Quando criança, a pequena indígena Jerá não imaginava que um dia haveria escola em sua aldeia Tenondé Porã. Da etnia Guarani Mbya e hoje com 31 anos, Jerá vive, desde o nascimento, em território demarcado como reserva indígena, localizado em Parelheiros, zona sul de São Paulo (SP). “Não pensava em toda proporção que [a aldeia] ganharia enquanto povo indígena, que teria sala de aula e, que aqueles que foram alunos, um dia dariam aulas”, lembra ela, que hoje é formada em pedagogia pela Universidade de São Paulo (USP) e vice-diretora da única escola indígena da comunidade.

Jerá Giselda iniciou os estudos no ensino regular aos dez anos, fora da aldeia, em um bairro próximo, junto com a irmã de 13 anos. A mãe quem decidiu pela matrícula. “Ela disse que a gente tinha que estudar essa cultura [das pessoas fora da aldeia] para saber falar com eles, para fazer as coisas melhores para os indígenas, essas eram as falas dela”, conta.

Sem saber pronunciar uma palavra em português, no início foi difícil. Jerá desistiu três vezes de estudar a 1ª série do ensino fundamental, antes da professora Maria Inês Machado, de quem Jerá fala com carinho, conseguir ajudar. “Quando eu desistia, chorava, porque tinha muita saudade dela, mas com a insistência, deu certo. Ela vinha até a aldeia e me levava pelas mãos, fazia cafuné, pedia para as crianças brincarem comigo. Me sentia melhor”, relembra. Depois de seis meses, começou a falar e escrever em português.


Jerá (esquerda) no lançamento do projeto “Entre a Cidade e a Floresta”,
livro e documentário resultado da parceria do grupo Asé Ylê com a
aldeia Guarani Tenonde Porã

Gosto pelo ensino
Depois que Jerá aprendeu as quatro operações iniciais de matemática (soma, subtração, multiplicação e divisão), passou a fazer contas com gravetos e sementes na aldeia. Com a curiosidade das outras crianças indígenas, ela passou a ensiná-los. “Era gratificante quando meus amiguinhos aprendiam. Percebi que queria ser alguém parecido com a professora Maria Inês e acho que foi o que me encaminhou para essa vida.”

Inspirada na primeira professora, Jerá começou a dar aulas aos 13 anos para os pequenos da aldeia. Após terminar o ensino médio na escola regular, oportunidades de formação foram surgindo, sempre nas instituições de ensino “de lá”, como caracteriza Jerá para diferenciar da escola indígena, que passou a existir em sua aldeia apenas a partir de 1997.

Apesar dos estudos fora, Jerá sempre morou na aldeia. Durante a formação universitária, passava uma semana “na cidade” estudando na USP e duas semanas em casa. “Tivemos formação diferenciada por se tratar de indígenas e por sermos professores atuantes na aldeia, tínhamos que voltar”, afirma. Junto com pouco mais de cem indígenas de cinco etnias diferentes — Krenak, Kaingang, Terena, Tupi-guarani e Guarani Mbya —, Jerá cursou pedagogia com licenciatura em educação indígena durante três anos e meio, formando-se em 2008.

Ela lembra que a graduação ocorreu de forma pontual, baseado na demanda, após manifestações de aldeias indígenas de São Paulo. O Núcleo de Educação Indígena foi criado dentro da Secretaria de Educação do estado para se pensar um molde de formação superior que atendesse a educação indígena. Primeiro, saiu o magistério indígena, para aqueles que já eram formados no ensino fundamental e depois, o curso superior.

“Ano que vem talvez tenha outra turma. Tem uma demanda grande agora. Novos pedidos, porque está faltando professor nessa escola e em outras”, aponta. Com quase mil indígenas, a aldeia Tenondé Porã conta com 170 famílias. Entre alunos do primeiro 1º ano do fundamental ao 3º do ensino médio, 300 estudam na escola de Jerá. Além dela, apenas mais uma professora tem formação em pedagogia. Outros cinco têm o ensino médio completo, enquanto seis professores não são indígenas.


Aldeia Tenondé Porã, em Parelheiros, zona sul de São Paulo,
conta com 13 professores para 300 alunos

“Foi preciso elaborar e pensar o movimento de luta para que aldeias indígenas tivessem educação diferenciada, apesar de já estar na Constituição de 88. Aprender a ‘de lá’, mas fortalecer sua própria cultura. Um ponto muito importante para que isso se concretizasse é que o professor atuante na sala de aula fosse o próprio professor indígena de cada etnia”, ressalta.

A professora
Após cerca de seis anos ministrando aulas informais, Jerá foi contratada pelo estado como professora de língua materna aos 19 anos. De lá para cá, passaram-se mais dez anos. A maior parte do tempo, trabalhou com crianças das séries iniciais. Para as de 1ª a 3ª séries, dava aulas de todas as disciplinas do currículo regular, mais as da educação indígena: cultura e língua materna.

Esse ano, é o segundo como vice-diretora da escola, mas ela pretende voltar logo para a sala de aula. “É o que mais gosto. Para mim, é sempre muito especial. Gosto de trabalhar com as crianças, essas pessoinhas que às vezes você chama atenção e no minuto seguinte ela já esqueceu, e elas te amam e te querem bem. É fascinante a capacidade como aprendem rápido. Trabalho as músicas Guarani, e elas têm alegria quando aprendem algo.”

Escola e cultura
Para Jerá, o maior desafio que enfrenta junto com o corpo escolar é estabelecer um limite para a preservação de sua cultura. “Temos que trabalhar com cultura da sociedade de fora e da nossa etnia, para seu fortalecimento. É uma dificuldade saber até onde a escola interfere nos costumes. Tomar cuidado para que a instituição de ensino não tome conta de uma função que não é dela. Isso me tira o sono”, desabafa ela.

Jerá aponta que o aprendizado fora da cultura indígena deve servir como ferramenta para suprir as necessidades do seu povo. “Falamos de a gente aprender códigos da sociedade para a própria defesa, mas a escola não pode escolarizar a cultura Guarani. As criancinhas chegam na sala com toda diversidade de sentimentos e sonhos. Não podemos transformar em mão-de-obra e só, fazer com que pensem em ter um emprego, dinheiro e comprar um carro”, dispara.

Para seguir em frente ajudando sua aldeia, Jerá diz contar com um elemento essencial: o diálogo. “Tenho facilidade em conversar com grupo de pessoas, independente de serem alunos ou professores. Consigo juntar as pessoas, abrir para o debate e fazer com que elas fiquem calmas, e escutem.” 

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