O ensino com uso de novas tecnologias pode ainda não ser o padrão na maioria das escolas do país, mas muitos são os indicativos de que o sistema “lousa e giz” é menos eficaz do que as motivações trazidas por essas inovações ao aprendizado. É o caso de cinco escolas de base de comunidades carentes de Niterói (RJ), nas quais jovens estão tendo a oportunidade de conciliar diferentes mídias, como fotografia e vídeo, com o trabalho realizado nas disciplinas regulares. O projeto Central de Notícias da Escola, vencedor do Prêmio Instituto Claro na modalidade Desenvolvimento, utiliza essa abordagem e aproveita a realidade dessas comunidades para pautar discussões e temas abordados – sempre pertinentes ao seu contexto.

 

Divulgação/Bem TV

Estudantes durante a produção de um vídeo com câmera

 

É difícil traçar linhas que digam onde começa ou termina o Central de Notícias. Trata-se, na verdade, de uma rede fruto de projetos sociais tocados pela Bem TV -organização sem fins lucrativos que existe desde 1992 e usa a comunicação em processos educativos para formar jovens críticos e comprometidos com a coletividade. A Bem TV promove oficinas para jovens estudantes e educadores da rede pública estadual com o intuito de ensinar-lhes a trabalhar com fotos, fazer vídeos e escrever reportagens – o que já chegou a se tornar um jornal impresso, parte do projeto “Olho Vivo”.

 

Em 2007, essa “Rede de jovens comunicadores”, como se chamava a equipe que participava de tal projeto, ganhou um norte mais específico, que é a comunicação online, através do site Niterói Comunidades – de assuntos ligados às comunidades às quais esses jovens pertenciam -, a partir da colaboração de professores. Para isso, as parcerias formadas com escolas e jovens nos tempos do “Olho Vivo” foram mantidas. Hoje, cerca de 140 jovens de escolas de Caixa d’Água, Grota, Jurujuba, Morro do Estado e Preventório – comunidades periféricas de Niterói – compõem a Central.

 

A produção de notícias
Mensalmente, representantes da Bem TV e do Virtu@ção (equipe que administra o site Niterói Comunidades e que fez parte do projeto Olho Vivo), além de professores e alunos interessados em participar da Central de Notícias se reúnem no Sesc Niterói, entidade com quem o projeto tem uma parceria, para fazer a reunião de pauta e levantar os temas que serão trabalhados em cada comunidade e os respectivos formatos. Dali saem propostas como discussão sobre saneamento básico e violência, de acordo com a realidade de cada comunidade, e até mesmo sobre linguagem na internet, um dos temas de interesse dos alunos.

 

Os professores, que determinam o caráter desse trabalho (obrigatório ou extracurricular), assim como o seu formato (exposição de fotografia, videorreportagem, vários textos sobre o mesmo tema ou produção colaborativa de um único texto), tentam aproximá-lo dos conteúdos abordados na escola. “A Bem TV dá palpite, ajuda a pensar em tamanho de texto, em edição de vídeo, em como tornar viável aquele conteúdo a ser produzido, mas não impõe regras”, diz Ana Paula Silva, agente da organização que tomou a frente do projeto. Apesar dessa liberdade, apenas textos e o que é produzido em máquinas digitais e celulares para reportagens vão para o Niterói Comunidades, que é a vitrine online do Central de Notícias.

 

Divulgação/Bem TV

Reunião de pauta abre espaço para as diferentes realidades dos alunos

 

As outras vitrines, entretanto, não deixam de ser criativas. “A escola Maria Pereira, de Preventório, faz uma espécie de Cineclube para apresentar os vídeos produzidos à escola e à comunidade, de modo que os temas possam ser discutidos entre todos. Há exemplos também de escolas que fazem exposições de fotografia. Para esses eventos, as comunidades contam com o apoio da Bem TV, que empresta aparelhos para projeção”, explica Ana Paula.

