Charretes, carroças, canoas, carros de bois, cavalarias, mulheres tricotando, fazendo rendas, ensinamentos passados de geração para geração. Será que os tempos atuais, imersos na realidade tecnológica, permitirão que essas tradições sobrevivam por mais tempo? Para o pesquisador de cultura popular Toninho Macedo, a resposta é um sonoro sim: “Nós não devemos ter receios das novas tecnologias, ao contrário, eu acho que vamos nos servir delas como ferramentas importantes para a nossa cultura tradicional”.

Divulgação/Abaçaí

Internet tem ajudado os produtores trocarem suas especificidades, afirma Toninho Macedo

E para entender o peso da afirmação, vale lembrar que Toninho conhece a fundo o tema. O projeto mais importante da organização social Abaçaí, digirida por ele, é o Revelando São Paulo, que promove, há mais de 14 anos, o encontro das várias manifestações artísticas vivas em todas as regiões do Estado. O projeto, realizado em quatro cidades por ano, traz oportunidades para mais de 2.500 pessoas darem visibilidade aos seus trabalhos de cultura tradicional, permitindo também a estudantes e ao público em geral uma forma diferenciada de conhecer tradições que, de outro modo, pareciam fadadas aos livros de história. “A cada ano, a procura por algo peculiar, que tenha história, que seja tradicional, é maior. Eles estão vendendo cada vez mais, e contribuindo para suas famílias e para sua comunidade”, afirma.

Nesse contexto, explica Toninho, a relação da tecnologia com a cultura tradicional é a de uma ferramenta para estabelecer laços, aumentar a visibilidade e o acesso aos trabalhos. “A internet serve para divulgar ainda mais o trabalho. Não para o artista perder o seu lastro, a sua identidade”, declara.

Nesta entrevista, Toninho analisa como as novas tecnologias se encontram com o mundo das tradições, gerando um movimento em que a peculiaridade é valorizada e os produtores ganham cada vez mais espaço. E, ao falar sobre o Revelando São Paulo, ele mostra que o projeto, em si, é mais um exemplo de inovação, por se constituir como uma rede – virtual e presencial – que ajuda a criar esses novos espaços de colaboração e desenvolvimento.

Com o avanço das novas tecnologias, como fica a cultura tradicional?

No século passado, por volta de 1940, muitos estudiosos previram o desaparecimento de algumas tradições por conta, pura e simplesmente, da industrialização que estava crescente. Nem se sonhava que haveriam redes de comunicação. Aqueles pesquisadores, vendo as expressões culturais tão primevas ainda, que imaginavam tão frágeis, pensaram que elas iriam desaparecer. Até porque se tinha em conta que essas manifestações eram próprias das comunidades do mundo rural. Adiantando, esse tempo passou, aceleraram-se os acessos, as tecnologias de ponta chegaram com novas possibilidades e mais uma vez disseram: “Agora é que vai acabar, porque vai internacionalizar, as pessoas vão se conectar com o mundo, com o planeta e a cultura vai pastificar, vai unificar tudo”. E o que nós vimos e vemos, ao contrário do que previam, é uma outra grande leva de valorização da identidade, dos produtos identitários. Então, parece-me que à medida que as pessoas começam a se conectar com cantos distantes do planeta, elas não estão se conectando para entrar em contacto com aquilo que é parecido, com aquilo que diz respeito a tudo e a quase nada, aquilo que já aparece na televisão.

Elas se conectam com as diferenças, com as peculiaridades?

Reinaldo Maneguim

Sim. O que é peculiar a cada comunidade, a cada ser humano, começa ganhar um destaque muito grande. A necessidade de descobrir o novo e não o que é midiático. A chegada da televisão, da internet, das redes, não acabou com as tradições. Os artesões usam as tecnologias para fazer formar redes. Há dez anos atrás, eles nem imaginavam que iriam acessar a web. Mas a gente podia supor que, por eles terem descoberto a internet, iriam abandonar os seus instrumentos, as agulhas de crochê, os tachos. Ao contrário, eles estão trocando suas peculiaridades pela internet. Fazem conexões, estabelecem redes sociais a partir da tecnologia. Dão continuidade ao contato pessoalmente no evento e alimentam essa rede através da internet, por exemplo. Com isso, estão construindo e reforçando laços pela internet. Eles descobriram que o que eles fazem tem valor, e o maior valor é dar conta do que eles são.

