo:

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