 

A exemplo da aproximação entre escola e Central de Notícias, o site da Bem TV traz uma ferramenta que explica passo a passo a construção de um texto jornalístico e que pode ser usado por qualquer professor de redação. Assim, os alunos aprendem a fazer manchete, linha fina (períodos curtos que, abaixo da manchete, complementam a informação do título com informações importantes), lide (termo jornalístico referente ao parágrafo inicial da reportagem que apresenta e explica o que há de mais relevante no que está sendo relatado), desenvolvimento e conclusão. Ao final, a proposta de redação se torna uma verdadeira reportagem para a Central de Notícias.

 

Márcia Corrêa, diretora da Bem TV, cita outro exemplo em que diferentes disciplinas atuaram juntas na construção da notícia, sempre atrelando a realidade da comunidade com o trabalho nas escolas: “Uma turma de Geografia fez o censo da sua comunidade, levantando dados como idade, estado civil, profissão, tamanho da família, bens materiais… Feito isso, o professor de Matemática construiu o texto com a turma, usando gráficos e tabelas”.

 

Notícias em vídeo
A falta de tempo de alguns professores e o desinteresse de parte dos jovens em produzir textos para o Niterói Comunidades fez com que o ritmo de atualização do site caísse. Ana Paula encontrou uma explicação: “É muito difícil incentivar jovens a escrever quando eles não tem o hábito de leitura. O natural é que se interessem mais por fotos e vídeos, com que têm contato no seu dia a dia através de celulares e câmeras digitais”.

 

Por isso, para o ano de 2010, a Bem TV pretende investir em fotografia e vídeo no Central de Notícias. Na fotografia, a ideia inicial é fazer uma galeria de imagens no site, segundo Ana Paula. Já em relação aos vídeos, ela conta que a Bem TV contatou as direções das escolas que, por sua vez, mobilizaram os professores “mais tecnológicos” e interessados para participar das oficinas com os alunos. “A intenção é iniciar as oficinas nas escolas já em fevereiro, quando as aulas começam”, conta Márcia. “Queremos vídeos curtos, que possam ser feitos pelos celulares dos estudantes e trabalhados nos próprios laboratórios de informática das escolas. Esses vídeos devem complementar reportagens do Central de Notícias ou até mesmo serem videorreportagens, o que é mais difícil de se fazer.”

 

Além das oficinas que tentam familiarizar alunos e professores com as mídias a serem trabalhadas e das reuniões de pauta mensais, a Bem TV está disponível para ajudar os participantes do projeto durante o trabalho e sua finalização. “Se for necessário, voltamos às escolas para dar suporte. O objetivo é que o projeto ganhe autonomia suficiente para um dia caminhar com as próprias pernas”, segundo Márcia. Agora, com a introdução dos vídeos, ela espera mais trabalho: “Sabemos que os alunos contam com a nossa ajuda. Provavelmente, neste início, estaremos ao seu lado o tempo inteiro”. Ana Paula complementa: “Para facilitar as atividades, os alunos trabalham com o que dispõem e com o que as escolas oferecem. A edição de vídeos é ensinada (durante as oficinas) no Windows Movie Maker, porque, certamente, os laboratórios de informática das escolas têm ou conseguem o programa”. Nas oficinas, eles aprendem a mexer com foto e vídeo nos seus próprios celulares e máquinas digitais. Assim, agilizamos o processo”.

 

O reconhecimento do Central de Notícias já acontece de alguma forma. No Conselho de Juventude de Niterói, há jovens que participaram do projeto. A Prefeitura, que dá apoio, pediu à Bem TV que cuidasse da capacitação de professores da rede pública para materiais multimídia.

 

Para o futuro, a visão é otimista, como diz Ana Paula: “Pretendemos aumentar o número de escolas atendidas, pois, fora as oficinas de capacitação e as reuniões de pauta, a demanda de trabalho não é tão grande. Se conseguirmos melhorar nossa estrutura, isso será possível”.

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