Cobrir letrinhas pontilhadas, seja no caderno de caligrafia ou no cartaz feito pela professora, é atividade que atravessa gerações no processo de alfabetização. Porém, mudanças no contexto educacional, o qual já conta com possibilidades digitais que se multiplicam entre educadores e se espalham pela sociedade conectada, permitem que as letrinhas, a partir de softwares, ganhem formas, movimento, cores e propiciem um aprendizado mais lúdico, divertido, estimulante.

O “ponto x” da alfabetização digital, entretanto, não é a diversão. A apropriação da leitura e da escrita feita a partir de recursos digitais, ou apenas com o auxílio dos mesmos, busca ampliar as atividades realizadas pelos alunos com o objetivo de fazer com que diversas áreas do conhecimento possam ser “conectadas” ao longo da alfabetização. Assim, ao mesmo tempo em que aprendem o essencial – ler e escrever -, eles mergulham em temas e são estimulados a desenvolver habilidades (como o domínio do uso do computador) que serão cobradas pelo mundo que lhes cerca.

O Luz das Letras, projeto desenvolvido em Curitiba pela Secretaria de Estado de Educação do Paraná, é um exemplo de software bem-sucedido na alfabetização digital. Criado para ser testado dentro do projeto Paraná Alfabetizado, o qual engloba outras ações, já foi além das escolas paranaenses. “Como é um software disponibilizado gratuitamente, vem sendo utilizado por escolas de outros estados. Aqui, a princípio fizemos testes com 12 turmas de escolas de Curitiba e da região metropolitana, mas o retorno foi tão bom que agora queremos levá-lo aos 32 núcleos regionais de educação”, diz a diretora de tecnologia educacional da secretaria, Vanilza Josefi.

Links sobre alfabetização digital

 

 

 

 

    • Hot Potatoes: ferramenta para criação de jogos educacionais para serem disponibilizados pela internet

 

 

    • EdiLIM: software para criar livros educativos interativos com perguntas.

 

 

 

O software oferece um tema central (Uma História para Contar) que remete à infância e, por meio da linguagem digital e visual, apresenta cinco ambientes de uma cidade virtual. Em cada um deles, podem ser trabalhadas etapas da alfabetização. “Além de números, temos relatos dos alfabetizadores que mostram como a dinâmica do Luz das Letras é eficaz. Uma das histórias é sobre uma senhora que não conseguia decorar a ordem do alfabeto. Tinha muita dificuldade. Conseguiu superar isso vendo as letras saltando na tela do computador e ouvindo a pronúnica de cada uma delas”, diz Vanilza. Da apresentação das letras à leitura de textos da poetisa Cora Coralina, os quais surgem após pequena biografia da autora ser descrita em um dos ambientes com acompanhamento de áudio, os alfabetizandos experimentam a construção de palavras e separação de sílabas, o acompanhamento de textos cujas palavras são ditadas à medida que são negritadas na tela, as pesquisas em dicionário que contém termos utilizados em poemas citados etc.

Nesse processo inicial da alfabetização, mesmo a falta de internet não atrapalha o aprendizado. Como muitas escolas estaduais e municipais brasileiras possuem laboratório de informática mas ainda não têm acesso à web, a instalação de softwares desse estilo pode ser uma saída para fazer com que o computador tenha um papel realmente importante na formação. Entretanto, como destaca a consultora pedagógica em Projetos Educacionais e mestre em Linguística Maria de Fátima Franco, “a web é importantíssima para a continuidade do processo, pois o ideal é que a alfabetização digital caminhe lado a lado com a evolução do aprendizado escolar”. Ela faz coro com a massa de educadores que defende que ferramentas da web são um poço de possibilidades para o desenvolvimento do senso crítico: “Sem internet, como você vai buscar, por exemplo, uma lista de discussão para poder tratar de um tema interessante que você viu em sala de aula? Alfabetizar não é só ensinar a ler e a escrever.” Essa utilização, nas práticas sociais, do método adquirido, é definida pelos educadores como letramento.

Ilha de Vera Cruz mostra caminho do letramento

No projeto social de educação Ilha de Vera Cruz, em São Paulo, fica bem explícita a trajetória percorrida para fazer com que os alunos consigam bem mais que deixar para trás o analfabetismo. “No trabalho com a informática, primeiro eles (alunos) precisam se apropriar da máquina, pois muitos chegam aqui sem sequer saber ligar um computador, da mesma forma que não lêem e nem escrevem”, explica a orientadora pedagógica e alfabetizadora Mara Parisi de Moura.

Nas duas turmas iniciais, “Alfa 1” e “Alfa 2”, a internet é acessada eventualmente, e o foco é mesmo o domínio do instrumento, que quase sempre é uma novidade para os alunos. Fábio Silva, 18 anos, nunca havia ligado um computador antes de chegar ao projeto, neste ano. Alagoano, ele conta que desde criança trabalhou no corte de cana com o pai e, na região rural em que moravam, veio se deparar com computadores apenas há alguns anos, em lan houses. “Eu tinha vontade de mexer, mas não sabia como”, revela. Agora, ele já arrisca, sempre em letras maiúsculas, pequenos textos no Word.

Até o final do ano, Fábio, assim como a manicure Rosimeire de Souza, 52 anos, uma integrante do Vera Cruz que tem um computador em casa “há mais de um ano” mas só ligou umas duas vezes porque não sabe usar direito, devem produzir o conteúdo de uma agenda temática. No ano passado, as datas comemorativas do Brasil guiaram a produção da agenda, que ganhou textos curtos e descontraídos sobre feriados e dias festivos. “O esforço para a produção é multidisciplinar, pois envolve também envolve as aulas de informática, artes, e, ao final do ano, é reconhecido com uma sessão de autógrafo dos próprios alunos”, conta Mara Parisi.

Já após a “Alfa 2”, quando entram na fase dos módulos, que são cinco, os alunos têm um contato mais profundo com a web. “Aí, sim, eles estão preparados para entenderem geografia com o Google Earth, por exemplo”, cita Jussara ferreira, coordenadora geral do projeto Ilha de Vera Cruz. No ano passado, alunos dos módulos trabalharam, inclusive, com laptops para realizar pesquisas de gêneros textuais que resultaram na produção da revista Vozes da Ilha. A publicação de 50 páginas conta com entrevistas, poemas, contos e crônicas. “Como você pode ver, a informática em si não é o foco, porque o que nos interessa é que ela possa contribuir para esse processo mais amplo, que é a alfabetização e o desenvolvimento de competências”, afirma Jussara.

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