Ver ruírem preconceitos e estereótipos é algo especial para a doutora em cinema Moira Toledo, e ela afirma se sentir uma privilegiada por presenciar isso constantemente nas oficinas e aulas que conduz em ambientes formais ou não formais de aprendizagem, com alunos de diferentes classes sociais. Não cabe em si de satisfação quando percebe que um aluno tímido passou a se expressar; que alguém considerado “mau aluno” tornou-se líder do grupo ou quando se depara com o garoto fortão e popular da turma chorando de emoção em uma entrevista com uma velhinha. Desde os 21 anos, quando decidiu que seria também educadora audiovisual, ela presenciou muitas dessas situações e viu algumas resultarem em transformações profundas na vida dos alunos ou na realidade de comunidades.

Apaixonada pela profissão que tem, Moira transmite a sua relação intensa com o audiovisual sempre que é estimulada a falar sobre sua experiência na área, como nesta entrevista que segue abaixo ou como pode ser visto dias atrás, no Seminário Claro Curtas, onde foi calorosamente aplaudida após sua palestra. Com a disposição de uma iniciante, ela abraça diferentes iniciativas. Como educadora, acumula projetos como o Perifa, as Oficinas Kinoforum e as Oficinas do Festival do Minuto. Sua respeitada faceta cineasta já esteve na direção de cinco curtas-metragens e seis documentários de média metragem. “Gosto de arte. Arte me inspira”, diz Moira, que defende que inspiração é algo que se desperta através de repertório, novidade, leitura e ócio.

Instituto Claro – Há algum ponto comum entre as propostas pedagógicas que desenvolve para oficinas de vídeo e de cinema para jovens alunos? Algum aspecto, técnico ou mais subjetivo, que considere essencial?

Moira Todelo – O principal aspecto é a participação, compreendida como um instrumento transversal. Promover a participação significa criar uma oficina como quem cria uma obra de arte moderna, uma obra/projeto educativo que tem em si um negativo, ou seja, só é plena de fato quando conta com a participação e a intervenção crítica dos alunos. Na prática, busca-se a participação a partir de todo um circuito educativo estimulante e desafiador, em que as atividades possuem objetivos práticos e também subjetivos e que tem como objetivo mais amplo promover nos alunos o desenvolvimento e o aprimoramento de competências que vão muito além do audiovisual.

Moira durante mediação da mesa Empreender e Apreender no Seminário Claro Curtas

Como você resumiria a dinâmica deste circuito educativo?

Moira – Nas primeiras aulas, os estudantes são surpreendidos por atividades especiais totalmente diferentes de uma sala de aula formal. Quebra-se qualquer expectativa, deixando claro que eles estão em um ambiente diferente. Em seguida, são estimulados a praticar, colocar a mão na massa [na câmera], experimentar e especialmente… errar. Essa é a etapa da curiosidade ingênua, como descrevia Paulo Freire. Em seguida, as experiências são analisadas, e parâmetros, mudados, um de cada vez! E pouco a pouco, aprendendo a mexer na câmera, experimenta-se também o método científico. As aulas que se seguem são voltadas a diversificação e qualificação do repertório cultural-cinematográfico dos alunos. A próxima etapa é o desenvolvimento dos roteiros, momento fundamental de autoria, em que se semeiam as bases para o processo de amadurecimento dos alunos em aspectos intrapessoais, relativos à relação com a própria imagem, autoconfiança e autoestima.

E o quanto este momento influencia a produção coletiva que vem depois?

Moira Toledo – Esse momento de amadurecimento ajuda os alunos a confiarem mais em si mesmos e a se tornarem mais seguros. Nesse processo, ocorre também uma das principais conquistas das oficinas: o desenvolvimento de aspectos interpessoais – a capacidade de dialogar, de criticar uns os trabalhos dos outros, permitindo que eles entendam na prática que a crítica é um processo dialético que não coloca em xeque o que eles são, mas apenas uma ideia que eles produziram. Costumo dizer aos alunos que ao longo da oficina eles vão aprender um pouco sobre si mesmos e muito sobre como se relacionar uns com os outros. E eles costumam concordar comigo no final da oficina.

E do processo que vem em seguida, a gravação, o que você destaca?

Moira Toledo – O processo de gravação é o momento da emancipação estética, em que os alunos integram todas as referências, ideias originais, diálogos criativos e imprimem isso esteticamente no vídeo. É o grande momento, na cabeça dos alunos, que ainda não imaginam o que será a exibição final… É quando toda a percepção sobre o método científico é colocada em prática, e os alunos experimentam de maneira rigorosa, já com escolhas claras e muitas decisões tomadas. O processo de edição é o momento de plenitude estética, que alça os alunos a um novo patamar de percepção, despertando ou aprofundando novas camadas de raciocínio abstrato, com a construção de um discurso audiovisual através da multiplicação de sentidos, como propunha Eisenstein [Serguei Eisenstein]. Conceitos que começam a ser facilmente absorvido por alunos de quaisquer idades. Depois do filme pronto, há ainda um longo processo de avaliação feito por alunos e educadores. 


Existe um gênero que você prefira trabalhar em oficinas com jovens? Alguma narrativa que considere mais efetiva no primeiro contato quando a intenção é fazê-los entender a produção audiovisual?

Moira Toledo – Sem dúvida, o formato é o curta-metragem. Em geral entre 3 e 10 minutos de duração. Mesmo em processos longos como a universidade, é quase impossível trabalhar com um longa-metragem, por uma questão logística mesmo. E, em oficinas, o formato curto é absolutamente perfeito. Uma tendência recente é a dos vídeos curtíssimos, como do Festival Claro Curtas e do Projeto Laboratório, e também o vídeo de minuto, como o Festival do Minuto, que tem tudo a ver com as novas tecnologias e são formatos legais e mais viáveis, pois ficam interessantes se feitos com celular ou câmera fotográfica.

