Olhos contornados com lápis, cabelos pretos descoloridos apenas nas pontas, blush rosa nas bochechas, voz firme, dicção perfeita, sorriso fácil e desenvoltura diante da repórter. É difícil acreditar quando a estudante Laís Souza, 14 anos, a dona de todas essas características, afirma que era muito tímida, há alguns anos. Da mesma forma, é estranho tentar visualizar o educador Vitor Massao, gestor de projetos do núcleo de comunicação da Associação Cidade Escola Aprendiz, trabalhando de terno e cumprindo rotina de executivo no setor de marketing em um centro empresarial da Av. Paulista. Porque, assim como o filósofo e educador Donizete Soares, outro que surpreende ao revelar que no passado foi monge, Massao é hoje educador daqueles que querem transformar a sociedade e que rechaçam as instituições formadas por conceitos hierárquicos, pré-definidos.

 

Laís de Souza e o colega Luís Fernando Alves, educomunicadores
do “Nas Ondas do Rádio”, com o coordenador do projeto,
Carlos Alberto Mendes.

Os três personagens acima moldaram as suas personalidades ao se envolverem com a educomunicação, área do saber que une educação e comunicação e que tem como proposta estimular pessoas a serem ativas, críticas e criadoras dentro de uma perspectiva colaborativa. Embora existam correntes diferentes na educomunicação, há um ponto unânime: a ideia de que, por meio da mídia, é possível exercitar esse comportamento na sociedade.

Conheça o Twitter dos participantes desta reportagem

O contato com a mídia e com a tecnologia que a cerca foi exatamente o fator transformador na vida de Laís Souza – aluna da Escola Municipal Professor Pasquale, na capital paulista -, que há seis anos participa do projeto “Nas Ondas do Rádio”. Prestes a deixar o ensino fundamental, ela diz que já escolheu a profissão: quer debater temas sociais como jornalista. “Já tive experiências cobrindo eventos de educação credenciada como imprensa jovem”, conta. De menina tímida, Laís evoluiu para capacitadora do projeto de rádio cuja programação é pensada e executada por grupos de alunos auxiliados por um coordenador. A maior prova de que a educomunicação foi capaz eliminar a timidez e aumentar sua autoconfiança foi a participação, como apresentadora, em vídeos educativos veiculados em todas as 570 escolas da rede municipal de São Paulo.

Divulgação

Tony Marlon, ex-aluno e é funcionário do Projeto Arrastão

Pode soar como uma transformação “superficial”, mas a jovem conta que, graças à sua mudança de postura, ela pôde desfrutar de um aprendizado mais completo. “Era ruim, eu não tinha coragem, sequer, de fazer uma pergunta ao professor em sala de aula quando tinha dúvidas. Tinha vergonha de estar falando besteira.”

Uma trajetória parecida com a que a adolescente pretende seguir ao deixar, no final deste ano, a escola Pasquale, foi iniciada em 2001 por Tony Marlon, então com 15 anos, quando chegou a São Paulo com a família, vindo de Minas Gerais. Ao ser apresentado ao projeto Arrastão – que funciona há 40 anos com a missão de formar cidadãos críticos capazes de transformar, com espírito coletivo, a realidade e o meio em que vivem -, ele conheceu as potencialidades da educação atrelada à comunicação. “Acredito que poderia até ter mesmo feito faculdade de jornalismo se não tivesse ido ao projeto, mas tenho certeza que não teria uma formação tão plural se não tivesse participado de todas ‘aquelas’ oficinas de comunicação”, avalia Tony, o primeiro aluno do Arrastão a se tornar estagiário e, posteriormente, funcionário da instituição.

A experiência adquirida no projeto somada ao entusiasmo de Tony pelo mundo da comunicação, abriu portas no mercado para o jovem, como a da rádio Jovem Pan, onde foi estagiário. Mas no segundo setor ele não encontrou a liberdade de criar e construir. E, por empresas privadas, apenas passou quando precisou poupar dinheiro. “Lembro que queria comprar um computador e trabalhei numa empresa de tecnologia exatamente o tempo que duraram as prestações”, conta. De volta ao Arrastão, já não mais como voluntário, Tony se aprofundou no Núcleo de Comunicação Maré Alta e hoje, aos 24 anos, está coordenando a implementação de uma agência de comunicação pensada para abastecer, a princípio, os canais de diálogo da instituição com a sociedade.

No 3º setor e fora dele…

O nível de envolvimento que Tony Marlon atualmente possui com os meios de comunicação pode ser visto como o futuro de muitas “Laíses”, que ainda vão chegar “lá”, ou como parte da história de alguns “Massaos”, que já estão em outro patamar. Desde que descobriu, há sete anos, o projeto Cala-boca já Morreu, o qual tem o filósofo, educador e comunicador Donizete Soares como um de seus idealizadores, o educador Vitor Massao, 28 anos, não se desligou mais da “militância” pela democratização da educação. E também elegeu a mídia como principal instrumento no processo de tentativa de transformação de realidades. A experiência no Cala-boca foi curta, mas profunda. Na Revista Viração, uma outra experiência bem sucedida de educomunicação, ele seguiu incentivando a formação crítica de jovens e lapidando a sua própria. “Não tenho como prever em quais lugares ainda passarei, mas hoje me sinto muito satisfeito e realizado no terceiro setor”, diz Massao, graduado em Design.

Maíra Soares

Vitor Massao, que preferiu a educomunicação a uma vida de
executivo, na sede do projeto Cidade Aprendiz.

Coordenador do núcleo de Comunicação e Educação da USP, o professor Ismar de Oliveira Soares, graduado em Geografia e Jornalismo e com pós-doutorado em Comunicação pela Marquette University, destaca que a educomunicação não é exclusiva do terceiro setor. “Pode ser feita por grupos que entendam que a comunicação é um direito de todos e que defendam um livre fluxo da informação e o direito de expressão, sejam eles ONGs ou empresas privadas”, afirma Ismar.

O importante, na conceituação proposta pelo professor, é que todos possam aprender com todos. Quando questionado se uma grande empresa de comunicação, a exemplo de uma emissora de TV, pode permitir que a educomunicação seja realizada, ele defende que sim, e esclarece: “É possível que ações educomunicativas sejam desenvolvidas dentro de estruturas rígidas. O importante neste caso é que haja reflexão sobre aquela ação e alguma autonomia daquele grupo para trabalhar”.

 https://youtu.be/iDaNokk_L48

Ismar cita o programa Castelo Rá-Tim-Bum, da TV Cultura, que marcou a década passada, como exemplo. “Eram dezenas de pessoas de ‘mundos’ diferentes interagindo: crianças, palhaços, educadores… E havia a intencionalidade e o esforço de fazer a linguagem educativa a partir do entendimento da linguagem imaginária das crianças. Deu certo”. Se esse formato, para muitos, está longe de ser a educomunicação ideal, Ismar defende: “Pensamos em educomunicação sempre como uma meta, como uma esperança, mas na sociedade em que vivemos sabemos que ainda não existem ações 100% educomunicativas”.

Outros especialistas da área, a exemplo de Donizete Soares, preferem definir que ações educomunicativas são aquelas que realmente carregam um discurso novo, de cogestão, onde a horizontalidade nas relações é total e a intervenção de todos os que compõem uma produção tem o mesmo peso. “Isso não é possível numa empresa de gestão piramidal”, diz Donizete.

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