Esqueça o ambiente levemente empoeirado, as capas de livro remendadas com fitas isolantes e o acesso restrito a lentos computadores. Substitua esse “conjunto” nada atraente aos jovens por um espaço iluminado, colorido, aconchegante e moderno. Com livros sim, mas com CDs e DVDs novinhos também. Com 120 computadores que permitem acesso gratuito à internet e ainda com outros elementos instigantes, a exemplo dos leitores eletrônicos Kindles, que remetem ao universo high-tech. Enfim, uma biblioteca com potencial para ser um destino frequente dos jovens e um espaço para entusiasmadas pesquisas escolares e universitárias.

 

O lugar descrito existe há pouco mais de um mês. A Biblioteca de São Paulo reúne todas essas características e ainda prima pela inclusão das pessoas com deficiência. Muito bom, não? Tem mais: foi construída em parte do terreno que abrigava o presídio do Carandiru, onde uma história triste de chacina foi “escrita” e contada ao mundo em outubro de 1992.

 

Felizmente, as estudantes Gabriela Vallim, 15 anos, e Silmara Santana, 16 anos, puderam ler outras diversas histórias numa visita que fizeram à nova biblioteca, a convite do Instituto Claro.

 

Jefferson Coppola

Acesso aberto à internet em 120 computadores é um dos destaques da nova biblioteca, na qual existe a preocupação de responder às expectativas de diferentes perfis de usuários

 

Vasculharam as prateleiras que abrigam títulos para todas as idades, tiveram o primeiro contato com audiobooks, com o leitor eletrônico Kindle e não se intimidaram diante dos fantoches que ocupam a ala infantil. Retomando lembranças da infância, Silmara admitiu que seria legal poder ouvir os livros da série “Eloise” em audiobooks. “Li tantas vezes esses livros quando era mais nova que adoraria ouvi-los mesmo ainda hoje”, disse.

 

Mas os audiobooks, para ela, não pareceram atraentes apenas pela possibilidade de dar voz a uma personagem que marcou a sua infância. Embora ainda esteja na adolescência, Silmara já tem vida de adulta. Além de estudar, encara diariamente uma jornada de trabalho como costureira em uma empresa. “Muitas vezes eu chego em casa com a vista tão cansada que seria legal poder ouvir histórias em vez de ler”, contou.

 

Gabriela, estudante do ensino médio que no próximo ano prestará o Enem, vislumbrou outra vantagem: “Vi que tem ali o audiobook ‘O Cortiço’. Seria legal depois de um dia inteiro de aula relaxar ouvindo a história e, mesmo assim, estar se preparando para o exame”.

 

Jefferson Coppola

Ampliador digital de letras facilita leitura a pessoas que têm
dificuldade de enxergar; régua eletrônica em braile é outro recurso

 

Os audiobooks da biblioteca não estão disponíveis para serem levados para casa, esclareceu a assessoria de imprensa da biblioteca. Isso porque, diferentemente dos 30 mil livros impressos existentes no local, a função principal daqueles CDs é servir às pessoas com deficiência visual que não estão aptas a lerem de forma convencional. Para quem tem dificuldades, há ainda outros recursos, como o ampliador digital de letras e o Poet-Compact.

 

Este último é um aparelho capaz de escanear livros e traduzi-los automaticamente para o braile. Uma régua acoplada, com os pontinhos em alto relevo, permite a leitura para os que conhecem o sistema criado pelo francês Louis Braille. “Assim, um livro que ainda não esteja em formato de audiobook poderá também se tornar acessível”, explicou o educador William Andreos, que trabalha no local orientando as pessoas a utilizarem tais recursos.

 

Jefferson Coppola

As estudantes Silmara Santana e Gabriela Vallim e a coordenadora Isabela Diefenthäler experimentam o tablet Kindle

 

Kindle
Responsável pelas estudantes Gabriela e Silmara durante o passeio – ambas são alunas do Centro Educacional Unificado (CEU) Azul da Cor do Mar -, Isabela Diefenthäler, coordenadora desta instituição, compartilhou da curiosidade das meninas quando o leitor eletrônico foi disponibilizado para o grupo. Tratou de sentar junto e tentar aprender como funciona. “Eu já andei pesquisando o valor na internet. Seria muito bom não precisar carregar um monte de livro nem se preocupar com a deterioração das páginas”, explicou Isabela.

 

Já Gabriela destacou um aspecto que “denuncia” o interesse dos jovens por recursos da tecnologia que funcionam como facilitadores das suas ações: “Além de ser muito prático de carregar, num leitor eletrônico você não tem que ficar virando página!”. São sete os leitores Kindle Amazon disponíveis na Biblioteca São Paulo. E, embora ainda existam poucos títulos de obras brasileiras para compra na loja Amazon, a direção da biblioteca tratou de baixar alguns arquivos em PDF para que o conteúdo que os instrumentos carregam não seja somente em inglês.

 

Para quem se animou a ir até a Zona Norte desbravar os Kindles, apenas uma ressalva: eles só estarão acessíveis ao público no final deste mês, quando for implementada a tecnologia que garantirá a segurança desses equipamentos.

 

Jefferson Coppola

Para Isabela Diefenthäler, coordenadora do CEU Azul da Cor do Mar, espaço deve se tonar referência para professores da cidade

 

Multimídia
Filmes, documentários e vídeos em geral compõem um outro acervo de 4.000 itens disponíveis na biblioteca. Qualquer um deles pode ser solicitado pelo visitante e assistido em um dos computadores. Todas as máquinas são devidamente equipadas com fones para que ninguém atrapalhe o “vizinho”.

 

“Temos a proposta de fazer uma biblioteca multimídia lá no CEU. Já tentamos e, inicialmente, não deu muito certo. Aqui a gente percebe que houve muito investimento”, observou a coordenadora Isabela.

 

De fato, os números são grandiosos. Foram R$ 12,5 milhões ao todo para a biblioteca, sendo R$ 10 milhões do Governo do Estado de São Paulo e R$ 2,5 milhões do Ministério da Cultura, por meio do programa Mais Cultura.

Caprichado, o espaço, na opinião de Isabela, deve ser um local de visita para professores com os seus alunos. Mesmo que esses não sejam jovens tão apaixonados pela tecnologia. “Em bibliotecas de escolas públicas geralmente o acervo infantil não é muito diversificado. Aqui vemos uma infinidade de livros. Vale muito a pena”, indicou a coordenadora já com a carteirinha de sócia nas mãos e um livro de tirinhas da Mafalda que pretendia levar para casa.

 

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