Ana Júlia fala no Seminário Internacional "Desafios Curriculares do Ensino
Médio", em São Paulo, na última quinta-feira (Crédito: Leonardo Valle)
 
Ana Júlia Ribeiro é uma estudante de 16 anos do Colégio Estadual Senador Manoel Alencar Guimarães, de Curitiba (PR). Ao defender as ocupações na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), no dia 26 de outubro de 2016, chamou atenção da sociedade para a importância das ações do movimento estudantil.
 
Contudo, ela faz questão de não se posicionar como uma liderança, mas apenas como uma das vozes de um movimento que, nas palavras dela, é horizontal e apartidário.  “Estamos reivindicando uma educação de qualidade. Esse é o objetivo das ocupações”, explica a jovem. "Achar que não sabemos nada [o que queremos] é ter uma visão superficial dos estudantes", completa.
 
Em uma conversa com o NET Educação e outros três veículos da imprensa, Ana Júlia esclareceu os principais mitos relacionados às ocupações e o movimento de estudantes secundaristas que vêm ganhando força em todo Brasil. Segundo a União Nacional Brasileira dos Estudantes Secundaristas, hoje há 1.108 escolas e 82 universidades ocupadas no país. Confira abaixo!
 
NET Educação – Muitos dizem as ocupações estão vinculadas a partidos políticos. O que tem a dizer?
 
Ana Júlia Ribeiro – Os alunos que estão nas ocupações têm a sua liberdade política preservada. Porém, isso não se coloca no movimento, que é apartidário. O movimento é dos estudantes. A liberdade política individual de cada um é outro assunto.
 
NET Educação – Como você avalia a cobertura da mídia, em geral, sobre as ocupações? 
 
Ana Júlia – Há uma visão distorcida por parte da mídia. Muitos veículos dizem que somos arruaceiros, que não queremos estudar e que estamos impedindo o direito dos outros de estudarem. Não mostram as ocupações por dentro e, quando o fazem, distorcem o que fazemos lá. Muitos, inclusive, nunca nos perguntaram qual é a nossa proposta.
 
NET Educação – O que você pensa sobre a violência policial contra os estudantes?
 
Ana Júlia – A violência policial é um problema que enfrentamos. Outro problema é em relação aos movimentos que são contra as ocupações, que também partem para a agressividade. Isso é inadmissível, porque a gente não está lá usando métodos de violência, e não aceitamos que usem métodos de violência conosco. 
 
NET Educação – Como é o dia a dia de vocês na ocupação?
 
Ana Júlia – Procuramos colocar várias atividades, como rodas de discussão e cine debates, justamente para não ficarmos parados, sem estudar ou sem fazer nada. 
 
NET Educação – Qualquer pessoa pode entrar na ocupação? 
 
Ana Júlia – Sim. Se quiser conhecer uma ocupação, vá até a escola ocupada e converse. É preciso ficar claro que nem no dia a dia normal você pode simplesmente entrar na escola. O mesmo ocorre agora – temos uma questão de segurança também, um cuidado redobrado, pois somos estudantes. Sabendo disso, chegue até lá, diga o motivo da visita e sua proposta. Abra um canal de diálogo que os estudantes vão corresponder. A gente não descarta visitas, pois é importante mostrar quem somos e o que queremos.   
 
Afinal, o que os secundaristas reivindicam?
 
Ana Júlia – Estamos reivindicando uma educação de qualidade. Somos contra a Medida Provisória 746 e a PEC 55 [antiga PEC 241], que limita o teto dos gastos. A MP não contempla o ensino médio que queremos. Queremos um ensino médio que dê voz ao estudante, que o leve para uma formação cidadã que o incentive a ter pensamentos críticos. Não um ensino médio que tire isso dele. Essas são pautas nacionais dos estudantes. Dentro de cada estado e cada escola, porém, existem suas pautas individuais.  
 
Muitos dizem que os estudantes não sabem o que estão reivindicando. O que você acha disso?
 
Ana Júlia – Não somos doutores em nada, somos estudantes de ensino médio. Obviamente, não vamos falar com propriedade de um economista, por exemplo. Mas é subestimar demais nossa capacidade achar não sabemos nada, que não temos conhecimento para poder nos posicionar contra ou a favor de questões educacionais. Nas escolas, entre os estudantes, todo pessoal está indo atrás de ler as mais diversas opiniões para melhor se posicionar. Achar que não sabemos nada é ter uma visão superficial dos estudantes.
 
Por que ocupar? A discussão poderia ser travada de outro jeito?
 
Ana Júlia – Os estudantes tomaram as ruas e ninguém deu bola. Tentamos discutir nas redes sociais, e não houve efeito também. As ocupações finalmente permitiram que fossemos ouvidos, que tivéssemos voz. A ocupação incomoda, porque foge da normalidade. Por conta disso, escolhemos e achamos importante ocupar. 
 
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