Além de trazer diversidade e rapidez às comunicações, e permitir a convergência de mídias, mais uma transformação pode ser atribuída à internet: a construção de uma nova linguagem, que desafia a linearidade da escrita e do sistema alfabético. Cada vez mais o português culto aparece no ciberespaço mesclado a um texto digital, que imita o ritmo ágil e solto da comunicação oral, ignorando inúmeras normas ortográficas e sintáticas da língua. O chamado internetês e sua variante, o miguxês, são comuns nas salas de bate papo, no MSN, nos torpedos de celular, e redes sociais como Orkut, Twitter e Facebook. Esta ortografia digital dispensa acentos, abusa das abreviações, cria pontuações e até usa números no lugar das letras. Os mais “fluentes” são os adolescentes, geração contemporânea à tecnologia que agora coloca à escola e à família a tarefa de acompanhar o fenômeno e avaliar até que ponto ele pode influenciar o aprendizado da escrita formal.

Logo de comunidade no Orkut

Uma recente pesquisa publicada pela instituição britânica Cranfield School of Management concluiu que a abreviação das palavras na internet vem prejudicando os adolescentes no aprendizado do inglês. O estudo entrevistou 260 alunos entre 11 e 18 anos, e 39% deles admitiram que a ortografia digital atrapalha o uso correto do idioma, principalmente quando é preciso soletrar as palavras. No Brasil ainda não há uma pesquisa similar e os resultados da investigação britânica não podem ser importados para a realidade brasileira. “Até porque nossa tradição de ensino não usa a soletração como uma condição para aprender escrita e leitura”, diz o prof. Claudemir Belintane, linguista e educador da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Mas a preocupação com a influência do internetês na escrita também existe aqui e é legítima, já que os adolescentes passam horas navegando no computador.

 

Em comunidade de adolescentes, linguagem nova é comum

 

Estudos realizados no Brasil revelam que a linguagem digital só influencia o aluno que não possui uma formação ortográfica sólida e é alienado no ambiente virtual. Para os pesquisadores, o importante é a escola identificar este aluno, orientá-lo e explicar que mesmo dentro da internet existem gêneros diferentes de escrita, que precisam ser respeitados, de acordo com a finalidade e o interlocutor. “O desafio da escola não é censurar os meios digitais, e sim pensar sobre como trabalhar a variação linguística e os diferentes gêneros de textos, inclusive na rede; algo que poucos professores fazem”, diz diz Roberta Caiado, professora de português, diretora de pós-graduação e pesquisa da Universidade Salvado de Oliveira (PE), e autora do estudo “A Notação Escrita Digital Influencia a Notação Escrita Escolar?” da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Para que isso seja possível, afirma, “é preciso que os docentes naveguem mais pelas ferramentas da internet”. A pesquisa de Roberta acompanhou a escrita de adolescentes de 14 anos na internet e foi iniciada depois que a professora flagrou abreviações como “hj”, “naum”, e “vcs” em textos escolares.

 

Conversa no blog do Moodle entre alunos do Rio Branco

    • eaaaaaaaaaaaaaaaaaaai galeraaa!ioahsioahs’ BONS ESTUDOS!
    • xgfncvnTags: asd
    • UHULES, VAMOS ESTUDAR HEM! 😀
    • OO: to desesperada,
    • \\o – demaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiis
    • não pergunte pelo msn, senhor estantaniedade!a sua duvida pode ser a duvida do seu coleguinha, dard!pergunte aque e faça todos felizes O:
    • ook, eu precisava dessas paginas ae *-*
    • porque ai eu pergunto por la, mais instantaneo. AEAE. /lu.
    • flow, vlw pelo cap. 4!!!!Carol tem umonte de coisa pra fazer colega usahduashdsa
    • VAAAALEU MULESK 8)ps: bru querendo ser descolada do moodle. KlsOAHSOIAJSIOJ
    • seria bom né. UHSHSAUHSAHUSHAUSHAU’ 😉
    • ahsuahsuausa loves, shuashua.eu fiz primeiro 😉
    • O meu ta MUITOO mais atrativo e tem imagens!!!o seu ta cansativo 😛 blehhhh

 

Segundo o trabalho, o aluno que possui um bom repertório linguístico consegue reservar o internetês para as situações da sua esfera privada, nas conversas com os amigos. “E aí a abreviação, a falta de acento ou a onomatopéia não deve ser considerada como erro ortográfico”, diz Roberta. É também o que constata a professora Kátia Reginato, professora de português do ensino médio no colégio Rio Branco em São Paulo: “Muitas vezes percebo a ortografia digital no caderno, nas anotações pessoais dos alunos”.

 

Kátia também conta uma experiência que desenha bem essa fronteira entre os dois tipos de linguagem. O colégio Rio Branco utilizou a internet durante a suspensão das aulas por causa da gripe suína, para conversar com os alunos em tempo real e continuar com as atividades da escola. “Mesmo neste momento, quando usamos o chat, os alunos evitaram as abreviações porque sabiam que estavam conversando com professores”, diz ela. Mas quando a troca de informações aconteceu entre eles, para compartilhar dúvidas ou pedir matéria atrasada, o internetês predominou (veja no box ao lado). “Em muitos casos, ficava difícil de entender”, conta Márcia Regina Macedo, coordenadora de tecnologia do colégio.

 

A capacidade de transitar bem tanto pela tecnologia virtual quanto pelo mundo da escrita culta é o que, na opinião do professor Claudemir Belintane, as escolas devem procurar desenvolver nos alunos. “Até porque a ortografia digital veio para ficar; a internet abre espaço para a criação de novas linguagens”, diz. O professor cita o filósofo Pierre Levy (http://caosmose.net/pierrelevy/), segundo o qual pela primeira vez o sistema alfabético – a invenção mais duradoura do ocidente – estaria sendo abalado. “Acho que os adolescentes, sem saber, fazem parte de uma grande transformação histórica. A questão é que o alfabeto, a leitura e a escrita são simplesmente fundamentais. Por isso, quem domina tanto o uso das tecnologias quanto o idioma escrito usufrui melhor das inúmeras oportunidades de comunicação que temos hoje”, diz ele.

 

Na comunidade “Falamos miguxês”, do Orkut, usuária propôs história coletiva, escrita entre 2007 e 2008

 

 

 

Dicas de leitura

0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments

Talvez Você Também Goste

13 dicas para criar uma peça de teatro com os alunos

Professores recomendam trabalhar com jogos, improvisações, literatura e música no processo criativo

Como ensinar ginástica na educação física escolar?

Professoras indicam 8 possibilidades para desenvolver com alunos do ensino fundamental

11 formas de acolher o aluno com síndrome de Tourette

Ambiente inclusivo evita que estudantes sofram com bullying e dificuldades de aprendizagem

Receba NossasNovidades

Receba NossasNovidades

Assine gratuitamente a nossa newsletter e receba todas as novidades sobre os projetos e ações do Instituto Claro.