De longe, era possível identificar a turma de alunos da escola municipal Mestre Fernando Gracioso na exposição Game Play, promovida pelo Itaú Cultural. Um rapaz alto, sorridente, aparentando seus trinta e poucos anos, com uma pasta transparente debaixo do braço e vestido com uma camisa cuja estampa era o logotipo do navegador Mozilla conversava com um grupo de crianças e adolescentes. Não restava dúvida: aquele era o professor da escola que havia mandado um tweet para o Instituto Claro informando que levaria seus alunos ao evento, assim como a hora e o dia em que a atividade extraclasse seria realizada.

 

Maíra Soares

Estudante joga durante visita à exposição Game Play, do Itaú Cultural

Entusiasta do uso das novas tecnologias na educação, Fábio Rogério Nepomuceno coordenava, com a ajuda de duas mães, um grupo de cerca de 40 pessoas. O objetivo? Mostrar à turma a relação entre arte e tecnologia, que é a proposta da exposição, e, em seguida, trabalhar aquele conteúdo em sala de aula de formas diversas.

Maíra Soares

Grupo de alunos da Escola Mestre Fernando Gracioso debate fliperama que reproduz o filme  “O Encouraçado Potemkin”

No salão, meninos eufóricos, falantes, saltitantes. “Professor, quero jogar”, dizia um. “Professor, vamos logo começar”, falava mais um. Outros, tímidos, mantinham-se em silêncio e escutavam as orientações dos educadores do Game Play responsáveis por guiarem as visitas de instituições e grupos pelos salões do vistoso prédio situado na Av. Paulista. Antes de, enfim, iniciarem as interações com os games e com as obras de arte tecnológicas, uma educadora pergunta: “Quem aqui já foi a uma exposição?”. Os alunos se entreolham. Um deles arrisca: “Já fui no museu”. Para todos ali, aquela seria a primeira experiência em uma exposição.

Dez minutos depois, ambientados, eles não pareciam se surpreender com as imagens repletas de efeitos que eram transmitidas pelos telões. O professor Fábio Rogério explicou: “Boa parte desses meninos aqui participam do projeto Aluno Monitor” [iniciativa da prefeitura de São Paulo que incentiva estudantes a serem auxiliares de professores em aulas de Informática]. Em seguida, quando quase todos levantaram a mão ao ouvirem a guia perguntar quem ali jogava vídeo game em lan houses ou na escola, ficou claro então que, se exposições ainda eram terrenos desconhecidos para aquele grupo de jovens de baixa renda da zona oeste paulistana, games e ambientes virtuais já faziam parte do dia a dia.

Maíra Soares

Jessica, 13, aluna-monitora que adora games

O professor relatou que os alunos tinham até se preparado para filmar e fotografar a exposição com equipamentos comprados pela escola por sugestão dele. Posteriormente, pretendiam postar no blog que mantêm. Infelizmente, o plano não pôde ser executado. “Não pudemos porque não pedimos autorização com antecedência. Eles [funcionários do Game Play] explicaram que tem de existir uma organização para isso, por uma questão de respeito aos direitos autorais”, disse, conformado, o professor Fábio Rogério. Nem por isso, entretanto, o interesse do grupo de alunos foi menor ao circular por entre os 17 trabalhos selecionados pelo Itaulab (Núcleo de Arte e Tecnologia do Itaú Cultural) para o evento.

Na visita à obra “World Skin”, do francês Maurice Benayoun, a qual reproduz cenas históricas de conflitos bélicos, as relações com disciplinas estudadas na escola não passaram despercebidas. Na instalação, onde o jogador, munido de uma câmera fotográfica, move-se por um espaço virtual, o entusiasmo foi grande diante da possibilidade de fotografar imagens que remetiam à Segunda Guerra Mundial. O “clic” permite capturar a textura dos objetos virtuais, deixando expostas as superfícies do ambiente 3D.

Serviço

    • Exposição Game Play
      Visitação de 2 de julho a 30 de agosto | Terça a sexta, das 10h às 21h | Sab, dom e feriados, das 10h às 19h | Entrada franca (serão distribuídas senhas para o uso dos games por 15 minutos, cada)
    • Simpósio Game Play
      De 30 de julho a 1 de agosto | Sala Itaú Cultural
    • Embodied Voodoo Game, do grupo de dança Cena 11
      De 14 a 16 de agosto, às 20h | Sala Itaú Cultural
    • Itaú Cultural
      Avenida Paulista, 149, Estação Brigadeiro do Metrô

Fã dos games, a aluna-monitora Jéssica Bruna de Souza, 13 anos, mostrou-se mais intrigada diante do fliperama que reproduzia o filme “O Encouraçado Potemkin”, do russo Sergei Eisenstein, gravado em 1905, ainda na era do preto e branco. Após alguns minutos de interatividade com o game, que possibilita ao jogador mudar a ordem das cenas do filme, Jéssica confessou: “Adoro games. Eles são muito reais. Na escola, eu sempre aproveito aulas de informática para jogar.”

Segundo o professor Fábio, mesmo não tendo uma internet excelente na escola e não dispondo de autonomia para instalar qualquer programa nos computadores da instituição, o uso de games é frequente em suas aulas. “Percebo que eles aprendem bastante com o auxílio dos games e também é interessante porque até os alunos mais tímidos se tornam mais participativos quando fazemos atividades desse tipo”, afirma.

Segundo Marcos Cuzziol, gerente do Itaulab, para os jovens, jogar costuma ser a parte mais divertida da exposição, mas ele destaca que os ganhos pedagógicos podem ser recompensadores para os professores que têm disposição de levar os seus alunos ao Game Play. “A exposição é uma oportunidade para se refletir sobre essa interação do homem com a máquina, que permeia a nossa vida hoje, e a proposta, aqui, é que isso seja feito com obras de arte que usam também a linguagem dos games para se comunicar com o público”, diz.

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