A entrada da tecnologia na rotina dos jovens tem feito com que os educadores sintam, cada vez mais, uma necessidade constante de atualização. Ainda que o enfoque ideal não seja o de “correr atrás das ferramentas” (leia reportagem sobre essa questão), os cursos de especialização e pós-graduação na área se apresentam como uma alternativa para se aprofundar nesse universo. Além de trazer conteúdos já selecionados, eles permitem uma reflexão sobre práticas pedagógicas, que têm de ser repensadas com a priorização de conceitos como colaboração, interatividade e protagonismo juvenil.

 

Para Márcia Coutinho, do Senac-SP, “há um descompasso entre o discurso ‘giz e lousa’, feito na escola, e o discurso que o aluno utiliza fora dela”. Márcia, professora da pós-graduação em Tecnologias na Aprendizagem do Senac, defende que cursos desse tipo são bons porque “potencializam as possibilidades de ações pedagógicas dos professores”. Outros pontos positivos, segundo a educadora, são a oportunidade de expressão em diferentes linguagens (virtual, escrita, audiovisual) e a aproximação com os alunos, que normalmente se interessam pelas propostas que envolvem tecnologia.

 

No Brasil, alguns pólos de pesquisa saem na frente no oferecimento desse tipo de cursos. Além de São Paulo, há iniciativas destacadas no Rio Grande do Sul e no Ceará. Para a coordenadora do curso do Senac-SP, professora Paula Carolei, ainda faltam cursos em diversas regiões no país. Segundo ela, em seu curso, que é realizado a distância, há inscritos dos estados de Amazonas, Pará e Alagoas.

 

Maíra Soares

Interesse pelas aulas de Tecnologia Educacional tem crescido nos últimos anos, diz Paula Carolei

 

Outro dado interessante é que 60% dos inscritos no exemplo do Senac vêm de escolas públicas. Paula diz ainda que a postura dos alunos mudou nos últimos anos, mostrando uma tendência: “Entre 2001 e 2004, eu dava aula de Tecnologia Educacional; naquela época, os alunos fugiam de mim. A partir de 2005, tanto devido ao fato de as escolas passarem a receber mais computadores como pela necessidade de dialogar – em termos e ferramentas tecnológicas – com os alunos, hoje eu sou uma das professoras mais procuradas”.

 

O curso oferecido pelo Senac-SP, que tem duração de três semestres e custa em torno de R$ 400,00 mensais, é articulado em três eixos, trabalhados simultaneamente. No primeiro, a teoria da educação é aplicada nos novos contextos. Jogos e comunidades virtuais, por exemplo, são utilizados para trabalhar o conceito de rede. No outro, os alunos aprendem a produzir em novas linguagens, como vídeos, áudio para rádio e textos de internet. Finalmente, explora-se a comunicação a distância. Nesse módulo a proposta é divulgar o conteúdo produzido e se inserir em redes para isso. Os orientadores envolvidos afirmam que a dedicação necessária é de ao menos oito horas semanais.

 

As ferramentas exploradas nos cursos são as mais diversas. O educador aprende a trabalhar com fóruns, vídeos, produção colaborativa (de textos, na Wikipédia, por exemplo), participa de webconferências e até mesmo é levado para uma segunda realidade (no Second Life), onde tem a oportunidade de dialogar diferentes áreas do conhecimento – no caso, a professora Paula utiliza a ferramenta no seu curso para trabalhar com a dramatização de textos de Shakespeare e habilidades tecnológicas. A professora Márcia também cita um outro exemplo interessante: sua afinidade na área tornou mais atrativa uma aula de cordel em uma escola pública na Vila Mariana, zona sul de São Paulo. “Os alunos, que para trabalhar com cordéis tinham sido orientados a escrever um, puderam imprimir seu trabalho em forma de cordel, além de gravar e produzir um CD da turma, que foi recebido com muita felicidade”, conta. “Uma aula tradicional se tornou atraente com a nova proposta”, avalia.

 

Second Life, ambiente usado no curso de Tecnologias na Aprendizagem, do Senac

 

Para trabalhar esse conteúdo os “professores de professores” são bem preparados: “Eles têm ao menos mestrado na área de tecnologia; mas também podemos aproveitar um aluno, afinal, temos dificuldade de encontrar profissionais que atendam às nossas exigências. Estamos preparando pessoal para nós mesmos”, afirma Paula.

 

Para Leda Fiorentini, que organiza um Colóquio de Tecnologias na Educação sobre a Formação de Professores, em Brasília, o preparo dos professores nas faculdades de pedagogia tem melhorado na medida em que o acesso às novas tecnologias se torna mais democrático. “Do cartão de crédito ao uso do telefone para acesso à internet, é natural que as pessoas transponham da vida pessoal para a vida profissional tais habilidades”. Paula e Leda concordam que, apesar das mudanças no cenário brasileiro, as faculdades de pedagogia em geral ainda não formam profissionais prontos para incorporar ao seu trabalho ferramentas tão atuais como o Twitter: “Há cursos muito ruins. Devemos sair do esquema pergunta-resposta e pensar de forma mais complexa”, afirma Paula.

 

A resistência a este novo panorama existe. Segundo Márcia, há quem pense que os projetos com ferramentas tecnológicas dentro da sala de aula “é tudo marketing de governo”. Ela vai além e aponta a existência de professores que não acham necessário tal investimento, uma vez que seu salário continua o mesmo. Apesar disso, Márcia acredita que esse tipo de entrave está sendo naturalmente superado: “O peso do ‘saber’ antigo era o dos livros; hoje, é o do laptop”.

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