Meu Deus, meu Deus/ Setembro passou/ Outubro e Novembro/ Já tamo em Dezembro/ Meu Deus, que é de nós,/ Meu Deus, meu Deus/ Assim fala o pobre/ Do seco Nordeste/ Com medo da peste/ Da fome feroz”. O trecho da letra é da música “A Triste Partida”, famosa na voz de Luiz Gonzaga, fundador do baião e responsável por difundir a cultura nordestina pelo Brasil ao interpretar canções sobre a identidade de seu povo. Nesta quinta-feira (13/12), o rei do baião completaria cem anos e homenagens foram feitas ao longo de 2012 para celebrar a data.

“Ele não foi apenas compositor, ele é um dos construtores da música popular brasileira. Com sua obra, deu identidade cultural a um vasto contingente da população do país”, conta o professor de história no Rio de Janeiro e autor do livro “Eu Não Sou Cachorro, Não” – obra literária de referência na historiografia da música popular do país –, Paulo César de Araújo. “Gonzaga se consagrou nos anos 40 e 50, período que coincide com a onda de migração do nordestino para o sul. Essa viagem seria muito mais infeliz sem Luiz, para mostrar a riqueza de sua cultura.”


Rei do baião, Luiz Gonzaga completaria cem anos
em 12 de dezembro de 2012

Além de problematizar questões sociais do Brasil em músicas como “Asa Branca” e a já citada “A Triste Partida”, o nordestino nascido em Exu, cidade pernambucana, “trouxe um conteúdo que é expressão riquíssima da cultura do sertanejo, do vaqueiro, fala da festa do milho, das secas e das cheias, também do jangadeiro, com variações do xote, forró e xaxado. Ele canta o clima, os sabores, os costumes, a gente brasileira”, aponta o professor da Universidade Estadual do Ceará, Kelsen Bravos.

Outras músicas de destaque que mostram a diversidade em Luiz Gonzaga são “O Xote das Meninas”, “Numa Sala de Reboco”, “Samarica Parteira” e “Apologia ao Jumento”. Sobre esta última, “posso falar inclusive em defesa dos animais, do absurdo que é sacrificá-los. Sem dúvida, Gonzaga é um fenômeno da cultura brasileira. Tem tudo na obra dele e a questão amorosa é uma das fortes temáticas. Em ‘Assum Preto’ trata de um pássaro e no fim das contas, é de amor”, afirma Araújo.

Mas a obra de Gonzaga é considerada rica não só pelo conteúdo abordado, mas também pela linguagem e música. Assim como o também cantor e compositor Adoniran Barbosa, utiliza linguagem própria das pessoas mais simples que não tiveram educação formal.

Ainda, o modo de se vestir em suas apresentações que reuniram multidões, principalmente na década de 50, é algo marcante. “Com a roupa típica, o gibão, chapéu de couro e adereços, Gonzaga reconstrói e isso é uma poesia visual”, constata Bravos.

Fonte de conhecimento
Para os pesquisadores de Luiz Gonzaga, tanto sua obra como trajetória de vida podem ser trabalhadas fora e dentro da sala de aula. “Nas aulas de literatura, é possível abordar a questão da linguagem coloquial de uma determinada época. Na área de história e geografia, a questão das migrações e transformações do Brasil, o domínio do coronelismo e a força disso, que estão em varias canções. Além da própria história da música popular brasileira”, pontua Araújo.

Bravos lembra ainda que os conteúdos culturais e indenitários são referência para educadores trabalharem com crianças e jovens. “Proporciona esse aprendizado. Conhecer o Brasil passa pela leitura e expressão de Luiz Gonzaga”, diz. Sobre o trecho “Quando eu entro numa farra/ Num quero sair mais não/ Vou inté quebrar a barra/ E pegar o sol com a mão”, da música “Forró no Escuro”, o professor comenta: “Luiz diz que o forró vara a madrugada e vai até o amanhecer, por isso usa a expressão pegar o sol com a mão”.

“Quanto mais acesso tivermos e quanto mais vasão darmos a essa expressão múltipla, quanto mais me aproprio dessa diversidade, mas brasileiro sou eu. Temos que aprender muito com cada música, palavra e ritmo”, analisa Bravos, que considera Luiz Gonzaga um fenômeno de popularidade comparado ao cantor Roberto Carlos. “Antes de o Roberto fazer grandes shows, Luiz já fazia, mas sem o apoio de mídia.”


Com sua sanfona, Gonzaga começa a se destacar
no cenário musical nos anos 40

Humberto Teixeira e Zé Dantas foram os dois maiores parceiros de composição do artista nordestino. Com o primeiro, lançou “Baião”, “Juazeiro”, “Qui Nem Jiló”, “Respeita Januário” e “No Meu Pé de Serra”. “A música deles é algo simples, formado basicamente com os três instrumentos: sanfona, zabumba e o triângulo, mas não tem lugar no mundo com algo parecido. Se pensarmos bem, os Beatles, com sua simplicidade melódica, ganhou o mundo”, completa.

Já com Zé Dantas, cantou “Sabiá”, “Vem Morena”, “Cintura Fina” e “A Volta da Asa Branca”. Segundo Bravos, com a parceria, Luiz traduziu a alma do brasileiro que não desiste nunca, como em “Vozes da Seca”: “Mas doutô uma esmola a um homem qui é são/ Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”. “Nessa música ele diz que o nordestino precisa de uma ajuda para trabalho e tendo essa oportunidade, ele pagaria em dobro”, interpreta.

Influência
Luiz Gonzaga faleceu em 1989, mas seu baião continua a marcar a música popular. Nomes como Fagner, Gilberto Gil, Lenine, Alceu Valença, Zé Ramalho, Dominguinhos e Morais Moreira têm em sua composição forte influência do gênero musical do pernambucano. “O baião está mais presente do que nunca na música popular”, conclui Araújo.

Veja abaixo apresentação da Orquestra Filarmônica do Ceará, que escolheu músicas do repertório de Luiz Gonzaga para interpretar em um de seus concertos

 

 

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