Em 2004, o Twitter não existia. Tampouco a moda de escrever em poucos caracteres na web. No Brasil, a rede que começava a sua escalada rumo à popularização era o Orkut, cujo espaço para os scraps, apesar de limitado, era grande o suficiente para alguns parágrafos. Naquele mesmo ano, o escritor pernambucano Marcelino Freire lançava, “em papel”, a obra “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século”. No livro, histórias de até 50 letras.

Sim, isso significa que o Twitter não lançou um estilo. Ele apenas levou para a web algo que já existia há bastante no mundo real. Se alguns consideram um desafio passar uma mensagem em apenas 140 caracteres, o que dizer então do famoso e aclamado conto de 37 letras do hondurenho Augusto Monterroso, publicado ainda no século XX: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”.

No universo educacional, a concisão na literatura ganha espaço em salas de aula quando se estuda poetas como Carlos Drummond de Andrade ou João Cabral de Melo Neto. O primeiro afirmava que “escrever é a arte de cortar palavras”. O segundo defendia: “Enxugar até a morte”. Agora, com o Twitter e as iniciativas voltadas para a literatura que nele pipocam, textos curtos podem fazer parte de um novo contexto de aprendizagem, como sugere o escritor carioca Cláudio Soares.

Trailer do romance Santos Dumont Número 8 – O Livro das Superstições

https://youtu.be/_UDvwmAeN4Q

 

Autor de “Santos Dumont Número 8”, livro publicado em 2006, Cláudio levou a narrativa para a web. A história vem sendo contada por ele no Twitter, onde oito personagens da trama têm perfis. Há ainda vídeos no YouTube.

Analista de sistemas apaixonado pela literatura desde a adolescência, Soares discorda de que o simples e-book “tradicional” representa a linguagem web. Ele afirma que a possibilidade de manter uma narrativa “viva” no espaço virtual torna “um desperdício” apenas publicar na web o livro que já existe no papel.

Seguindo esse raciocínio, a versão virtual do livro “Santos Dumont Número 8” ainda está em construção. “Isso não significa necessariamente que, na web, o final do livro será diferente daquele já publicado. Pode ser igual, sim, mas na internet você pode, por exemplo, expandir o perfil de um personagem, apresentar fatos instigantes que não haviam sido apresentados e trazer elementos que antes não existiam”, diz o autor.

Quando procurado por professores que se interessam pela ideia da construção de uma narrativa na web, Cláudio Soares os estimula a desenvolver experiências na linha em que trabalha por acreditar que os jovens se sentem muito atraídos pela linguagem das redes sociais: “É uma escrita do presente e direta. Não fica remetendo ao passado. E os adolescentes, tão adeptos do online, gostam disso”.

Segundo o escritor, a força educacional de um projeto nesses moldes ainda não foi percebida pela grande maioria dos educadores. “No exterior já temos experiências parecidas com o que faço, mas aqui no Brasil realmente não conheço”. Em seguida, indaga: “Imagina o quanto sensacional não é você construir, com os seus alunos, uma história que pode ser lida de diferentes formas, construída com várias ferramentas?”.

Quando o autor fala de uma “construção de história com os alunos” não está se referindo a uma escrita colaborativa que tem como premissa aproveitar tudo o que é escrito por todos. Ou onde cada um dos alunos contribui com um parágrafo. Trata-se de uma dinâmica onde existe uma seleção do que foi proposto, uma análise crítica pelo grupo para posterior publicação.

Enquanto os professores não adotam a prática como tendência, há quem o faça além do escritor Cláudio Soares, o qual utiliza recursos como o Storytelling, que permite ao leitor visualizar todas as postagens mesmo que ele comece a acompanhar a história quando esta já estiver avançada.

A editora Saraiva, em outubro do ano passado, lançou uma ação no Twitter que visava a construção de uma história pelos seus seguidores cujo tema era o halloween. Duas vezes por dia eram selecionados os dois tweets mais interessantes entre os participantes. A participação dos usuários do microbog foi tamanha que a editora chegou a contabilizar 67 tweets por segundo direcionados para a sua ação.

A jornalista Isabella Meneses é uma das que se entusiasmam com atividades literárias propostas na web. Em 2009, ela foi uma das três vencedoras da segunda edição do Concurso de Microcontos, realizado via Twitter. “Sempre gostei muito da literatura tradicional, do cheiro dos livros. Gosto de tê-los, sem dúvida. Mas o formato do Twitter tem muito a ver comigo porque me considero uma pessoa fugaz, que gosta de expor ideias que vêm à cabeça num instante qualquer”, diz.

Isabella calcula ter escrito cerca de 30 frases de até 140 caracteres até ser eleita pelos jurados. “O prêmio prometido pelos organizadores no site eu nunca recebi, mas gostei muito da experiência do concurso”, atesta.

Concursos de microcontos em ambientes virtuais, escrita colaborativa, leitura linear ou por hipertexto. Temas relacionados a uma literatura que foge dos livros com centenas de páginas e se encaixa perfeitamente na web contemporânea, a colaborativa. Temas que se apresentam como mais algumas opções para educadores inovadores que conseguem extrapolar os ambientes tradicionais de ensino/aprendizagem e envolver os seus alunos em experiências enriquecedoras.

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