E como a cultura popular tradicional pode usar a tecnologia a seu favor?

Nos não devemos ter receio das novas tecnologias, ao contrário, eu acho que vamos nos servir delas como ferramentas importantes para divulgarmos o que somos, divulgarmos o que fazemos, dizermos o que queremos, e sobretudo para através da trajetória da cultura tradicional contribuirmos para o reforço de um mundo de paz.

Além da presença das tecnologias, existe um incentivo ao empreendedorismo para os inscritos e convidados do Revelando São Paulo?

Para os artesãos, culinaristas e grupos participarem, eles precisam se organizar, preparar o que vão levar, conhecer o que fazem, a sua historia, vender e estabelecer relações. Mas, o que eles produzem tem que ser algo vivo. Pois, dentro da trajetória do Revelando, do Abacaí e de tudo que fazemos, não falamos em nada que está morto, por isso não falamos que resgatamos nada, revelamos algo.

Explique um pouco sobre essa diferença entre resgate e revelação dentro do trabalho que vocês desenvolvem? 

Resgatar é trazer de volta algo que estava perdido, submerso, não estava ao alcance do contato, do tato. Nós temos priorizado a cultura viva. Então, ao invés do conceito do resgate, temos o foco no “revelando”. Algo vivo que estava aqui, mas não estava ao alcance dos olhos. Então precisamos dar visibilidade a isso.

Cite um exemplo de como o Revelando São Paulo contribui para o desenvolvimento comunitário? 

Reinaldo Maneguim

No projeto Revelando São Paulo, as pessoas vendem e veem os seus trabalhos tendo valor. Tem um culinarista de comida caipira, por exemplo, que diz: “todo ano eu tiro férias de tudo que estou fazendo e venho participar do Revelando”. E ele fala que com o que ele produz, com a mesa caipira no Revelando São Paulo, a cada ano, ele programa um avanço na vida da sua família. E ele falou, que este ano a procura foi tão grande pela identidade caipira que, além de reformar o quarto, deu para comprar uma mesinha e um computador.

Como você enxerga as novas formas de aprendizado e como o Revelando contribui para isso?

O que faz as pessoas crescerem não é a escola, não é a presença do professor na frente. Os seres humanos se modificam, crescem e melhoram pelas relações convivência, pelo estabelecer de relações. Pela convivência, o ser humano pode construir um mundo melhor ou acabar de destruir o seu mundo. Alberto Maturana, como tantos outros, coloca que é pela convivência que os seres humanos crescem. Em todas as ações da Abaçaí temos consciência disso. O grande filão do Revelando São Paulo é juntar, estabelecer relações. Todos querem vir para o Revelando São Paulo para buscar sementinhas, beber da fonte da convivência pacífica, experimentar o que veem nos livros e depois levar para suas casas, para suas comunidades, para as suas cidades.

Os estudantes estão presentes no Revelando São Paulo?

Os estudantes vêm aqui e aprendem sobre a cultura caiçara e caipira, como os tropeiros descobriram as terras, isso através da culinária, do artesanato. E a partir de tudo o que está vivo, e é isso que mais os impressiona. Os livros falam dos índios, sempre no passado: eles caçavam, pescavam. Aqui no Revelando São Paulo, temos um espaço onde os índios vêm mostrar seus trabalhos, sua cultura e mostrar que são presente. Então, todos que expõem seus trabalhos ali sabem o valor que têm e conhecem sua própria história, por isso podem repassar tranquilamente o conhecimento para os que chegam. Depois desses encontros, os estudantes apropriam-se do conhecimento, dos dados, e conseguem falar, construindo a sua trajetória. Eles se apropriam das informações e quando esses jovens são perguntados sobre o que viram e aprenderam, eles vêm trazendo respostas concretas, a partir das vivências. Isso é educação pura, da mais alta filigrana.

https://youtu.be/xVPZmEdqHG4

Para saber mais

Leia o artigo A Transmissão da Tradição Gaúcha e o Processo Ensino/Aprendizagem Utilizando Ferramentas da Web 2.0, em nossa seção Estudos.

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