Cientista-chefe do C.E.S.A.R, ambiente onde a inovação é peça-chave e onde são discutidas e desenvolvidas soluções para a sociedade que envolvem as TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação), Silvio Meira tem um olhar que transpassa o mercado e a academia. Isso porque também se mantém pesquisador desde o fim da graduação e, chancelado pelo mestrado em informática na Universidade Federal de Pernambuco e pelo doutorado em computação na University of Kent (Inglaterra), assumiu a sala de aula universitária há boas décadas. Nesta entrevista ao Instituto Claro, ele fala sobre o que o Brasil precisa para ser empreendedor desde os bancos da escola e comenta as condições essenciais para a formação e o desenvolvimento de jovens com espírito inovador.

* * *

A educação hoje é mais empreendedora nas universidades do que na década passada ou não houve mudanças significativas mesmo nessa nova dinâmica do mercado que abre bastante espaço para profissionais autônomos e inovadores? 

Silvio Meira – A resposta é dupla. Houve, sim, um progresso nos últimos 10, 15 anos na vida acadêmica no que se refere à possibilidade maior de empreendedorismo e inovação, mas tudo o que aconteceu até agora ainda é muito pouco perto do que precisamos para ter um Brasil empreendedor. A gente não tem uma educação empreendedora. A educação brasileira ainda é baseada em respostas, vem da economia industrial. A gente precisa sair daí para uma economia de perguntas, porque estamos vivendo no tempo da economia do conhecimento, onde é muito útil e relevante descobrir qual é ‘a pergunta’. E descobrir qual é a pergunta é um processo empreendedor em si.

E qual mudança de comportamento é necessária para deixar para trás essa educação focada apenas em respostas?

Silvio – Se você simplesmente ficar em algum lugar sem agir, filosoficamente parado, alguém vai fazer uma pergunta, e você tem a resposta ou não. Desse jeito, você não precisa empreender nada, apenas espera que perguntas te atinjam. Se, no entanto, mudar para uma outra posição filosófica na qual você está constantemente se perguntando quais são as questões, quais são as novas preocupações, o jogo muda completamente. Esse modelo de educação, necessariamente empreendedor, não é praticado no Brasil hoje.

CESAR/Divulgação

Para o pesquisador, o Brasil ainda está longe de contemplar a inovação desde a escola

Então você acredita que ações e políticas voltadas para o sistema educacional deveriam contemplar, em larga escala, uma visão empreendedora para que pudesse haver um “salto”? 

Silvio – Sim, mas não é só isso. Para mudar o sistema educacional, temos que mudar os professores. E, para começar, tem que mudar radicalmente a forma como o sistema educacional funciona. O sistema educacional brasileiro, em todos os níveis, é caótico. Cada professor faz o que quer. Cada sala de aula faz o que quer. Não existe o que a gente poderia chamar de estabilidade no sistema para que ele possa entregar resultados consistentes, nem mesmo na formação básica. A mudança no sistema institucional é algo muito complexo e mais profundo do que um instituto ou uma ONG pode fazer. A mudança na educação é um processo estrutural que envolve um redesenho de regras, algumas inclusive são constitucionais. Envolve mudança de políticas, envolve uma orientação do país para o longo prazo. Se isso estivesse começando agora, e não está, ainda levaria décadas para se concretizar.

A discussão, na sua opinião, é anterior àquela que aborda a existência de uma visão empreendedora e inovadora no sistema educacional brasileiro?

Silvio – Certamente. Com a qualidade da formação que se tem hoje, alguém que sai da escola e vai para a universidade não sai com uma ampla visão do mundo. E aí este alguém não é efetivamente cidadão do mundo, com ideias para o mundo, é um cidadão da região dele no Brasil. A ideia de empreendedorismo que ele tem é a de resolver uma questão que está no quintal da casa dele, que está na cidade dele e assim por diante. Você tem pouquíssimas proposições brasileiras de negócios que são de classe global, que estão se propondo a resolver problemas mundiais. Este é um dos maiores problemas que a gente tem.

Saindo da esfera macro, que depende de políticas para ser transformada, e analisando a realidade de uma instituição de ensino que busca valorizar o aprendizado crítico, que contempla o uso das TICs, e que quer transformar localmente, o que você considera essencial para que ela estimule uma visão empreendedora nos alunos?

Silvio – A visão empreendedora dentro de uma instituição de ensino teria que partir, a priori, da resposta à questão ‘qual é o papel que os seus professores e todos os líderes educacionais assumem perante os desafios do mundo ao seu redor?’. Porque é muito difícil transmitir algo que você não faz. Se o exemplo que esses ‘construtores de mentalidade’ passa for pouco empreendedor, pouco inovador, vai ser dificílimo que os alunos sejam pessoas inovadoras.

Educadores que são inovadores mas estão dentro de estruturas rígidas que não valorizam essa característica podem promover mudanças?

