Basta dar um Google no seu nome e vários posts em blogs e vídeos aparecem, todos remetendo ao projeto de música que você realizou no Haiti após o terremoto. O que o estimulou a criar uma escola de música lá?

Matheus Ortega – Olha, o Haiti foi um marco. Desde os 16 anos, venho me envolvendo fortemente com questões sociais e, desde mais cedo, participo de trabalhos voluntários por influência da minha família, muito religiosa. Mas nada parecido à viagem ao Haiti havia acontecido na minha vida. Eu fui lá pela primeira vez no ano passado, a convite do amigo Alyson Montrezol, que está fazendo um longa-metragem sobre o país que ainda está destruído. A minha participação no projeto deveria ser observar a realidade e transmitir aquilo na trilha sonora do longa. Mas eu olhei aquilo tudo, me envolvi, vivi do jeito que eles vivem por vários dias: comi o que eles comem, dormi onde eles dormem, sem qualquer conforto, vi crianças desoladas, pessoas sem saber o que fazer da vida, que rumo tomar e pensei que queria fazer muito mais. Voltei para o Brasil com aquela realidade na cabeça.

E daí para os próximos passos? Da observação e incômodo com a realidade para a ideia empreendedora e a implementação da mesma?

Matheus – A escola de música não aconteceu logo após esta primeira viagem. O que eu fiz foi voltar para o Brasil e pensar como eu poderia me envolver mais e como poderia envolvê-los em algo que fizesse a diferença na vida deles também. E foi aí que me dei conta de que a música, que de alguma forma havia sido o motivo que me levou para lá, poderia ser a ferramenta para gerar uma transformação. Eu cresci em uma casa de músicos, meu pai é músico, eu tenho uma banda com os meus dois irmãos. Então decidi pegar uma letra, traduzir para o crioulo [idioma falado no Haiti] e gravar essa canção com eles, haitianos. A ideia seria mostrar a voz do Haiti ao mundo.

E como a iniciativa repercutiu?

Matheus – Nossa, muito mais do que imaginei. Fiz a gravação sobre os escombros de uma igreja destruída,com um grupo de haitianos que já tinham algum contato com a música. Aquele momento foi muito emocionante. Eu estava novamente com o amigo que está produzindo o longa-metragem. Ele registrou as imagens daquele momento que revelam o quanto aquelas pessoas cantavam com a alma mesmo. Levamos aquela gravação para um estúdio que tenho em casa e dali saiu primeiro um vídeo, o clipe “Revolução do Amor”, que repercutiu bastante, teve um bom número de acessos e realmente foi tão gratificante e transformador que me fez pensar no projeto da escola de música.

https://youtu.be/h94SeU4cKlw

Qual participação a web teve na consolidação do seu projeto da escola de música?

Matheus – Foi grande, pois foi por meio do vídeo do YouTube que as pessoas puderam ter acesso ao que eu e a equipe havíamos vivenciado. Foi aquele vídeo que tocou as pessoas e estimulou muitos a contribuírem com doações em dinheiro. Após o clipe, fui amadurecendo a ideia de uma transformação ainda maior. Vi que a música havia tocado aquelas pessoas. Entre o clipe e a escola, eu participei do GlobalChangemakers Latin America YouthSummit, no Rio de Janeiro. No encontro, eu também amadureci a ideia da escola, além de iniciar a produção do meu primeiro curta com uma equipe de jovens de diferentes países. Em janeiro deste ano, após arrecadar U$ 10 mil, fui novamente para o Haiti.

E como foi a realização do projeto?

Matheus – Levamos cinco violões, dois teclados, um baixo, uma guitarra, cinco microfones, 40 flautas doces, pedestais e métodos básicos de aulas. E a escola se concretizou por meio de um workshop de uma semana. Depois, entregamos mais de 60 diplomas. Você não pode imaginar o que aquilo representava para as pessoas, tão sofridas. Elas sorriam, nos abraçavam. A gente enxergava que aquela também era uma forma de resgatar a dignidade, a autoestima daquele grupo após tanta tragédia e tristeza. A principal escola de música deles foi destruída pelo terremoto. Para eles, aquilo era mesmo um recomeço.

E o quanto a sua formação na escola e na faculdade foram importantes para tudo isso?

Matheus – Eu sempre fui alguém que buscou fazer as coisas aconteceram, fosse na escola, na faculdade, nos projetos em que me envolvi. Mas sei que tudo isso foi um reflexo da educação que tive em casa. Minha família é a minha base, minha inspiração mesmo, e sempre apoiou a mim e aos meus irmãos no trabalho com a música. Sempre foram incentivadores.

Depois da Escola de Música, Matheus agora articula projeto de fotografia no Haiti

Você tem mais projetos de empreendedorismo para o Haiti?

Matheus – Tenho, sim. Estou envolvido agora na estruturação de um projeto de fotografia que deve ser realizado em parceria com uma grande empresa de equipamentos dessa área. Se por meio do clipe “Revolução do Amor” foi possível mostrar a voz dos haitianos ao mundo, agora busco mostrar o Haiti pelos olhos deles mesmos. A ideia é capacitar crianças e jovens lá mesmo para fotografarem o país. Depois, realizar mostras e exposições com essas imagens em outros países, vendê-las e gerar renda para eles.

Além-Haiti, como você segue a sua busca pela formação educacional, pelo crescimento profissional?

Matheus – Eu realmente tenho muito a agradecer, pois somente coisas boas vêm acontecendo na minha vida. No ano passado, a seleção para o encontro do GlobalChangemakers na America Latina foi sensacional e rendeu frutos. Eu fui para o evento seguinte, em Londres, como convidado, para auxiliar na organização. Nunca acontece isso, de uma mesma pessoa ser convidada para dois eventos seguidos. Agora estou vivendo a expectativa do Fórum Econômico Mundial, no Rio de Janeiro, onde vou representar os globalchangemakers. Além disso, no segundo semestre, começo uma pós-graduação em desenvolvimento internacional na London Schoolof Economics and Political Science. E eu pensei que era isso, que já estava ótimo [risos]. Mas esta semana recebi a confirmação de um convite para a Conferência Zeitgeist, promovida pelo Google. É uma conferência com nomes como Bill Clinton, Rainha Rania, Stephen Hawking. Estarei lá como um dos 12 participantes do Young Minds e muito feliz com mais essa oportunidade!

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