Eliane na Escola Maria José: alunos vão desocupar apenas com o cancelamento da decisão do governo do estado (Crédito: Leonardo Valle)

 

Mesmo após o governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) suspender a reestruturação que previa o fechamento de mais de 90 escolas no estado de São Paulo, muitos estudantes defendem a continuidade das ocupações, que chegaram a 225 escolas em dezembro de 2015. A principal bandeira é o cancelamento definitivo da medida.

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A surpresa do fechamento de escolas

“Enquanto ele [Alckmin] não vier a público e disser que vai cancelar [a restruturação], não vamos sair daqui”, garante a estudante da 8º série Eliane*, da E.E. Maria José, de São Paulo (SP). “Há também revindicações antigas, como aumento do salário dos professores e termos apenas 25 alunos por sala. Aqui, há classes com 50 alunos, o que é um absurdo”, denuncia.

Outro que critica a estrutura das escolas estaduais é Fabiano*, 18 anos, da E.E. Caetano de Campos, da praça Roosevelt. “Os professores chegam aqui desanimados, depois de darem aula em três períodos. Outra questão que me incomoda são os banheiros. Já lavei o banheiro feminino cinco vezes e ele está sempre entupido, com o encanamento deteriorado”, conta o rapaz que faz parte da comissão de limpeza da ocupação.

“Tem muita sala que a gente não usa. Nunca pude usar a sala de computação, e fomos apenas duas vezes, em um ano, à sala de leitura”, conta André*, da E. E. Maria José.

Para os estudantes, muitos dos pais não apoiam as ocupações por não conhecerem a realidade delas ou por temerem a ação da polícia. “Muitos falam que a gente esta sujando a escola, quebrando cadeiras, quando é o oposto, estamos cuidando daqui”, desmistifica Túlio*. “As pessoas estão até se socializando mais. Antes, na aula, ficava cada um num canto. Hoje, todos se ajudam. Perceberam que precisamos um dos outros”, conta.

Aulas alternativas têm acontecido nos espaços das ocupações, ministradas por professores voluntários em apoio. A experiência fora do currículo oficial agrada aos estudantes.”Na escola, é dada uma apostila que você só necessita completá-la, não aprender o seu conteúdo. Na ocupação, tivemos uma aula de aerodinâmica que explicou muita coisa que eu não havia aprendido em física, e estava tudo no caderno”, relata o presidente do Grêmio da E.E. Caetano de Campo, Lucas Penteado, o Kóka, como é chamado.

Kóka, uma das lideranças do movimento, nas dependências da Caetano de Campos (Crédito: Leonardo Valle)

 

“Tinha muita gente aqui que não entendia o Teorema de Pitágoras, até que um professor que veio dar oficina o explicou a partir da observação do formato de um telhado”, acrescenta. “Durante dois anos eu procurei o livro Diário de Anne Frank na nossa biblioteca e não tinha. Até que ocorreu um sarau aqui na ocupação e conseguiram o livro para mim”, celebra Fabiano.

Novos aprendizados

A forma como as aulas são ministradas sofrem duras críticas por parte dos alunos da ocupação, que gostariam de vivenciar uma nova metodologia de aprendizagem. “Essa escola é tão velha quanto o método de ensino. O único professor que conseguiu me fazer estudar foi o de história”, conta Fabiano.

“A gente não recebe uma aula legal, dinâmica e muitos desistem de estudar. O professor passa um negócio na lousa e já era. Ele não dá atenção para o aluno“, assinala Túlio”, da E.E. Maria José.

Já para Eliane*, a escola lembra uma prisão. “Tem esses muros superaltos e, se saímos da sala, os inspetores logo mandam a gente entrar. É tudo muito restringido, não podemos nos soltar ou dar opinião”, desabafa.

Anelis Assumpção faz show para alunos na Caetano de Campos durante Virada da Ocupação (Crédito: Leonardo Valle)

 

* Os nomes dos alunos são fictícios. Por serem menores de idade, o NET Educação optou por preservar as identidades

Em nota, a Secretaria da Educação do estado de São Paulo afirmou que a Escola Estadual Caetano de Campos “tem sala do Acessa Escola, assim como a sala de leitura, à disposição dos alunos” e “que o acervo da unidade tem cerca de 8 mil livros e 5 mil títulos”. Também apontou que a Escola Estadual Maria José “tem a média de 27 alunos por classe no ensino fundamental anos iniciais, 33 no ensino fundamental anos finais e 32 no ensino médio”.

Atualizada em 21 de dezembro de 2015, às 9h18

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