Mais frequentes nas zonas rurais e nos primeiros anos do ensino fundamental, as classes multisseriadas são formadas por alunos de diferentes séries escolares no mesmo espaço, geralmente sob responsabilidade de um único professor.

Sua existência está relacionada à baixa densidade demográfica do campo, provocado pelo êxodo de trabalhadores para as áreas urbanas, pela falta de olhar do poder público para essa região e pelas suas próprias particularidades.

“A população está distribuída espaçadamente pelo território, ao contrário da lógica da cidade e seus aglomerados de pessoas. O resultado são menos crianças por escola”, descreve a docente da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Marilene Santos. “O gestor prioriza o custo à qualidade. Fecham-se classes e começa o processo do multisseriamento como opção econômica”, acrescenta.

Segundo o docente da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Fábio Josué Souza dos Santos, é comum que as administrações priorizem o investimento no transporte para reunir alunos de localidades diferentes em uma única escola. “Porém, a falta de uma infraestrutura e de boas estradas nem sempre possibilita isso”, pondera.

Diante desse cenário, as classes multisseriadas permanecem como alternativa para garantir o direito à educação das crianças. “Essas classes são tratadas pela administração como provisórias, mas são necessárias “, assinala a professora de ensino fundamental e mestranda de educação do campo, Raquel da Costa Barbosa.

Em 2015, o Brasil contava com 91.777 classes multisseriadas, segundo o Censo Escolar, majoritariamente no nordeste (47.754), seguido por norte (21.830), sudeste (14.444), sul (4.556) e centro-oeste (3.193). Os estados com maior números de turmas eram Bahia (13.599), Maranhão (12.201) e Pará (11.311). “Há dificuldade de quantificar, porque não se atualizam os dados e muitas escolas não informam que possuem essa especificidade”, informa Marilene Santos.

Potencial pedagógico

Devido às condições precárias de infraestrutura das escolas rurais e a ausência de assistência do poder público, as classes multisseriadas passaram a sofrer com um estigma. “A licenciatura sequer as menciona ou prepara o professor para essa realidade. A formação continuada é precária, quando existe, e não há material didático ou pedagógico específico”, contextualiza Barbosa.

Contudo, as classes multisseriadas oferecem, aos alunos do campo, a oportunidade de aprenderem nas suas próprias comunidades de origem. “Sem serem submetidos ao longos e desgastantes deslocamentos ocasionados pela política de nucleação e transporte escolar das últimas duas décadas”, pontua Souza. “Ainda oferece aos estudantes a oportunidade de reforçar o sentimento de pertencimento local e fortalece as relações sociais de caráter comunitário, baseadas na solidariedade e na reciprocidade”, defende.

O professor também ressalta o potencial pedagógico do multisseriamento, quando planejado, e que esse formato é tendência em países como Finlândia, França e Canadá. “Lidar com as diferenças de idade e níveis de aprendizagem no contexto da multissérie exige que o professor implemente uma metodologia que contemple a diversidade ali presente”, justifica.

O sucesso, entretanto, consiste em não reproduzir a mesma lógica do seriamento na realidade multisseriada, como é comum acontecer. “Há casos em que a professora divide a lousa com conteúdos para cada série, o que não faz sentido”, alerta Marilene Santos. “A organização do trabalho escolar por meio de projetos de trabalho ou tema geradores é uma alternativa”, complementa Souza.

Em seu dia a dia profissional com multisseriamento, Barbosa explora a aprendizagem coletiva, a partir de temas que possam gerar atividades diferenciadas para os alunos de todos níveis que estão na classe. “Por exemplo, trabalho o tema ‘água’ com toda a turma, sem compartimentar o conteúdo, e os mais velhos colaboram com os mais novos. Em determinado momento, as atividades são diferenciadas para estimular cada faixa etária”, explica.

Outro ponto de atenção é não transpor o conteúdo da cidade para o campo. “Não é que o aluno vai aprender coisas do campo. Isso ele já domina e conhece. Mas seus saberes se tornam objetos de estudos, nos quais ele irá se aprofundar para transformar sua vida”, diferencia Marilene Santos. “Ele pode estudar as diferenças entre o cultivo com agrotóxicos e a agroecologia, usando os saberes das disciplinas, como geografia, história, matemática etc. Com isso, amplia o conhecimento que a comunidade já tem e a traz para dentro da escola”, destaca.

Veja mais:
Fechamento de escolas do campo no Pará não considera particularidades da região, dizem especialistas

Crédito da imagem: fivepointsix – iStock

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