Escrever e publicar um livro já é um grande desafio. Imagine que um professor queira fazer com que seus alunos se sintam motivados e empreendam o trabalho. Muito difícil? Nem tanto, como demonstrou o projeto “Faça seu e-book na escola”, criado pela Editora Plus, de Porto Alegre (RS). A ideia do projeto, que já tem ótimos resultados, é incentivar alunos a publicarem, com suas turmas, e-books (livros digitais), produzidos na sala de aula. Terminadas, as obras são publicadas em vários formatos, que podem ser lidos de um computador conectado à rede ou até mesmo do aparelho de celular – sem custos, nem para quem produz nem para quem faz o download.

 

O primeiro trabalho fruto do projeto “Faça o seu e-book na escola” acaba de ser lançado. Brincando com os sentidos, uma coletânea de 18 histórias escritas por crianças de 10 a 12 anos, é resultado de uma atividade desenvolvida na 5ª série da Escola Estadual de Ensino Fundamental Almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva, em Porto Alegre. “Escolhi a turma 53 porque tinha dificuldades em manter a disciplina durante as aulas, o comportamento estava muito ruim”, conta a professora de português Eloísa Menezes Pereira. A proposta é simples, como explica o responsável pelo projeto na editora, Eduardo Melo: “Como estimular estudantes que escrevem e leem tão pouco a se interessarem por essas atividades? O e-book funciona como um reconhecimento do seu trabalho. Os alunos veem que um texto que foi escrito por eles na sala de aula está na internet e, assim, tornam-se autores, como tantos outros que conhecem”.

 

Sem financiamento externo, a iniciativa da Editora conta com cerca de 30 colaboradores – para todos os e-books publicados. Entre a chegada do texto final e a publicação, passa-se cerca de um mês. Os professores devem indicar a proposta no site da editora e têm um prazo sugerido de 60 dias para desenvolver a criação com os alunos.

 

Eloísa Menezes Pereira/arquivo pessoal

Alunos autores do livro “Brincando com os Sentidos”

 

A professora Eloísa, que tem cinco aulas semanais com a turma, foi quem sugeriu o tema “Os 5 sentidos”. No início do trabalho, estimulou a criatividade dos alunos: “Para que servem as mãos? É só para bater nos colegas da frente? E a boca, só para dizer palavrões?”. Eles tiveram que criar uma história, curta, como se fossem contá-la para um irmão ou primo de cinco anos. A oportunidade de não escrever, mas desenhar, foi deixada em aberto, e o trabalho pôde ser feito até em duplas.

 

Deu certo? “Sem dúvidas”, responde o editor. “Fui à escola apresentar o e-book para as crianças e elas adoraram”. Revisão, títulos e texto, tudo ficou a cargo dos estudantes. A Editora Plus não pretende mudar nada que lhe for entregue, salvo casos excepcionais, como violação dos direitos humanos ou apologia às drogas, por exemplo. Em seguida, a diagramação e a capa são trabalho da própria editora e de seus colaboradores. “Em uma semana, cem downloads de Brincando com os sentidos foram feitos, a maioria no formato PDF. O número é razoável, visto que a divulgação foi feita apenas no site”, complementa. Porém, segundo Eduardo, no caso de livros que têm bom retorno este número chega a 300. Ele pensa em ampliar a divulgação chamando jornalistas para conhecerem o projeto.

 

Apesar de toda a tecnologia envolvida no processo, o laboratório de informática da escola em Porto Alegre não tem internet. Assim, “os alunos estão ansiosos para aprender a baixar o livro pelo celular e poder levá-lo para onde forem”, conta a professora Eloísa. Os pais que não conseguiram ver o trabalho dos filhos aguardam a entrega dos boletins, quando uma apresentação do e-book será feita. E como ideia boa tem repercussão, a turma da 6ª série da mesma escola já desenvolve um trabalho semelhante para a matéria de Ciências, cujo tema é “Crack nem pensar” – campanha lançada pelo Grupo RBS no sul do país.

 

O grupo da higiene*

    • Era uma vez um ouvido que arrumou novos amiguinhos. Os quatro amiguinhos gostavam de praticar esportes, corriam pela praça. Eles sabiam da necessidade do esporte em suas vidas, mas boca era descuidada, comia doces e chocolates. Nariz cheirava tudo até ficar com secreção e a mão brincava na terra.
    • Ouvido observou cada amiguinho e comentou sobre a importância da higiene para conservar a saúde. Todos agradeceram pela explicação e depois daquele dia nunca mais se descuidaram da higiene.
    • (*Texto da aluna Bruna Sitó Thomazini, presente no e-book)

 

E-book também na universidade
Outros livros estão em produção. Um deles é realizado no curso de Relações Internacionais da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), em Santa Catarina. A professora da disciplina de Negociação Internacional, Renata Lemos, levou a ideia para a sua turma de 15 alunos. A inscrição na Editora Plus foi feita em agosto de 2009 e a previsão é de que o texto final da turma esteja pronto em novembro. As últimas três aulas do semestre estão reservadas para workshops de redação. O debate e a pesquisa estão por conta dos autores.

 

Uma boa notícia para eles, que têm entre 20 e 25 anos e na maioria nunca publicaram um artigo, é que o tema deve ser relacionado à ideia de monografia de cada um. “Assim eles podem aproveitar a pesquisa já feita”, explica a professora. “Sempre trabalhei com construção colaborativa de conhecimento, quero que meus alunos aprendam a tomar iniciativas e saibam buscar informação. Um passo fundamental a ser dado com a conclusão do projeto, que será o trabalho final da disciplina, é divulgar o que foi produzido dentro dos muros acadêmicos. Um e-book permite isso.”

 

A participação da editora é realmente necessária neste processo? Não, desde que o organizador tenha o domínio técnico exigido, além de disponibilidade, para diagramar e finalizar o e-book. Quanto maior o número de formatos disponíveis (PDF, para computadores; Stanza, para iPhones; Java, para celulares; audiobook…), melhor. “Seria ótimo se mais pessoas soubessem fazê-lo; o número de escritores e leitores de e-books cresceria. Mas, salvar em PDF é fácil, difícil é dar a cara de e-book a todo o material”, explica Eduardo. “Esse serviço, uma editora faz bem.”

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