Silvio – Sim, é possível que consigam, temos exemplos disso em muitos lugares, mas o problema maior continua, pois a mudança, principalmente a de comportamento na direção de criar oportunidades de inovação e empreendedorismo para os alunos, vai continuar sendo um acaso. Enquanto não forem criadas condições estruturais, e dizendo em palavras bem diretas, enquanto não se brigar para fazer diferente, a formação de muita gente estará comprometida, pois o sistema reage o tempo todo. Eu não estou falando que tem de haver um sistema completamente caótico, onde cada um faz o que quer. Inovação e empreendedorismo não é isso. Inovação e empreendedorismo é método, é processo, é sistema que cria oportunidades de aprendizado onde as pessoas tentam, erram e a aprendem no processo, e onde o erro que cria conhecimento, o erro com o qual se aprende, é valorizado.

Perfil de Sílvio Meira no Twitter, rede onde ele enxerga construção de conhecimento

E enquanto este “problema maior” não é sanado, o quanto você considera importante a discussão sobre as TICs para os ambientes de aprendizagem? Na cultura digital, elas estão sempre próximas da inovação… 

Silvio – Isso precisa ser discutido intensamente, mas mais do que ser discutido, precisa ser tentado. O fato é: a escola já não é o lugar onde as pessoas mais aprendem. Hoje, aprende-se mais fora e ao redor da escola, porque as pessoas começam a dominar ferramentas, ambientes e sistemas onde elas aprendem em velocidade, extensão e profundidade maior do que na escola. Vi recentemente um rapaz no Twitter pedindo instruções de como tratar um bebê que estava com azia e chorando. De repente, uma comunidade inteirinha no Twitter se movimentou para resolver aquele problema. Então nós passamos a dominar ferramentas de interação e de construção de conhecimento coletivo. O fato dessas comunidades e desses instrumentos resolverem uma certa categoria de problemas não implica que a escola ou a universidade tenham se tornado irrelevante, mas o que acontece na prática hoje é que as pessoas conseguem resolver um subconjunto muito grande dos seus problemas de aprendizagem sem ter de ir para a escola, sem ter de usar os instrumentos da escola. De certa forma, essas ferramentas tecnológicas ficaram ausentes da escola e agora a escola está correndo atrás. Significa que a escola não vai chegar lá? Não. Esse problema vai ser resolvido com o tempo.

De que maneira?

Silvio – Se você olhar para a introdução da internet na sociedade há dez anos e imaginar que pessoas de dez anos de idade naquela época hoje têm dez anos de internet e daqui a dez anos, quando parte delas forem professores, todas terão 20 anos de internet, chegará à conclusão de que para elas essas ferramentas serão absolutamente normais. O que acontece é que toda vez que você tem uma revolução de ampla escala na sociedade, na prática você perde um certo subconjunto de pessoas que acha que aquela tecnologia é irrelevante para elas. No caso do exemplo que eu dei, daqui a dez anos, um subconjunto de pessoas que estará trabalhando nas escolas ‘nasceu na internet’. O pessoal que ficou no meio do caminho vai se tornar irrelevante. Naturalmente irrelevante. Estamos falando da mudança de um degrau da escada para outro e tem um pessoal que não vai conseguir subir para o próximo degrau sozinho. Nós podemos ajudar um subconjunto potencialmente grande deles, mas outros a gente vai perder, pois assim caminha a humanidade.

CESAR/Divulgação

Fachada do CESAR, uma das instituições que integram o Porto Digital, no centro do Recife

Parte do trabalho do C.E.S.A.R envolve “vender ideias inovadoras”, convencendo pessoas de que as ideias em questão farão diferença para um nicho da sociedade ou para toda ela. A partir da experiência somada ao longo dos anos em relação a isso, o que você considera essencial para que pessoas empreendedoras tenham sucesso?

Silvio – No C.E.S.A.R., consideramos essencial a pessoa ter talento, conhecimento tecnológico, ter visão de como o negócio dela se insere no mundo ou ter a capacidade de adquirir isso rapidamente. E, quando falo mundo, é planeta Terra mesmo. Ela tem de ter a capacidade de formar redes de técnicos, de empreendedores, do que for….Tem de ter a capacidade de se relacionar com pessoas que não entendem absolutamente nada do que ela está querendo fazer ou ela não vai conseguir conversar com investidores. Precisa saber quais são os problemas que tem, quais são os que resolveu e os que não solucionou. A partir daí você tem um cenário de empreendedorismo situado dentro de um conjunto de condições de existência e de não existência, de conhecimento, de curiosidade, de capacidade de execução, de formação, de curiosidade do mundo ao redor para saber o que os outros estão fazendo e de confiança em si mesmo e nos outros. Sem essas pré-condições, ou sem a capacidade de que essas pré-condições apareçam num tempo razoavelmente curto, é melhor fazer concurso público.

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