Um jogo de tabuleiro e cartas disponibilizado gratuitamente para download pode ajudar professores do ensino médio a debater com os estudantes a sobrecarga feminina e a economia do cuidado. Trata-se do “Jogo do Cuidado”, desenvolvido por pesquisadoras da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Baseado nas dinâmicas sociais e urbanas da Região Portuária do Rio de Janeiro (RJ), o jogo convida os alunos a assumir o papel de dez personagens, cujas trajetórias têm como objetivo central não o acúmulo financeiro, mas o fortalecimento de redes de apoio e a colaboração mútua para enfrentar as desigualdades presentes na cidade.

“Historicamente, naturalizou-se a ideia de que o trabalho doméstico é exclusivamente feminino, ou seja, de responsabilidade das mulheres, principalmente no que diz respeito à família”, explica a professora do Departamento de Urbanismo da UFF e idealizadora da atividade, Rossana Tavares.

“Já o papel da escola é ensinar e ampliar não apenas o repertório cultural dos estudantes, mas também formar cidadãos ativos, interessados em discutir e compreender problemas da nossa sociedade, como as desigualdades de gênero — sobretudo diante do aumento expressivo da violência contra as mulheres”, afirma.

“Por meio do jogo, os jovens podem se envolver na discussão e se sentir corresponsáveis pelas mudanças necessárias no dia a dia”, acrescenta.

Direito à cidade

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PNAD Contínua, 2022) mostram que as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, enquanto os homens dedicam 11,7 horas. A diferença de quase dez horas gera sobrecarga, impacta a inserção feminina no mercado de trabalho e reduz o tempo disponível para lazer e participação na vida pública. O tema, inclusive, foi abordado na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 2023.

Tavares explica que, ao tratar da sobrecarga feminina com os alunos, também é possível discutir com os alunos o conceito de direito à cidade — princípio segundo o qual todas as pessoas têm o direito de participar e ocupar o espaço urbano, usufruindo de forma justa de seus recursos.

“As mulheres, em sua maioria, ainda se responsabilizam quase exclusivamente pelas tarefas de cuidado em casa. Isso dificulta sua participação na esfera pública e política, especialmente nos processos decisórios, como no desenho de políticas urbanas e no planejamento das cidades”, resume Tavares.

Segundo a pesquisadora, as relações sociais e de trabalho, assim como o próprio espaço urbano, ainda são estruturados de modo a perpetuar a lógica do cuidado como atribuição feminina. “Quando não enfrentamos como sociedade esse problema, que gera profundas desigualdades na vida das mulheres — e também daqueles que dependem de seu tempo e cuidado, como crianças e idosos — torna-se mais distante a possibilidade de uma transformação rumo ao direito à cidade para todos”, diz.

Ideia do jogo surgiu em escola

O projeto do “Jogo do Cuidado” é financiado pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), por meio da bolsa Jovem Cientista do Nosso Estado.

“A ideia de desenvolver um jogo voltado aos estudantes do ensino médio surgiu durante atividades científicas realizadas em uma escola na Gamboa, no Rio de Janeiro. Foi quando buscamos dialogar com o corpo docente e os estudantes sobre o tema do cuidado e propor formas lúdico-pedagógicas de trabalhar a questão em sala de aula. Assim nasceu o Jogo do Cuidado”, relata Tavares.

Além disso, a docente explica que o jogo também dialoga com a recente aprovação da Política Nacional de Cuidados (Lei nº 15.069/2024), que estabelece que o Estado implementar iniciativas de forma progressiva em estados e municípios.

Como funciona o jogo?

No Jogo do Cuidado, cada jogador sorteia uma personagem e a coloca no tabuleiro. São distribuídas as cédulas econômicas e de cuidado de acordo com a carta de cada personagem. “As personagens do jogo são representações de grupos diferentes existentes na sociedade. Cada grupo tem seus desafios no cotidiano, econômicos, sociais e de cuidado”, descreve Tavares.

O tabuleiro representa a área portuária da cidade do Rio de Janeiro, e suas regiões são classificadas economicamente e em relação ao cuidado.

As cartas de direitos, coringa, sorte e revés são embaralhadas e colocadas em uma única pilha. Elas ditam a dinâmica do jogo e são compradas rodada a rodada, determinando as ações de cada jogadora ou jogador. “As coringas oferecem a oportunidade de as personagens se mudarem de região ou ajudarem outras personagens. As de direitos representam alguns equipamentos urbanos que funcionam como apoio para as atividades de cuidado. Essas cartas trazem benefícios coletivos e impactam todos os moradores da zona da jogadora ou jogador que comprou a carta”, explica Tavares.

Caso escolha mudar de região, o movimento conta como uma jogada. Além disso, também é possível ir para uma moradia que esteja em uma ocupação popular, caso a personagem esteja passando por dificuldades financeiras.

O jogo termina quando não há mais cartas, e quem tiver mais cédula do cuidado ganha o jogo.

“No manual, oferecemos uma série de perguntas e questões que os professores podem utilizar para discutir ou fazer algum tipo de dinâmica com os estudantes”, diz Tavares.

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