São 9h e o expediente já começou na sala de escritório onde o labrador Simon, um cão de cinco anos, se esparrama em um colchonete. Alguém fala o seu nome e ele olha imediatamente, orelhas em pé. Dá uma piscadela. Simon está sempre atento. Não é um cão comum: é um guia. Há três anos acompanha Beto Pereira, que possui deficiência visual e trabalha naquela sala, onde funciona a Laratec, empresa que comercializa tecnologia assistiva para a inclusão de pessoas com deficiência. O lucro obtido nessa unidade de negócio colabora para a sustentabilidade da Laramara, a Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual.

Beto, 34 anos, nasceu com baixa capacidade de visão. Enxergou até os 13 anos e sempre estudou em escolar regular. Recorda as dificuldades que teve durante a vida escolar. O material didático tinha de ser adaptado. A leitura, sempre em braille. Com muito esforço, concluiu um curso técnico, já sem enxergar. Agora universitário do curso de Ciências Sociais, Beto afirma que a vida de estudante está mais acessível. “Leio 100 páginas de Marx numa tarde de sábado”, diz.

Giulliana Bianconi

Beto usa o software Jaws, que lê tudo o que aparece na tela

Assim como os cães-guia permitem maior autonomia às pessoas cegas, os softwares desenvolvidos com o objetivo de potencializar a educação inclusiva possibilitam uma outra forma de agir diante dos livros, que podem ser lidos e ouvidos digitalmente. “Além de estudar, me informo. Leio as revistas Época e Veja todas as semanas”, conta Beto, que trabalha o dia inteiro na frente de um computador. Ele utiliza o software Jaws, o qual lê o que surge na tela, inclusive as palavras que Beto digita. “Posso checar e-mails e enviar também, pois com a leitura em áudio a que tenho acesso, confirmo se o que escrevi está realmente certo”, destaca.

A poucos metros de Beto está Leonardo Gleison, 22 anos. No Laratec, onde desempenha a função de técnico de suporte, ele trabalha há um ano e meio. Ao Laramara, chegou há quase 18. Deslocamento de retina foi a causa da perda total da visão, aos 15 anos. Desde os 4 anos, porém, quando fez transplante de córnea, Leonardo é acompanhado pela instituição. Ele também é usuário do Jaws, mas a tecnologia assistiva que mais lhe encanta chama-se “Talks”. É um leitor de tela de celular. “Antes, eu recebia uma mensagem de texto e tinha de pedir para alguém ler. Hoje, tenho mais privacidade”, conta.

Giulliana Bianconi

Para Leonardo, o software Talks trouxe mais privacidade ao ler as mensagens do celular

A tecnologia assistiva não compreende, exclusivamente, aparatos eletrônicos e digitais. Uma bengala pode ser uma tecnologia assistiva, pois o termo designa qualquer recurso ou serviço que possa contribuir para proporcionar habilidades a pessoas com deficiência. Entretanto, as novas tecnologias vêm permitindo que softwares tenham um papel de destaque nessa área onde pesquisas e produtos desenvolvidos visam promover vida independente e inclusão.

Sivone de Souza, aluna do primeiro ano do Ensino Médio, completou 19 anos sem nunca ter navegado na internet ou explorado os programas de texto de um computador. Quando comemorar os 20, porém, tudo será diferente. Já está aprendendo, dentre outras coisas, a anexar arquivos nos e-mails. Nas aulas diárias que tem assistido no Laramara, ela utiliza softwares com o Dos Vox e o Jaws. Diferentemente de Beto Pereira e Leonardo, Sivone ainda não está totalmente familiarizada com os programas. Logo, sente dificuldades para acompanhar a leitura rápida da tela. “Mas já deu para aprender muito. Nunca imaginei que eu pudesse usar o computador sozinha”, vibra a jovem, que possui retinose pigmentar, doença degenerativa da retina.

Nesse cenário, os processos educacionais podem se tornar mais prazerosos para professor e aluno. Mas, como destaca a socióloga Marta Almeida Gil, organizadora do livro “Educação Inclusiva, o que o professor tem a ver com isso?”, é necessário que o educador esteja pronto para lidar com as deficiências em sala de aula e, mais que isso, para pensar, de uma forma diferente, o desenvolvimento dos alunos que as apresentam.

