No fundo de uma barbearia, um computador. No sulfite impresso, o valor: R$ 2,00 a hora. No ponto mais alto de um pequeno povoado do Maranhão*, um laptop e um aparelho 3G representam o único ponto de internet da região. Ali, como em qualquer lugar do Brasil, os espaços mais diversos têm sido transformados em lan houses. Segundo pesquisa do DataFolha do final de 2008, cerca de 48% do acesso à internet no país acontece dentro delas ou em outros locais públicos.

Além do mecanismo de inclusão digital que naturalmente representam, agora as lan houses são foco de duas iniciativas que buscam explorar outros potenciais desses espaços. Cada uma delas foi pensanda em uma cidade, cada uma com seu ponto de vista, mas com pontos comuns e outros complementares. Ambos os projetos concordam que, hoje, a inclusão digital no Brasil passa pela lan house, com amplo potencial em áreas como a educação, a cultura e a profissionalização.

Usuário em foco

O primeiro projeto se chama Conexão Cultura e sua atuação é direcionada ao usuário. Seu objetivo é oferecer uma solução que leva conteúdo de relevância e qualidade por meio de uma barra de comteúdos instalada no Firefox ou no Internet Explorer.

Novidades sobre Conexão Cultura

Um dos diferenciais do Conexão Cultura é o fato de ele ser desenvolvido em código aberto, o que permitirá que outros desenvolvedores criem aplicativos que rodem dentro dele e que possam ser compatilhados com outros usuários. Para a coordenadora de conteúdo do projeto, Daniela Silva, “isso significa que o que hoje é só um leitor de conteúdo que a gente publica, pode virar uma plataforma de publicação de conteúdo do usuário”. Segundo ela, que é quem faz a análise do que está na internet e vai para o Conexão, o aplicativo trará conteúdos como notícias e vídeos dos parceiros institucionais do projeto, como o Itaú Cultutal.

“Há muito conteúdo legal na internet, só que esse conteúdo não chega ao usuário da lan house. Uma das razões pelas quais isso acontece é a maneira como a internet está estruturada e opera hoje: por mecanismo de busca”, afirma, pois “o usuário não pode adivinhar que tem que buscar por esse tipo de informação, que não faz parte do seu cotidiano. O Conexão Cultura é uma maneira de mostrar as coisas legais para ele”. E essas coisas, o usuário só vê se ele quiser, pois a barra também pode ser omitida.

A concepção e a gestão do projeto são da Fundação Padre Anchieta. O desenvolvimento do conteúdo acontece com a coordenação de Daniela Silva, pela empresa Nunklaki, na Casa de Cultura Digital, compartilhada por diversas outras empresas, ONGs e indivíduos que pensam e trabalham com novas formas de usar a tecnologia digital.

A barra do Conexão Digital já existe, mas está em fase de testes e, por isso, ainda não está instalada em nenhum lugar. De acordo com Daniela Silva, uma parceria está sendo fechada com o Acessa São Paulo, programa de inclusão digital do Estado de São Paulo, para a instalação da barra. O projeto pretende se expandir para outros centros públicos de acesso do país e chegar às lan houses. “É nesse espaço de aprendizagem informal que as crianças estão indo para adquirir seus conhecimentos, para adquirir cultura, para produzir e trocar. Todo o processo bacana de internet, de colaboração e geração de oportunidades que existe nisso não pode ficar restrito a quem tem internet em casa”, diz.

Jogo do ganha-ganha

“Na verdade, o Conexão Digital já é importante pelo simples fato de que ele pode interligar as lan houses do Brasil em torno de alguma coisa que, neste caso, é um projeto que tem um escopo de cultura, de educação, de serviço público e de inclusão digital”, afirma Daniela Silva.

Contudo, os membros do projeto ainda buscam maneiras de levá-lo às lans. Ela sugere que entre as vantagens que poderiam ser oferecidas para os donos de lan houses estariam os fatos de eles estarem ligados a uma rede de pessoas que fazem parte desse mesmo projeto e ao valor que a marca da Fundação Padre Anchieta dá, além de oferecer um conteúdo diferenciado para as pessoas que usam a lan house.

Outro plano do Conexão Cultura é um “esquema de recompensa”, em que o usuário é recompensado: quanto mais acessa esse conteúdo, mais pontos ele junta, os quais ele pode trocar por livros, CDs, ingresso para o cinema etc.
”Assim, incentivamos o acesso e fazemos essa transferência de valor das instituições para essas pessoas. No fim, todo mundo sai ganhando: as instituições ganham público, audiência, relevância, e as pessoas ganham mais cultura e oportunidade”, conclui Daniela Silva.

