Uma pesquisa realizada com pessoas entre 10 e 18 anos, pais e educadores apontou um problema na formação dos nossos jovens internautas: ao mesmo tempo em que as denúncias sobre crimes cibernéticos aumentam, a juventude se mostra despreparada para lidar com a situação. Soma-se a isso o receio de muitos educadores em abrir essa discussão nas salas de aula por julgarem não saber o suficiente para conduzir o debate – o que pode ser verdade.

Numa tentativa de mudar o cenário, a Safernet, organização responsável pela pesquisa e cujo foco está no uso consciente da rede mundial de informação, em parceria com o Comitê Gestor da Internet, montou um kit pedagógico que visa a orientar os educadores e propor rotinas pedagógicas que possam ser adotadas na prevenção de crimes.

Capa da Cartilha Safernet

Foi a partir da pesquisa, realizada entre agosto e setembro de 2008, que surgiu a ideia do kit, como uma estratégia de ação focada em jovens e professores. O material é distribuído em oficinas de capacitação que a Safernet vem realizando em 12 estados do país, sempre em parceria com os Ministérios Públicos Estadual e Federal e com a Polícia Federal. Coordenadores e professores de escolas públicas e particulares são convidados. Ao todo, 3.800 kits foram impressos, mas a verdade é que se precisa de muito mais: o Brasil possui cerca de 56 mil escolas públicas e outras 70 mil particulares.

O kit é composto por cartazes que estimulam a denúncia e indicam uma página de orientação e prevenção; animações em vídeo que contam histórias ambientadas em laboratórios de informática e apresentam situações típicas de risco na vida virtual dos jovens, como trocas de fotos pela internet; cartilhas que apresentam os problemas e as possíveis soluções para os educadores, além de slides e pesquisas que, no conjunto, objetivam auxiliá-los a pensar em aulas que trabalhem os perigos na rede e as principais precauções.

À parte a teoria, o kit ainda traz fichas pedagógicas com histórias em quadrinhos cujos balões devem ser preenchidos pelos alunos. O tema dessas histórias tem sempre a ver com os perigos da internet, como a troca de mensagens instantâneas com estranhos e o uso da webcam. “Assim, eles são estimulados a refletir em cima das situações propostas e a tomar decisões, à medida que criam diálogos. Ao mesmo tempo, o professor ganha subsídios para montar uma aula a partir do que foi escrito pelos alunos; ele tem um ponto de partida”, explica Thiago Tavares, presidente da Safernet Brasil.

O maior perigo para a garotada é não entender – e duvidar – de como algumas restrições podem ser para o seu próprio bem, o que é normal que aconteça na cabeça de um adolescente. Dentre os entrevistados, apesar de 21% dizerem que nunca se sentem seguros na internet 28% já encontraram pessoas que conheceram na internet e, desses, 65% foram sozinhos aos encontros.

Outro ponto indicado é que os pais não sabem o que seus filhos fazem na internet: enquanto 36% dos adultos responderam que seus filhos não tinham amigos virtuais, 79% dos jovens disseram que tinham ao menos um. “Por estarem em casa, no computador, os pais pensam que filhos estão livres de ameaças, principalmente as físicas. O problema está quando as crianças saem de casa”, diz Tavares.

Ausência de políticas públicas
A ameaça é mais presente do que se imagina. O perigo não está apenas nas salas de bate-papo. Além de assédio e aliciamento de menores de idade, práticas mais comuns, existem outros tipos de crimes que vêm ganhando espaço. O “cyberbullying”, que consiste na ameaça, humilhação ou intimidação de alguém via internet e o “sexting” (soma de sex + texting), que representa o envio de imagens sensuais para colegas pelo celular, via SMS, que pode culminar na sua publicação online, são outros exemplos.

Entrada do DVD Rom que faz parte do kit Safernet

Os casos se tornam críticos em sites que fazem apologia à anorexia, ao aborto – inclusive vendendo medicamentos ilegais que provocam o aborto forçado – e ao comportamento racista. Para lidar com tudo isso, não apenas os jovens como também os seus educadores devem estar bem instruídos. “É importante que saibamos aproveitar as potencialidades do universo online, afinal, ele traz muitos benefícios. Mas também devemos nos prevenir dos seus perigos”, diz Rodrigo Nejm, um dos coordenadores da Safernet.

A ausência de políticas públicas que contemplem o tema e a dificuldade de emplacar novos projetos mostram o quanto o preparo nas redes de ensino para a orientação sobre o uso da internet está aquém das necessidades. “A Safernet faz projetos-pilotos, testando e amadurecendo metodologias para passar ao poder público. Ela tenta estimular o poder a assumir o seu papel. No Brasil, não há em nível federal, estadual nem municipal políticas com esse foco [uso racional da rede]”, expõe Tavares.

O presidente da Safernet conta que o estado da Paraíba deu um pontapé inicial reunindo diferentes esferas que se ligaram à educação no trabalho pela prevenção de crimes online. A Secretaria Estadual e algumas secretarias municipais de Educação, os Ministérios Públicos Estadual e Federal, o Sindicato das Escolas Particulares, o Centro Federal de Ensino, o Comitê Gestor da Internet e a Safernet assumiram um compromisso com o objetivo de transformar idéias em projetos e colocá-los em prática em escala estadual.

De caça-níqueis a caça-palavras
Uma iniciativa da Promotoria do Estado de Goiás chama a atenção por sua criatividade e originalidade. Máquinas caça-níqueis apreendidas na cidade de Caldas Novas estão sendo transformadas em verdadeiros computadores, cujo destino final são laboratórios de informática em escolas municipais. O projeto Caça-palavras reaproveita centenas de máquinas que seriam destruídas e dá um fim educativo a elas.

Caça-níqueis transformadas em pontos de inclusão

Além de atualizações, os computadores ganham softwares educativos e outros programas que tornam a navegação mais segura. A Safernet organizou treinamentos locais, coordenados por Nejm, dos quais educadores e donos de lan houses participaram em julho deste ano, quando o Caça-palavras foi lançado.

Uma escola da rede municipal já recebeu os novos computadores, que apresentam novo design e já são utilizados pelos alunos. “Temos equipamento pronto para outras duas escolas, estamos esperando que elas se preparem para receber as máquinas”, conta a promotora Alessandra Dias, dona da ideia. Segundo ela, há tantas máquinas lotando os galpões da Receita Federal que as expectativas são de que os totens de inclusão cheguem inclusive a escolas particulares da cidade.

Desde o seu lançamento, o projeto conta apenas com o envolvimento de voluntários, o que acaba tornando todo o processo um pouco lento. Por isso, ainda não há um levantamento de quantas máquinas caça-níqueis estão prontas para serem levadas às escolas, do potencial de reaproveitamento das máquinas na cidade nem uma previsão de tempo para que mais escolas recebam os computadores.

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