Feira de Tecnologia Assistiva, com equipamentos que auxiliam na acessibilidade

“Tem que haver uma adequação dos currículos. Pode-se fazer isso de diversas formas. O professor não precisa abandonar 35 alunos da sala e olhar apenas para um, mas precisa ter a preocupação de promover a máxima integração daquele aluno em sala. Se um garoto, por exemplo, só pode digitar no computador com os pés, que ele faça isso, então, apoiado pelo professor, que tem de estar preparado para demonstrar à turma que o preconceito não pode existir”.

Marta relembra uma reunião com um diretor de uma escola de São Paulo. Conta que ele se referia à sala dos meninos com deficiência como “a sala dos bobinhos”. “Toda comunidade escolar é educadora. Do diretor à merendeira. E, se vemos uma atitude dessa, já podemos prever o quanto aqueles alunos estarão expostos ao preconceito”, comenta a socióloga.

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Tecnologia para acessibilidade nas redes 
Coordenadora da Rede Saci, Ana Maria Barbosa enxerga as novas tecnologias como ferramentas que podem não somente promover uma educação inclusiva mais ampla como ainda fazer com que as pessoas com deficiência participem da construção do conhecimento. “Os ambientes virtuais possibilitam que todos sejam atores, e isso vale para qualquer pessoa, aquelas que enxergam ou não, que escutam ou não, enfim, para todos”, diz.

Na Rede Saci, criada há 10 anos a partir de uma parceria entre a Coordenadoria Executiva de Cooperação Universitária e de Atividades Especiais da USP, a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa, o Amankay Instituto de Estudos e Pesquisa e a UFRJ, os vieses físico, social e humano da acessibilidade têm o mesmo peso. O objetivo é fazer com que essa rede social seja um ambiente sem as barreiras às que as pessoas com deficiência estão acostumadas a encontrar no mundo real.

“Entre outras coisas, temos listas de discussões e espaço para o ‘repórter saci’, que pode ser qualquer um que queira mandar o relato de uma viagem e destacar qual o nível de acessibilidade dos lugares visitados, quais as dificuldades encontradas etc.”, conta Ana Maria. Para ter igualdade, afirma a coordenadora, é preciso destacar as diferenças. Por isso, ao se falar em redes sociais, é importante pensar naqueles que têm deficiências no momento da definição do design da rede

Procedimentos simples, como evitar o uso de flash e de qualquer recurso que necessite que o internauta execute muitos passos do percurso da navegação, fazem grande diferença. O mais acessível é que todo processamento seja feito no servidor. Utilizar o que se chama de “alternate name” em todas as figuras existentes em uma página da web também é fundamental quando se pensa em inclusão digital, pois esse recurso permitirá a leitura das imagens quando browsers especiais, utilizados por cegos, passarem pelas mesmas.

Acessível: jogo educativo promove interação entre o computador e o educando

As redes sociais, segundo Regina Atalla, presidente da Rede Latino-Americana de ONGs de Pessoas com Deficiência e suas Famílias, são ferramentas fundamentais para o desenvolvimento de qualquer ação coletiva nos dias atuais. “Nas redes, aumentamos o poder de ação para estabelecer parcerias e ampliar o índice de cobertura assistencial”. Regina, entretanto, frisou que a escola ainda é o espaço mais longo de convivência que temos, e por isso é inadmissível tantas crianças com deficiência estejam fora dela porque não encontram sistema educativo e espaço físico adequados.

Pesquisa do IBGE realizada há cinco anos mostrou que entre crianças e adolescentes brasileiros de 0 a 17 anos, cerca de 2,9 milhões têm alguma deficiência. Pelas estatísticas da Secretaria de Educação Especial, apenas 448.601 dessas estavam matriculadas em creches, pré-escolas, ensino fundamental e médio da rede pública e do ensino particular.

As tecnologias assistivas podem ajudar a incrementar esse número, mas, como destaca o professor de Informática da Laramara, William Rodrigues, a tecnologia, por si só, não promove a inclusão das pessoas com deficiência. “Muitos outros fatores têm que estar atrelados, como a disposição da sociedade de pensar na acessibilidade de forma constante”, diz.

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