Durante as eleições à presidência dos Estados Unidos, a suposta notícia de que o Papa Francisco apoiava a candidatura de Donald Trump foi amplamente compartilhada nas redes sociais. Este é um exemplo de “pós-verdade”, considerada a palavra do ano de 2016 pela Universidade de Oxford (EUA). O adjetivo se refere a situações nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais. O fenômeno, contudo, é mundial.

Segundo o professor da pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Cláudio Rodrigues Coração, entender a pós-verdade requer ultrapassar as falsas dicotomias “verdade e mentira” e “meios de comunicação contra redes sociais”. “Primeiramente, a mídia tradicional também está impregnada de crenças ideológicas, tanto quanto as redes sociais. O que a pós-verdade mostra é um redirecionamento da opinião pública, que hoje não é moldada somente por esses grandes veículos”, explica.

Simulacro de realidade 

Para Coração, na pós-verdade cria-se um simulacro de realidade ou hiper-realidade. Um dos responsáveis é o algoritmo do Facebook, que privilegia a oferta de posts afinados aos interesses de cada usuário. O outro é a própria dinâmica da rede social, na qual as pessoas tendem a se ligar por afinidades ideológicas e deixam de seguir quem pensa diferente. “Cria-se uma bolha. No Facebook, você ‘fala para os convertidos’. O diálogo acontece entre iguais. Isso ajuda notícias falsas serem embaladas como verdades”, ressalta.

Por fim, há ainda uma questão comportamental. “A liberdade e o acesso a informações nunca foram tão intensos e isso gera medo. As pessoas tentam se ancorar em questões que acreditam ser seguras, fazendo com que o pensamento conservador ganhe força. E aí, como dizia Nelson Rodrigues, azar dos fatos. Não me venha com fatos. Quero a certeza que essa crença que eu acredito é real”, ilustra.

No entanto, a pós-verdade não é um fenômeno exclusivo das redes sociais. “Nos últimos 20 anos, o horário nobre da televisão brasileira é ocupado por programas policialescos e igrejas conservadoras. Não temos como passar ilesos a essa dieta jornalística, pregando, por exemplo, ‘direitos humanos para humanos direitos’. É um nó que precisaremos desatar.”

Violência é consequência

Segundo o jornalista Edgard Matsuki, a consequência da pós-verdade atinge diversas áreas. Ele é criador da página Boatos.org, que já desmentiu mais de 1,5 mil rumores.

“Se as pessoas basearem o seu voto em boatos, a escolha não será a melhor. Na economia, idem. Nas relações sociais, isso pode gerar uma cisão entre grupos. Em vez de dialogar, a consequência é a polarização de ideias”, destaca. “Vale apontar, ainda, os casos de reforço ideológico que o boato proporciona. Uma vez que a pessoa tenha um pensamento similar ao que está escrito, o boato serve como confirmação”, complementa.

Outra consequência é a violência física e simbólica. “Um exemplo é o caso do assassino de Campinas, que matou a família da ex-mulher na festa de fim de ano. A carta que ele deixou [com referências ao feminismo e direitos humanos] é um acúmulo de informações desconectadas com a realidade factual que vem sendo assimilada por anos”, aponta o professor. 

Saber se informar

Quais as habilidades necessárias a professores e alunos em tempos de pós-verdade? Matsuki aponta uma educação voltada para a checagem de informação. “Saber que nem tudo que circula online é real e ter a capacidade de discernir o que é confiável. Um site chamado ‘G1noticiasbrasil.blogspot.com’ é bem diferente do portal G1”, brinca.

Para Coração, é necessário fazer uma análise de conjuntura de cada notícia. “Tentar entender os atores sociais em jogo. Por exemplo, qual o papel igreja, da sociedade civil, dos grupos organizados e grupos desorganizados? Isso ajuda a domar estereótipos e preconceitos”, orienta. “Além disso, é fundamental sair da bolha dos nossos grupos de afinidades, o que não é fácil”, finaliza.

Veja mais:
– Intolerância nas redes sociais é oportunidade para debater com os alunos
– “Não dá para confiar em tudo o que é publicado”, diz Mariana Godoy
– Programa NET Educação – As redes sociais podem dialogar com o aprendizado?
– Por que é importante discutir política na escola?

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