Orientar os jovens na escolha da profissão deve levar em consideração também o contexto de acesso ao ensino e ao mercado. Para os professores que pretendem levar o tema para a sala de aula, é essencial abordar, além das questões mais básicas de como pensar na escolha de um curso, a discussão de pano de fundo que influencia na obtenção de um emprego. Poucas vagas em universidades públicas, debates ligados à raça e gênero são alguns exemplos que podem ser tratados com os estudantes.
 
Durante um ciclo de formação de professores do ensino público para ajudar jovens na escolha profissional, realizado pelo Projeto Tô no Rumo, um dos temas levantados foi as cotas nas universidades. “Sabemos que tem uma polêmica grande em torno disso e trazer informações a respeito para tentar desmistificar um pouco o assunto é importante”, analisa a assessora da área de juventude da Ação Educativa e doutoranda em Educação na Universidade de São Paulo (USP), Raquel Souza.
 
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Outro ponto que Raquel chamou de “determinantes da escolha profissional” que o professor deveria se preocupar em levar para a aula é a necessidade de deixar claro para os estudantes sobre discursos que podem ser perigosos. Um deles “frequentemente presente é o de que nascemos determinados para alguma coisa, que cada um tem um dom e tem que descobrir qual é. E que tudo depende do indivíduo”.
 
Segundo a assessora, os jovens são muito diferentes dependendo de sua classe social e história de vida. “Os da camada popular principalmente enfrentam um conjunto de obstáculos muito maiores. Não é determinante para o que vai ter como profissão, mas em parte influencia sim. Esse jovem tem que se esforçar na trajetória profissional, mas também deve questionar a sociedade.”
 
Deixar claro as desigualdades sociais presentes é importante para ela. “Crianças tendem a dizer que querem ser médicos ou engenheiros. Mas quem é o perfil de estudante do curso de medicina na USP? Majoritariamente brancos, de escola privada, de classe média e isso não tem a ver com o desejo de querer estar ali. Nos deparamos com meninos pobres que não conseguem ser médicos, por conta de desiguais oportunidades de estudos.”
 
Ela ressaltou ainda que é essencial estimular o projeto do jovem, mas não responsabilizá-lo pelo “tudo ou nada”, já que existe um processo chamado seleção. “O problema não é ‘me esforcei ou não me esforcei’ para entrar. Pouquíssimos conseguem, porque ensino superior é privilégio de poucos. Indivíduo tem o seu papel, mas não é só dele a responsabilidade”.
 
Uma outra abordagem também é a questão de gênero. Por que as mulheres são a maioria no magistério? Por que os homens são maioria nos cursos de tecnologia? Isso é natural ou é cultural? “Meninas nascem com ‘certo dom’ para cuidar de crianças ou aprendem que isso é para elas e, portanto, tem a ver com o fato de ganharem bonecas quando criança?”, perguntou Raquel de forma retórica. “Em um país como o Brasil, em que estereótipos de gênero têm muita força, falar sobre essa relação traz um olhar diferenciado”, finaliza.
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