Desde a criação da World Wide Web por Tim Berners-Lee, no começo da década de 90, o mundo passou por rápidas transformações que mudaram a forma como nos comunicamos, trabalhamos e aprendemos. É natural que estas mudanças se reflitam na forma como as pessoas se organizam em torno de ideias e práticas políticas e sociais, desde o Wikileaks até ações pontuais, como a troca do próprio sobrenome nas redes sociais para “Guarani-Kaiowá”, como aconteceu no último mês no Facebook, quando os usuários mostraram seu apoio às duas tribos ameaçadas de expulsão de seus territórios. Na quarta reportagem da série Gerações Digitais, abordamos o ativismo digital e suas implicações para a educação e a cultura do terceiro milênio, a partir de depoimentos de importantes agitadores do meio digital.

“Os meios de produção da era da informação estão nas mãos de quase todo mundo”, dispara Cláudio Prado, ex-secretário de políticas digitais do MinC. Como um dos criadores da Casa da Cultura Digital, ele não tem medo de cravar que o digital é uma das maiores revoluções que o mundo já viu.

“A eletricidade demorou 200 anos para moldar a humanidade e virar um direito universal. A escrita, mais de 2000 anos. Já a internet tem pouco mais de 20 anos e já revolucionou o mundo. E por quê? Ela permite acesso a uma quantidade de informação que era inimaginável nos anos 60”, exemplifica.

Para Prado, o ativismo destas décadas foi crucial para garantir diversos avanços na sociedade. Porém, hoje em dia, o ativismo é “endêmico”. “Nunca estivemos tão perto do poder. Nos anos 60, o ativismo era mais romântico. Hoje, as movimentações propostas pela internet possuem maior capacidade de mudar a realidade”, afirma.

Crowdfunding como ferramenta de transformação

Um dos exemplos de como o ativismo digital cria condições de produção e transformação social é o crowdfunding. A ideia de que diversas pessoas se unam para financiar e viabilizar um projeto é anterior até mesmo à internet, mas ganhou força nos últimos anos, impulsionada por plataformas dedicadas ao tema.

Primeira iniciativa do gênero no Brasil, o Catarse já contabiliza quase R$5 milhões arrecadados para 367 projetos e o número não para de crescer. Um dos fundadores do site, Diego Reeberg, conta que esta iniciativa vai além de um componente ideológico e seu objetivo é permitir que as pessoas tenham o que elas quiserem, na medida exata para realizar suas ideias.

“Eu não preciso captar R$2 milhões para mudar o mundo”, afirma Reeberg. “Eu posso transformar a praça do meu bairro, conversar com catadores de lixo e contar suas histórias, ou levar a transparência e a abertura para os processos governamentais. Tudo isso junto faz a diferença”, afirma.

Ultimamente, projetos de educação vêm ganhando destaque no Catarse, como a biografia colaborativa da pesquisadora Léa Fagundes, idealizada pelo Instituto Educadigital, ou o projeto Playground Infinito, de autoria coletiva, que prevê a criação de um espaço lúdico para creches replicável com projeto replicável por meio de licença Creative Commons. Reeberg afirma que esta tendência deve se acentuar, já que os projetos desta área engajam muita gente interessada em transformar o mundo através da educação.

Um dos projetos apoiados na plataforma foi o Ônibus Hacker. Concebida pelo grupo Transparência Hacker, a proposta do ônibus é realizar “invasões” em cidades do interior, mostrando para a população local caminhos para se informar sobre ações e dados governamentais.

Pedro Markun, participante do grupo Transparência Hacker, lembra que nestas viagens, alguns princípios da “ética hacker” são compartilhados, como a transparência, a autonomia e o conhecimento livre. “Desta forma, ampliamos as possibilidades de disputa local para resolver o problema das cidades”, afirma.

Ativismo pela educação

Qual o papel do professor na cultura digital? Para Cláudio Prado, ele deve estar pronto para admitir que não sabe determinados assuntos. “Antes, um bom professor era aquele que sabia muito sobre todos os assuntos. Hoje, ele não consegue competir com a internet. O bom professor será aquele que descobrirá junto com o aluno”, defende.

Os exemplos de transformação social através da cultura digital são muitos, e à medida em que as tecnologias são popularizadas, mais pessoas passarão a fazer uso destes recursos para melhorar sua realidade. Prado lembra que este processo é um caminho sem volta. “Desde os partidos políticos até os professores, todos estão sendo engolidos por uma outra lógica de comunicação”, pontua. “A ideia de mudar o mundo nunca esteve tão próxima”, finaliza.

Confira também as outras reportagens da série Gerações Digitais, que já abordou jogos na educaçãoRecursos Educacionais Abertos (REA) mobile learning.

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