Pensar as demandas da educação para o século XXI é pensar em mudanças profundas no sistema de ensino dominante, o qual, diante da presença massiva das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) nos processos que regem a sociedade, não deve mais ignorar a relevância e a incorporação das mesmas. O 4º Fórum do Instituto Claro, evento realizado no dia 11 de novembro, em São Paulo, fechou um ciclo de encontros presenciais que teve como proposta discutir, ao longo deste ano, com especialistas e interessados no uso das novas tecnologias na educação, paradigmas antigos e atuais.

 

Maíra Soares

Roberto Balaguer, Roseli de Deus, Léa Fagundes
e Sílvio Meira no 4º Fórum do Instituto Claro

 

Como destacou o presidente do Instituto Claro, Rodolpho Tourinho, no momento de grande transição econômica e tecnológica pela qual a sociedade passa, é preciso buscar novas formas de olhar a educação. Exatamente por essa razão, o Instituto Claro tem, dentre os seus objetivos, estimular o debate sobre a aprendizagem no contexto da cultura digital, “uma nova cultura”, como pontuou Tourinho.

 

O 4º Fórum, que se diferenciou dos anteriores promovidos pelo Instituto Claro neste seu primeiro ano de atuação por ter contado com um palestrante internacional e com a cerimônia de premiação aos vencedores do “Prêmio Instituto Claro – Novas Formas de Aprender”, apresentou como tema central “TICs, Novos Cenários, Metodologias e Práticas”. Oito foram os projetos vencedores do Prêmio Novas Formas de Aprender, entre os 1.365 inscritos.

 

Mediado pela professora e diretora da Estação Ciência da USP, Roseli de Deus, o evento teve a educadora Léa Fagundes (RS), o engenheiro e cientista-chefe do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (C.E.S.A.R), Sílvio Meira (PE), e o consultor internacional sobre as relações entre as TICs e a subjetividade, Roberto Balaguer (Uruguai), presentes na mesa de debate.

 

Maíra Soares

Balaguer: “Não faz mais sentido gastar ‘bytes’ do cérebro para
coisas que temos onde recuperar fácil e rapidamente”

 

Balaguer, que veio ao Brasil especialmente para o evento, proferiu a palestra de abertura. Apontou as transformações no conhecimento humano propiciadas pela web e destacou que a educação ainda é “um monstro enorme, difícil de mexer”.

 

A resultante do encontro desse “monstro”, que sugere desafios para os que decidem enfrentá-lo, com a geração de “nativos digitais”, aquela que já nasceu num mundo tão articulado digitalmente, é exatamente uma educação desarticulada, como afirmou Balaguer. “Antes, quando a gente entrava na sala de aula, no século XX, o saber estava na sala, na aula. Hoje não. Os alunos já trazem informações e conhecimentos de diversos outros lugares e, na sala, o saber se minimiza”, teorizou o palestrante. Para ele, esse é o motivo da apatia dos jovens em relação à escola. “Da forma como a escola está organizada, cheias de muros, não faz sentido para os jovens estar ali”, disse.

 

O debatedor Sílvio Meira levou a público um episódio que ilustra como as barreiras da sala de aula já foram derrubadas há muito pelos educandos. “Numa aula na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), um dos alunos disse, durante a minha aula, que tinha uma pergunta do Twitter. Respondi que a aula era sobre redes sociais, mas não sobre o Twitter. Foi quando ele explicou que a pergunta vinha do Twitter, não era sobre o Twitter. Este aluno estava tuitando a minha aula, tomando notas, no microblog, sobre o que eu falava, e alguém que não estava na aula, mas sim na web, se interessou e começou, de alguma forma, a participar da aula. Então, perguntamos, onde estão os muros?”

 

Maíra Soares

Para Sílvio Meira, os “muros” das escolas já deixaram de existir
sem que as pessoas se dessem conta disso

 

Roberto Balaguer discorreu muito sobre a importância de se considerar as redes sociais e ferramentas da web como atores da educação, pois participam da formação dos jovens. “Queiramos ou não, o mundo mudou, os blogs existem, a privacidade mudou, e o Google hoje é um oráculo. Na sequência, fez uma provocação: “Quantos de vocês aqui se lembram de mais de 15 números de celular? Eu não lembro. E por que não lembramos? Porque não faz sentido, há coisas que não fazem mais sentido, como gastar ‘bytes’ do cérebro para coisas que temos onde recuperar fácil e rapidamente”.

