Entre os dias 4 e 6 deste mês, educadores, pensadores e líderes políticos e empresariais se reuniram em Doha, no Qatar, para o 2014 World Innovation Summit for Education. O encontro é um dos maiores eventos mundiais para se discutir as novidades e tendências na educação, além de apresentar uma visão global sobre a questão. O tema desse ano foi “Imagine – Create – Learn: Creativity At The Heart of Education” (Imaginar – Criar – Aprender: Criatividade no Coração da Educação).

Os “hábitos mentais” que precisam ser desenvolvidos

Para Guy Claxton, professor emérito de Ciências do Aprendizado na Universidade de Winchester e um dos palestrantes do encontro, a maioria das discussões sobre educação está em torno das questões sobre quais conteúdos os alunos devem aprender e de como é possível medir esse aprendizado. No entanto, ele opina que o mais importante é discutir quais as habilidades e capacidades mentais que os jovens precisam desenvolver para participar ativamente de suas sociedades. A criatividade, a curiosidade e o ceticismo com relação à informação são, segundo ele, algumas dessas capacidades mentais.

Ainda para Claxton, o desenvolvimento dessas habilidades não depende do conteúdo. Para o professor, a forma como uma disciplina é ensinada é tão importante quanto a disciplina em si. Ele dá o exemplo do ensino de História da Segunda Guerra Mundial: a história pode ser ensinada de forma a levar os alunos a cultivar empatia e tolerância, ou pode ser ensinada levando os estudantes a entender que há apenas um ponto de vista correto – trata-se portanto de uma questão de abordagem. Claxton sugere, como maneiras para exercitar essa primeira forma de ensino, que o professor discuta com os alunos a ideia de que “a história é escrita pelos vencedores” e peça a eles que narrem um mesmo evento histórico de três perspectivas diferentes – e reforça que exemplos de maneiras mais interessantes de ensinar estão disponíveis para qualquer conteúdo.

A criatividade para Paul Collard, CEO da fundação internacional Creativity, Culture and Education (CCE), é um fator central para o sucesso no século XXI. Em sua fala, ele considera que a criatividade é aquilo que nos permite entender a nós mesmos, adaptar a situações diferentes e imaginar e concretizar um futuro melhor. A CCE também desenvolveu uma espécie de “linguagem da criatividade”, que indentifica os “hábitos criativos da mente” que os professores devem valorizar. Esses hábitos se dividem em cinco categorias: Inquisitivos, Persistentes, Imaginativos, Disciplinados e Colaborativos. Collard concorda com Claxton em que os conteúdos em si não dificultam o desenvolvimento desses hábitos, se trabalhados em uma abordagem que coloque o aluno no centro do processo de aprendizagem.

Novas tecnologias, novas escolas

Kari Stubbs, vice presidente da empresa BrainPOP, que confecciona plataformas e jogos que auxiliam o aprendizado, falou sobre a importância dessas ferramentas. Os jogos, segundo ela, melhoram o engajamento dos alunos por oferecer retorno praticamente instantâneo e altamente personalizado sobre o seu desempenho. Além disso, criam um ambiente que incentiva a tomada de riscos e abordagens diferentes, no qual o erro e a falha são inofensivos e, de fato, parte do processo de aprendizado. Para ela, um dos principais desafios para os professores no futuro será o de atuar num ambiente onde possam coexistir diferentes estilos e recursos de ensino, de forma a poder desenvolver de maneira mais proveitosa o potencial de cada aluno.

O fenômeno das escolas particulares de baixo custo foi o tema discutido por David Archer, chefe de desenvolvimento de programas da ActionAid. Para ele, essas escolas frequentemente apresentadas como possível solução para a ampliação dos sistemas educacionais, não são eficientes nesse sentido. Isso porque elas frequentemente contratam professores sem formação adequada ou oferecem salários muito inferiores. Dessa forma, a educação oferecida por essas instituições muitas vezes fica aquém do esperado. Além disso, Archer afirma que mesmo com seu baixo custo, essas escolas não conseguem atender as crianças mais necessitadas – justamente aquelas cujos pais não podem arcar com custo algum – o que põe em questionamento sua pretensão de universalizar a educação.

E no Brasil?

Para o coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, os tópicos abordados pelas discussões do WISE Summit são relevantes e importantes, mas não se relacionam com os principais desafios pelos quais a educação brasileira passa atualmente. Para ele, os principais desafios da educação brasileira são o da valorização dos docentes, o desenvolvimento dos projetos pedagógicos e o fornecimento de infraestrutura e tecnologia adequadas para as escolas.

A valorização dos professores se daria, na opinião do coordenador, não apenas por meio de salários e planos de carreira mais atrativos, mas também oferecendo melhor formação inicial e continuada aos docentes. Dessa forma, eles estariam aptos a desenvolver projetos pedagógicos mais atrativos para os estudantes, colocando-os no centro do processo de aprendizagem e atuando mais como mediadores do conhecimento.

A questão da infraestrutura e da tecnologia seria posterior a essas outras discussões. “A boa pedagogia sempre trata o professor como mediador”, diz Cara. “Não é a tecnologia que muda o papel do professor na sala de aula, mas ela pode ajudar o professor a assumir esse papel”, continua. A natureza “conteudística” da educação brasileira, principalmente no final do Ensino Fundamental e no Ensino Médio, são também entraves a essa mudança do papel dos professores, já que os obriga a ministrar grandes quantidades de conteúdos que raramente engajam os alunos.

Daniel opina ainda que o Plano Nacional da Educação, aprovado em junho desse ano, apresenta medidas eficazes para ajudar a promover essas mudanças. A implantação do Custo Aluno-Qualidade, em particular, seria uma que estabelece um valor mínimo a ser investido por aluno para se garantir a qualidade da educação, e obriga o Governo Federal a repassar aos estados e municípios o total necessário para se alcançar esse valor.

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