As redes sociais já fazem parte da nossa realidade há mais de uma década e trouxeram benefícios incontestáveis, como a interligação de pessoas de diferentes localidades e possibilidade de indivíduos comuns se expressarem. Na mesma proporção, contudo, é possível perceber tanto na timeline do Facebook, Twitter ou outras redes sociais como nos noticiários casos de intolerância crescerem – sejam elas de cunho político, religioso, racial, sexual ou de gênero.

“Estamos vivenciando com frequencia, não somente no Brasil, mas globalmente, polarizações políticas. E os polos se posicionam de forma intolerante no sentido de não ouvirem ou serem permeados pelo argumento do outro para chegar em um debate”, analisa a professora de sociologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Rosemary Segurado.

Para os professores, este cenário pode ser uma boa oportunidade de ajudar os alunos a discutirem ética e desenvolverem habilidades argumentativas, uma vez que não raro as redes sociais são usadas como extensão da sala de aula, para organizar grupos, propôr trabalhos, dar devolutivas ou debater temas da atualidade.

Um exemplo aconteceu com a professora de língua portuguesa da Escola Estadual Professor Souza Nilo, de Itanhandu (MG), Francis Mari Ribeiro da Silva Tavares. Ao lado dos professores de história e geografia, ela criou um grupo com os alunos do 3º ano do ensino médio para discutir temas polêmicos via Facebook, como a redução da maioridade penal. Os alunos analisaram charges, notícias e reportagens para, finalmente, produzirem um artigo de opinião.

“Todos os anos, eu levava textos xerocados e pedia para que eles trouxessem novos textos para aquecer o debate e, infelizmente, o retorno era insatisfatório. Como os jovens estão sempre conectados às redes sociais, decidi aproveitar o Facebook com uma proposta pedagógica”, conta a professora.

"Usei o recurso em que todas as postagens apareciam primeiro para mim e dependia da minha liberação para liberar para o grupo. Esta medida foi tomada a fim de evitar postagens indevidas. Lancei uma enquete na qual o aluno já se posicionava a favor ou contra a redução da maioridade. Isto foi feito para, no final, comprovar que depois de lermos e debatermos o assunto as opiniões podem ser reformuladas ou serem embasadas em argumento sólidos e não no senso comum. Reformular opinião é uma forma de aprender a respeitar opiniões divergentes”, assinala.

Dê o exemplo
A propria forma como o professor se porta na rede social serve como exemplo para o aluno, motivo pelo qual o profissional precisa avaliar suas postagens com cuidado antes de publicá-las. “Pois somos formadores de opinião. Eu procuro sempre ser imparcial postanto temas polêmicos, debatendo os argumentos favorárveis e contrários, deixando o jovem formar a sua opinião final”, afirma Francis.

Para Rosemary, também é importante trazer para a sala de aula casos de intolerância que venham ocorrendo no presente para o assunto não ficar abstrato. “Um exemplo foi o que envolveu o cantor Chico Buarque, um caso de intolerância quanto a posição política dele. Do tipo ‘se você defende tal partido então você é bandido’”, pontua. “Alguém filmou e colocou na rede, ou seja, aconteceu em espaço virtual e presencial. Se isso passou com ele, imagina o quanto a intolerância está a tona na nossa sociedade”, compara.

Além disso, casos como o do cantor Chico Buarque podem servir para ilustrar a disparidade entre temas que são tolerados socialmente e temas que não. “Por que temos uma sociedade que é intolerante com questões políticas, mas tolera, por exemplo, o fechamento das escolas ou a conduta violenta da Polícia Militar? Precisamos discutir isso para não gerar adultos tolerantes ao que não deveriam”, completa a socióloga.

Veja mais:

– 7 dicas para transformar as redes sociais em ambientes educativos
– 
Educação e Redes Sociais, cada vez mais conectadas
– 
O (não) uso de tecnologias na educação: simples resistência ou resistência à transparência?

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