O que uma exposição que trata de emoção, fim de relacionamento, percepções, sentimentos e colaboração pode ter a ver com a rotina e o trabalho de 11 professores do ensino fundamental que dispensaram a reunião pedagógica da quarta-feira à noite, na escola em que atuam, no Butantã, em São Paulo, para enveredarem pelo mundo da artista francesa Sophie Calle?

A ideia da ida em grupo, ao Sesc Pompeia, onde esteve aberta ao público, por dois meses, a exposição “Cuide de Você”, foi da coordenadora pedagógica Eli Morais. Mais do que promover uma “atividade diferente” para a equipe com a qual trabalha na Escola Municipal Tenente Alípio Andrada Serpa, ela queria fazer com que aqueles professores pensassem a leitura e a escrita a partir de uma abordagem diferente. Acreditava que a exposição na qual estão reveladas as interpretações de algumas das 104 mulheres convidadas por Sophie Calle para responderem a uma carta de rompimento que ela havia recebido, por e-mail, do seu então namorado, podia proporcionar isso.

A coordenadora estava certa. Os professores, naquele ambiente repleto de opiniões, reflexões e tecnologia (as respostas das mulheres são em texto e vídeos ou fotos) se entusiasmaram em discutir, a cada obra vista, a leitura, a escrita e, ainda, as relações humanas mediadas pela tecnologia, algo que muito tem a ver com o atual dia a dia das salas de aula, onde eles têm que saber lidar com o celular, a máquina digital, o MP3 e todos os outros equipamentos que os alunos dominam e não abrem mão de levar a tiracolo.

“O entusiasmo pelo uso da tecnologia digital se dá mais pelos jovens, pelo o que pudemos observar aqui ao longo desses quase dois meses, mas o contexto da exposição nos permite colocar esse assunto em pauta diante dos mais velhos”, avalia a integrante da curadoria educativa Tatiana Arantes, que acompanhou diversos grupos pelo salão da exposição e promoveu dinâmicas com boa parte deles visando a reflexão, com o auxílio da tecnologia, sobre as obras.

A chamada “resposta poética”, algo que os visitantes devem produzir ao final da visita, foi sugerida àquele grupo de professores pelo educador Pablo Miranda, que distribuiu aparelhos de celular entre os professores e, antes de pedir que eles produzissem algum material que sintetizasse o que eles sentiram e absorveram da exposição, provocou: “Quem aqui tem problemas com o celular na sala de aula e por quê?”. As reações imediatas ecoaram no espaço, um galpão até então silencioso.

“Tira a atenção”. “Porque ele toca a toda hora”. “Porque é joguinho a aula toda”. “As mães dos meninos ligam no meio da aula”. Todas essas foram respostas que surgiram em meio ao zumzumzum. Entretanto, quando Miranda indagou se eles baniriam o celular da escola, o retorno do grupo foi negativo. “Eu daria aula com o celular”, disse, sem titubear, a professora de artes Marília Lagoa. Atualmente, ela faz um pouco disso. Em suas aulas, produz fotovelas e as fotos usadas nesse trabalho, desenvolvido com alunos da 8ª série, são captadas com máquina digital ou com celular. “Daqui, eu levarei algumas questões para discutir com eles, como a emoção que sentimos nas imagens e o enquadramento”, disse Marília.

Márcio Pereira da Silva

Professora da escola Tenente Alípio Serpa

em dinâmica com carta de Sophie Calle

Porém, o uso das novas tecnologia nas aulas de Marília não é baseado em uma metodologia, não conta com suporte técnico da escola (embora a diretora pedagógica elogie a professora pela iniciativa de promover um “aprendizado diferente”). Depende dos equipamentos que os próprios alunos dispõem. É somente uma questão de escolha da professora, que percebe o quanto os alunos ficam mais animados e dispostos a produzirem quando podem utilizar aquilo que gostam, que dominam, que lhes interessa.

A educadora Tatiana Arantes exemplifica essa afinidade dos jovens com a tecnologia a partir de situações que vivenciou na exposição de Sophie Calle. Em uma delas, três garotas, duas de 11 anos e uma de 9 anos, tinham de produzir a resposta poética à exposição e receberam os celulares para a atividade. “Eu disse que elas fizessem vídeo, tirassem foto, o que elas preferissem. Em minutos, as jovens voltaram perguntando se poderiam usar o gravador de voz também e sabiam exatamente como manuseá-lo”, relata. Uma outra situação, um tanto corriqueira, acontecia quando visitantes eram fotografados. “Há uma diferença entre o comportamento das crianças e jovens e o do seus pais. Os mais velhos, às vezes, pedem para enviar por e-mail. Os mais novos perguntam em qual site, blog, aquela foto vai estar disponibilizada”, diz Tatiana.

Márcio Pereira da Silva

Imagens são registradas para discussão posterior pelo grupo de professores

O resultado virtual e as reflexões finais

A exposição “Cuide de Você”, que foi encerrada em São Paulo e segue em Salvador, no MAM, entre 22/09 e 22/11, teve como premissa para receber o apoio do Videobrasil a montagem de uma curadoria educativa. Por isso, o trabalho voltado para estudantes e professores foi desenvolvido e muito bem organizado. Parte do material que os visitantes produziram após receberem uma gama de informações dos educadores foi levado ao blog do Videobrasil. Este post mostra a linguagem jovem utilizada no celular por alguns estudantes de escola pública que lá estiveram.

A dinâmica do processo de produção e análise do que foi feito manteve-se dentro da proposta de relacionar virtual e real. A cada final de atividade, fotos e vídeos eram transmitidos em segundos para o computador devido a bluetooth instalado em ambos. Na tela mais ampla, os visitantes comentavam as suas interpretações e as dos colegas.

Entre o grupo de professores da Escola Municipal Tenente Alípio Andrada Serpa, a indagação que encerrou a visita foi: “O que vocês levam daqui para aplicação com os seus alunos em suas disciplinas?”. Uma professora de Educação Física enxergou a relação a partir da expressão corporal presente nas obras. Já um professor de Português argumentou a importância de um texto, já que naquela carta de Sophie Calle, que originara a exposição, parte de sua vida podia ser interpretada.

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