Trabalhar a parte prática é o que os alunos tendem a gostar mais. Você tem alguma metodologia própria para trabalhar, por exemplo, a parte teórica do cinema, seja em aulas de graduação ou em oficinas?

Moira Toledo – Para mim, teoria e prática são indissociáveis. Quando se fala em prática, é só para dar sentido à teoria. Eu penso sempre assim: como materializar qualquer teoria com um objeto, um exercício, um filme…

Moira e Samuel de Castro: ambos educadores defendem liberdade criativa para os jovens

Você, que já desenvolveu oficinas em diferentes regiões do Brasil, percebe diferenças marcantes quando o assunto é “como os alunos buscam construir suas produções”?

Moira Toledo – A diferença é gritante. Eu diria que um jovem de São Paulo ou do Rio de Janeiro que queira realmente aprender a fazer vídeo, ou até mais que isso, ter uma formação profissional técnica na área, consegue até com certa facilidade. Há muitas ONGs e projetos públicos nessas cidades, e isso faz com que o nível de interesse também seja variável. Em outros Estados fora do eixo Rio-São Paulo, ou mesmo no interior desses estados, há uma avidez por esse tipo de aprendizado, então as oficinas tendem a render mais: alunos mais inquietos, interessados, dedicados. E há uma forte tendência de formação de cineclubes, coletivos e produtoras independentes pelos nossos ex-alunos, quando ministramos oficinas fora das capitais paulista e carioca. Em termos de conteúdo/proposta pedagógica, o Brasil é de uma heterogeneidade bastante interessante pois não exige adaptações muito grandes. Muda um pouco quando há questões severas de clima (ar muito seco, muita chuva, muito vento) ou quando a cidade é muito pequena, sem acesso de qualidade à tecnologia. Nesses casos, que são mais raros, eventualmente é necessária uma breve alfabetização digital.

E o que você diz àqueles que demonstram imenso envolvimento depois de aulas e oficinas e afirmam querer seguir no campo do audiovisual? Quais as lições indispensáveis?

Moira Toledo – Essa é a pergunta mais difícil! Além de educadora, sou também cineasta. Os caminhos desse setor andam muito difíceis para todos nós. Se o aluno quiser se desenvolver tecnicamente, como fotógrafo, produtor, técnico de som etc., há um grande mercado e, em São Paulo, sem dúvida, o caminho é cursar o Instituto Criar ou as Oficinas Querô, seguir para um estágio, “freelar” no mercado ou abrir negócio próprio. Agora, se o aluno quiser ser roteirista ou diretor, o caminho é mais na linha do “sevirismo”, da arte do “se virar”. E aí tem que ser muito interessado: fazer aulas nas melhores universidades como ouvinte, “encher o saco” de cineastas, estudantes universitários e amigos mandando roteiros, pedindo sugestões, seguir crescendo e desenvolvendo ideias, filmar muito, sempre que possível, praticar, praticar, praticar, sempre enviar o que produzir para festivais, divulgar. Usar o seu tempo para melhorar, trocar a balada por leitura, chope por cinema. E ir melhorando, crescendo, sendo sempre muito interessado até poder relaxar e colher tudo o que você plantou. Mas, enquanto você planta, a rapadura não é mole. Tem que abrir mão de muita coisa para ser um profissional da área.

Em trabalhos realizados na periferia ou em outros espaços onde existe a limitação da baixa renda, como estimular aqueles que querem seguir no audiovisual mesmo após o fim de projetos de ONGs nas comunidades?

Moira Toledo – Existe um mercado muito aquecido nas periferias do Brasil. Muitos pequenos negócios crescendo, cooperativas, negócios sociais. Minha sugestão é sempre o trabalho em rede, a troca, o processo de ganha-ganha. Em cidades como São Paulo, que tem um edital VAI que é voltado para o desenvolvimento de projetos culturais de jovens de comunidades de baixa renda [ R$ 18 mil/ano aproximadamente por projeto], vale seguir esse caminho: escrever um projeto piloto, desenvolver com recursos do edital e depois buscar novas etapas. Talvez virar uma ONG ou se associar a uma. Acho que a melhor frase para isso é: “Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez”.

E você conhece casos práticos do impossível, ou quase isso, que se tornou realidade?

Moira Toledo – Vou destacar dois aqui. Em uma palestra, um aluna me perguntou sobre o VAI [edital] e contou que tinha um projeto de construção de traquitanas para cinema, que ela havia aprendido a fazer equipamentos como travelling e até grua com materiais recicláveis e gostaria de desenvolver isso como negócio, mas acreditava que o VAI não abraçava iniciativas desse tipo. Mas ela estava errada, pois o VAI contempla iniciativas de autoformação. Expliquei isso e adivinha? Ela ganhou o edital! Por unanimidade. Tem outra boa história, no Rio de Janeiro, do coletivo Boca de Filme. Alguns dos participantes estavam andando pelo bairro buscando recursos/patrocínio em negócios locais, padarias, barzinhos, então eles viram na rua um carro de uma empresa, abordaram o motorista, mas o farol abriu e o motorista arrancou. Eles amassaram o papel que continha a proposta de apoio que vinham apresentando no bairro e jogaram dentro do carro. A empresa os procurou e patrocinou o filme, que se chama “Mulher de Amigo” e é um dos melhores filmes já feitos por alunos ou ex-alunos de projetos sociais.

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