 

Na mesma linha defendida há mais de 30 anos pela professora Léa Fagundes, que prega a curiosidade do aluno como ponto de partida para a troca de conhecimentos entre professores e educandos, o debatedor Sílvio Meira reuniu as convicções de Balaguer e Léa ao destacar que, hoje, as perguntas que têm uma resposta pronta estão fora do processo educacional. Fazem parte da memória. “O que precisamos aprender é como as recuperamos. O principal problema educacional daqui pra frente é criar ambientes para se fazer perguntas relevantes”, afirmou Meira.

 

Maíra Soares

Léa Fagundes: “É o momento de se pensar em grandes
mudanças, pois agora as tecnologias são acessíveis a
um número significativo de pessoas”

 

A questão exposta pelo cientista está longe de ser nova, mas é fato que se tornou imprescindível nos dias atuais. Na sua palestra, Balaguer apresentou um vídeo de décadas atrás, no qual o psicólogo suíço Jean Piaget indagava: “Nosso real problema na educação é: qual é o objetivo da educação? Nós formamos crianças capazes de aprender o que já é conhecido ou nós devemos tentar desenvolver mentes criativas e inovadoras, capazes de descobrir desde a pré-escola e durante toda a vida?”

 

Segundo a educadora Léa Fagundes, os modelos de educação vigentes não permitem o desenvolvimento dessas mentas criativas e inovadoras às quais Piaget se referira: “Os espaços e tempos, nas escolas, são organizados de forma que um professor tem que ensinar, numa sala onde os alunos têm todos a mesma idade, os mesmos conteúdos. Durante 50 minutos de aula, ele vai expor conteúdos que retirou do livro didático e distribuir exercícios que terão que ser respondidos da mesma forma por todos. Isso não motiva os alunos a conhecer o desconhecido”.

 

Sílvio Meira exemplificou como uma escola pode alinhar práticas ao protagonismo dos alunos na era digital citando projetos desenvolvidos pelo C.E.S.A.R Edu, setor do centro de pesquisas pernambucano voltado para soluções educacionais. Entre os projetos, o Leap (Lan house para o Entretenimento, Aprendizado e Programação), que permite que o aluno aprenda em uma ambiente informal, embora a iniciativa funcione dentro de escolas. Evitar que o aluno da escola pública fuja da sala de aula para ir a lan houses é um dos objetivos que só é alcançado graças a estratégias. “As salas têm um certo grau de desorganização, da forma como os jovens estão acostumados, e deu um trabalho incrível conseguir implantar isso”, conta Sílvio.

 

Além de jogar, acessar as redes sociais, as escolas participantes do Leap ensinam os seus alunos a programarem computadores, o que representa uma competência a mais para os alunos disputarem vagas no mercado de trabalho.

 

Léa Fagundes lembrou que, nos séculos passados, não havia conhecimento do ser humano por ele mesmo. “A educação do século XVII não foi a melhor, mas foi a possível. Todos eram desconectados”, disse. Como destacou a educadora, de anos pra cá, com a ajuda das novas tecnologias, foi possível ampliar imensamente o conhecimento. E, por isso mesmo, disse ela, é o momento de se pensar em grandes mudanças, pois agora as tecnologias são acessíveis a um número significativo de pessoas. “O que temos que perguntar, atualmente, é se dá para uma educação ter influência para gerar novos ou melhores modelos de sociedade”, pontuou Léa.

 

Durante o 4º Fórum, tanto os debatedores quanto a moderadora e o público, sobrevoaram, ao falar de suas experiências, dificuldades que enfrentaram ao tentar modificar parte da estrutura de um sistema que se tornou arcaico diante das demandas atuais. Nenhum dos convidados ousou afirmar que mudar a educação e adequá-la ao novo cenário é tarefa simples. Entretanto, ao longo do debate, destacaram conceitos e iniciativas que podem ser incorporados por aqueles que enxergam a necessidade urgente de educar de forma diferente, de forma conectada ao século XXI.

 

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