Não são apenas os países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento que têm o desafio de combater a “brecha digital”, um espaço onde estão inseridas aquelas pessoas que ainda não têm acesso à web ou que, por viverem a exclusão social, não conseguem acompanhar o constante avanço das tecnologias de informação e comunicação. Durante o 2º Congresso de Tecnologia Educacional Aplicada à Sala de Aula, evento realizado no início de junho, em Brasília, o professor espanhol licenciado em Filosofia e em Ciências da Educação Ramiro Tomé direcionou a sua palestra para projetos que visam, na Espanha, diminuir o contingente formado pelos que carecem de formação digital.

O palestrante é um entusiasta de iniciativas que visam promover a inclusão social a partir das novas tecnologias. Na Espanha, mais exatamente na região da Catalunha, onde atua, Ramiro Tomé já foi um dinamizador (termo que ele utiliza com frequência para definir um monitor engajado) de diversas iniciativas. Acompanhou o processo de evolução de turmas formadas por perfis distintos. Mas, fossem elas compostas por mulheres acima dos 40 anos, desempregadas, buscando recolocação no mercado de trabalho ou por jovens infratores à margem da sociedade, essas turmas sempre respondiam aos “estímulos” ao se depararem com recursos tecnológicos e com a orientação para explorá-los. “Muitas pessoas têm contato com recursos tecnológicos, mas possuem total aversão ao mundo digital ou não encontram utilidade para isso”, defende Ramiro.

O projeto Red Conecta é uma experiência da qual ele se orgulha. Promovido pela Fundação Esplai, ONG que possui parceria com a Microsoft, alcança jovens e adultos entre 13 e 30 anos que ainda não experimentaram a alfabetização digital completa. Sim, embora a Espanha conte com uma taxa de analfabetismo menor que 2%, o domínio digital não está nesse mesmo patamar. E, de acordo com Ramiro Tomé, como tecnologia e educação já são termos indissociáveis, é necessário combater essa “brecha digital” para não fazermos parte de “La Sociedade de La Ignorancia”. Esse é o título da obra dos escritores Antoni Brey, Daniel Innerarity e Gonçal Mayos, a qual destaca, entre outros pontos relevantes, que “as mesmas tecnologias que hoje articulam o nosso mundo e permitem aumentar o saber, estão convertendo os indivíduos em seres cada vez mais ignorantes.”

Ramiro Tomé explica: “Mesmo que se tenha acesso à web, é preciso ter a consciência de que  acesso à informação não é conhecimento. É preciso que haja transformação social, o que significa ter uma postura crítica diante do volume de informação que temos disponíveis na rede, pois se não fizermos isso estaremos nos rendendo à comodidade de aceitarmos visões pré-fabricadas”.

Em sua apresentação durante o congresso em Brasília, ele reproduziu tópicos que se interligam e que guiam as ações do Red Conecta e do Tecno Escola Mataró (outro projeto espanhol voltado para jovens, mas que tem como objetivo principal capacitá-los no uso das tecnologias para a entrada no mercado de trabalho):

•    A falta de acesso => origem da brecha digital.

•    O acesso => não garante a inclusão digital.

•    A inclusão digital => não assegura a inclusão social.

Nos projetos em que atua, Ramiro Tomé defende que a alfabetização digital é um caminho obrigatório a ser seguido, mas precisa ser significativa e aplicada. Essa lição, destaca ele, é indiferente à situação econômica ou a níveis de desenvolvimento, logo, é aplicável à Espanha, Brasil, Nova Zelândia ou a qualquer outro país do globo. “Se a tecnologia não servir para a coletividade, para que servirá então?”, indagou o palestrante.

Para combater o esquema acima, ele sugere uma cadeia simples:

•    Brecha digital => alfabetização digital => dinamizador digital nas escolas

Dinamizar é expandir o conhecimento com entusiasmo e vontade. Assim, contando com a figura do dinamizador, projetos que começam com aulas presenciais podem, ao longo do tempo, serem mantidos através de telecentros. No Red Conecta, por exemplo, o formato deu certo e o projeto estendeu seus tentáculos por toda a Espanha. Confira aqui os telecentros. E por que não contatá-los para trocar experiência?

 

Leia outros textos que publicamos a partir da cobertura da Interdidática de Brasília:

Celulares: uma nova fronteira para a aprendizagem

Quem disse que não existe legislação para a web?

Cobertura realizada via twitter

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