Por Prima Página

O vestibular é um dos momentos mais estressantes na vida de uma pessoa. Durante o período, somam-se questionamentos sobre os rumos de uma carreira ainda incerta e o medo de enfrentar o temido e eliminatório vestibular. No Brasil, a maior parte das faculdades e universidades seleciona seus candidatos por meio de uma prova aplicada em uma ou duas fases que podem, ou não, considerar a nota alcançada no Enem. A conduta diverge opiniões e sustenta o questionamento: é correto medir o conhecimento dos candidatos em apenas um período médio de 5 horas?

Alguns educadores consideram o vestibular tradicional elitista e injusto por entenderem que a provas avaliam muito mais o treino realizado por cada candidato para enfrentá-las do que o conhecimento em si. “Os vestibulares exigem algumas competências e muitas instituições escolares dão prioridades a elas, ou seja, formam alunos muito mais para passar nos exames do que propriamente para aprender”, afirma Leandro Tessler, professor do Instituto de Física, ex-coordenador do vestibular da Unicamp e coordenador de Relações Internacionais da universidade.

Além da “industrialização” do aprendizado, o período de provas é responsável por alimentar disputa entre os próprios candidatos, nem sempre vista com bons olhos. “A competição não estimula o aprendizado, o obriga. Sabe cavalo de corrida, que você precisa ficar atiçando? Tem-se é uma animalização das relações”, defende Julio Groppa Aquino, professor da Faculdade de Educação da USP.

Quando nos voltamos aos candidatos, se não bastasse a pressão interna de cada um, tem-se a externa, geralmente materializada na figura de familiares e amigos próximos. A vestibulanda Gabriela Garcia Sanches Feola, 18 anos, está em contato com o vestibular pela primeira vez – quer ingressar em Jornalismo na USP –, mas já reconhece diferentes tipos de expectativa sobre a sua escolha. “Minha mãe sempre demonstrou muito orgulho em dizer: ‘Minha filha vai fazer USP!’ e claro que eu gostaria de agradá-la. No entanto, quando conto a outras pessoas sobre o meu desejo de cursar uma faculdade pública, sinto como se quisessem me consolar antes mesmo que saibam do meu rendimento”, observa a jovem.

Vitor de Souza Pinheiro, 23 anos, se diz tranquilo frente à rotina de provas. O estudante iniciará o segundo ano de cursinho para perseguir o sonho de ingressar na USP. Em relação à tensão das provas, o estudante – que cursou três anos de música na FIAM/FAAM e tocava oboé na Banda Sinfônica Jovem do Estado – se diz preparado. “Quando tocava tinha que fazer solo para a plateia e dar o meu melhor; na prova, a lógica é a mesma”, afirma. Para a candidata Marina Sala Leite, 19 anos, a autocrítica é a principal inimiga para perseguir a carreira de arquitetura na FAU-USP. “Além de ser a instituição mais reconhecida na área, não quero que meus pais precisem bancar meus estudos; depois de dois anos de cursinho, vou me sentir bastante desmotivada se prestar o vestibular e não conseguir ingressar”, revela a estudante.

Se o cenário descrito até aqui não parece ser o mais justo, qual seria a melhor alternativa para permitir o ingresso dos estudantes no Ensino Superior? Tessler defende os métodos aplicados por algumas universidades norte americanas e chinesas: associar uma prova nacional (nos EUA, o SAT, no Brasil, o Enem), a uma entrevista presencial com o candidato. O professor salienta que, para isso, obviamente seria preciso reforçar o controle para possíveis fraudes.

E embora haja o desejo de mudanças e melhoras nos processos seletivos, a realidade mostra que o sonho é ainda distante. “O vestibular nada mais é do que uma estratégia de exclusão ilógica, que não mede nada e dever ser abolida. Mas não vai ser!”, atesta Aquino. Ainda segundo o docente: “se é preciso uma avaliação seletiva, que seja o Enem, uma opção mais racional e justa, direcionada ao Ensino Médio”.

No entanto, há quem concorde com a atual fórmula. Jocimar Archangelo, ex-coordenador do vestibular da Unicamp, acredita no vestibular como o melhor parâmetro para medir o conhecimento dos alunos e defende: “o exame é só mais uma prova como tantas outras feitas ao longo da vida acadêmica, por exemplo. Só é questionado por abarcar uma grande quantidade de conteúdo, além de ser aplicado em uma fase conturbada para os alunos”.

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