Foco nos donos de lan houses

O outro projeto chama-se CDI Lan e tem como alvo os donos de lan houses de todo o país. Seu objetivo é qualificá-los para expandir a experiência de navegação de tantos usuários. Dessa forma, esses profissionais podem servir como agente facilitadores e não só como as pessoas que oferecem máquinas com internet.

Novidades sobre o CDI Lan

“Falar de lan house é assim: me perguntam o que uma pessoa pode fazer em uma lan house. Então eu contrapergunto: o que uma pessoa pode fazer na internet? Só que a experiência de navegação que as lan houses oferecem para o usuário é pobre: cada um senta em seu computador e eventualmente o dono da lan house ensina a abrir uma conta no Orkut e no MSN. Mas a internet é muito mais do que isso. Na internet, você pode estudar, fazer compras, tirar certidão, se preparar para concurso, fazer curso profissionalizante e até pós-graduação”, afirma Mário Brandão, coordenador do CDI Lan e fundador da Associação Brasileira de Centros de Inclusão Digital (ABCID).

O CDI Lan começou a trabalhar oficialmente no último dia 25 de junho no Rio de Janeiro. Foi idealizado pelo CDI (Comitê para Democratização da Informática), apoiado pela ABCID e tem como embaixadora a atriz e apresentadora Regina Casé. O projeto pretende reunir os donos de lan houses de todo o país sob um código de conduta em que eles assumem compromissos como facilitar o acesso de pessoas com deficiência, divulgar campanhas sociais e zelar por questoes ambientais. Além disso, outros proprietários de lan houses, membros da ABCID, que passaram por esta mesma experiência, estão desenvolvendo videoaulas para capacitar os colegas em relação ao empreendedorismo e em relação ao que é o negócio deles. Segundo Mário Brandão, o CDI Lan está firmando parcerias com universidades e pretende, ainda, promover encontros entre donos de lan houses e potenciais parceiros.

O coordenador conta, ainda, que em cinco dias já estavam afiliadas 125 lans e que a expectativa é de que sejam 500 até o final de julho. Outro ponto importante do projeto é a ausência de custo para o dono de lan house. Para tanto, serão estabelecidas parcerias com empresas que possam ter interesse em investir no ramo, como por exemplo, uma empresa que queira anunciar no papel de parede dessas lans. Neste caso, o empresário pagaria ao dono da lan pela publicidade e uma pequena porcentagem serviria para pagar os profissionais reponsáveis pelo acompanhamento e estruturação desses processos. A orientação do CDI Lan será no sentido de promover esses acordos comerciais com os estabelecimentos mais próximos das lan houses, como a padaria, o supermercado ou a farmácia da esquina. ¨É uma maneira criativa de ter um desenvolvimento com teu entorno¨, diz Mário Brandão.

Segurança e boa conduta

O CDI Lan também se preocupa em desmontar a imagem negativa que as lans têm perante a sociedade e perante os educadores. Mário Brandão cita como exemplo a nossa legislação, que, segundo ele, “sempre serviu para criar entraves para o ramo, visto como casa de jogo, sem nenhuma perspectiva de contribuição social”.

Além disso, existe a percepção de que usar lan houses é inseguro, o que ele rebate: “Para o dono da lan, máquina parada é prejuizo e, se ele não tiver uma estrutura de segurança com anti virus, antifish, antikeylocker, seus computadores param a cada dez minutos e a internet fica lenta. O cara que não tem essses cuidados, o computador dele vai parar e quebrar tanto que ele vai fechar em dois meses. Então, se o cara tem mais de seis meses, pode ter certeza de que ele tem proteção.”

Mário Brandão conta que uma das maneiras de mudar essa imagem é simplesmente comunicar ao cliente que o seu espaço tem cuidado com a segurança dele, com menor de idade, com conteúdo impróprio etc. Assim, ele passa uma nova imagem, mais profissional, mais responsável, e consegue aumentar seu público e, consequentemente, sua receita.

Veja abaixo vídeo sobre o CDI Lan

 

https://youtu.be/WZpFn8szCJk

 

Veja vídeo da Central da Periferia, produzido pela TV Globo, sobre a expansão das lan houses

 

 

* A repórter Taiana Ferraz finalizou o texto na lan house descrita durante uma viagem que fez ao Maranhão no começo de julho.
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