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“Paulo Freire em tempos de Fake News” é o nome do e-book disponível gratuitamente , que reúne artigos produzidos durante o curso da “EaD Freiriana” do Instituto Paulo Freire. O coordenador dos estudos e, também, um dos organizadores do livro é o diretor pedagógico da instituição. Doutor em educação, Paulo Roberto Padilha reflete, neste podcast, sobre as notícias falsas mais comuns dirigidas ao patrono da educação e descontrói suas narrativas.

“Dizem que o Paulo Freire é dogmático! Como é que um homem que defende educação como prática de liberdade, um cara que andarilhou pelo mundo em projetos de alfabetização, projetos sociais, [seria dogmático]? Por isso que ele não é só um criador de um método, ele é um filósofo da educação que construiu uma teoria do conhecimento”, afirma.

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Escola democrática

Para Padilha, os ataques a Paulo Freire têm a intenção de desconstruir a ideia de uma escola democrática, popular e emancipadora, como ele propunha. “Não é por acaso que essas aulas remotas no contexto da pandemia deixaram de lado toda a população que estuda hoje em escola pública, com raríssimas exceções”, observa. Ele avalia que a falta de acesso à tecnologia diminui a visão crítica e as possibilidades de lutar contra as fake News: “E sem comunicação, é mais fácil manipular. Sem pensar historicamente, sem levar em conta a filosofia”.

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Transcrição do Áudio

Música: “Quero Respeito” (Paulo Roberto Padilha)

Paulo Roberto Padilha:
A fake news tomou o país: entrou na escola, entrou na comunidade, entrou na televisão, em todas as áreas do conhecimento, na comunicação… A cada dia a mais se agudiza essa enormidade de notícias falsas intencionais. E você não tem ideia do número de ofensas, de provocações, de falta de conhecimento e de respeito com a obra, com a pessoa e com a causa de Paulo Freire. Então, fizemos o curso pra enfrentar, no sentido necessário da palavra, a violência, a desinformação – porque muitos dos que criticam Paulo Freire não conhecem Paulo Freire, não sabem nada da obra.
Paulo Roberto Padilha, eu sou mestre-doutor em educação, estou coordenador da EAD Freiriana; também sou diretor pedagógico do Instituto Paulo Freire.

Vinheta: “Instituto Claro – Educação”

Música de Reynaldo Bessa, instrumental, fica de fundo

Marcelo Abud:
“Paulo Freire em tempos de Fake News” é o nome de um dos cursos oferecidos pela EaD Freiriana. Os estudos foram coordenados pelo diretor pedagógico do Instituto Paulo Freire, Paulo Roberto Padilha, que é também um dos responsáveis pela organização do e-book que tem o mesmo nome do curso e reúne um grupo de educadoras e educadores em busca da verdade em tempos de fake news. O tema, aliás, vem justamente a partir do crescente número de notícias falsas em torno do patrono da educação brasileira.

Paulo Roberto Padilha:
Por exemplo, dizem que Paulo Freire destruiu a educação brasileira, que ele é responsável pela reprovação da escola brasileira. O Paulo Freire era acusado, também, de ser uma pessoa que nunca conseguia colocar em prática o que ele pensava, ‘só escrevia livros’. Como é que pode? Dizem que o Paulo Freire é dogmático! Como é que um homem que defende educação como prática de liberdade, um cara que andarilhou pelo mundo em projetos de alfabetização, projetos sociais – por isso que ele não é só um criador de um método, ele é um filósofo da educação que construiu uma teoria do conhecimento.

Música: “Paulo Freire, esse incrível” (Carlos Rodrigues Brandão e Paulo Roberto Padilha), com Paulo Roberto Padilha
Ensinou a pensar e viver o ser
Lá onde havia apenas o ter
E aprender a aprender com o que ensina

Marcelo Abud:
Com o aumento de ataques a Paulo Freire, como contrapartida, também pode haver uma maior curiosidade pela obra do educador. Mas Padilha ressalta que o pensamento freiriano tem sido incorporado de forma indevida por sistemas privados de ensino.

Paulo Roberto Padilha:
É bom que fale de Paulo Freire porque ele tem espaço e temos condição de superar essas críticas das fake news. Mas, sabendo que, primeiro lugar: está havendo um crescimento, infelizmente, enorme, do empoderamento econômico das empresas que fazem com que a educação pública seja apropriada pelo mercado. Umas das maiores indústrias do país, por exemplo, é a indústria do livro didático, que fatura bilhões de dólares por ano. Então, não tenhamos dúvidas de que o Estado, a escola pública, está perdendo recursos; a universidade pública brasileira está perdendo quadros; a tecnologia está perdendo recursos.

Música: “Quero Respeito” (Paulo Roberto Padilha)
Dessa escola sem partido, sem vida
Que não tolera a marcha das margaridas
Dessa escola que fala em neutralidade
Para enganar toda a comunidade

Paulo Roberto Padilha:
Estão trabalhando rapidamente, com muita eficiência, para cumprir o projeto deles que é acabar com a educação pública brasileira e, claro, Paulo Freire é o representante dessa educação pública de qualidade. E não é qualquer qualidade: é uma qualidade sociocultural, socioambiental da educação; é qualidade que valoriza, em primeiro lugar, a vida. Inclusive, utilizam essa nomenclatura, ou outras parecidas, pra falar ‘olha, a nossa educação privada tem tudo isso!’. Está difícil essa luta porque a universidade pública que, forma, inclusive os professores – nos cursos de pedagogia, entre outros, – está sendo alcançada para alterar o próprio currículo do curso de pedagogia, empobrecendo esse currículo, como está fazendo com o ensino médio, né?, voltando às experiências de formação tecnicista como tínhamos nos anos 70.

Marcelo Abud:
O professor afirma que a desconstrução da imagem de Paulo Freire tem o propósito de atacar o que ele defendia: uma escola democrática, popular e emancipadora.

Paulo Roberto Padilha:
Para além apenas de um discurso político, hoje nós temos que nos unir. Falar em Paulo Freire é falar então em amorosidade, é falar em diálogo, vida de qualidade, mais do que em qualidade de vida. Qualidade de vida é consumir! Vida de qualidade é ser, é encontrar, é dialogar. Aprendendo com o Freire, eu falo: ‘eu quero um mundo que valoriza a educação, a arte, a ciência, não só uma coisa ou outra’. Eu não quero matar ninguém, eu não quero que ninguém morra. Eu quero que sejamos uma sociedade pacífica. Só que, para ter a paz – e Paulo Freire também teorizou sobre isso – eu preciso antes da justiça.

Marcelo Abud:
Em 1989, na gestão de Luiza Erundina, Paulo Freire esteve à frente da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Segundo Padilha, entre as ações do educador destaca-se a busca por meios de levar o computador para a escola pública. Hoje, apesar de não haver dúvida de que a cultura digital diminui distâncias, a falta de acesso à tecnologia ainda é realidade para muitas crianças e jovens. Isso também diminui o alcance a outras visões de mundo e às possibilidades de se lutar contra as fake news.

Paulo Roberto Padilha:
Não é por acaso que essas aulas remotas no contexto da pandemia deixaram de lado toda a população que estuda hoje em escola pública, com raríssimas exceções, de uma boa educação remota. Nós nem chamamos de remotas, chamamos de uma boa educação a distância, emancipatória, criativa e transformadora. E sem comunicação, é mais fácil manipular. Sem pensar historicamente, sem levar em conta a filosofia, sem ser alegre, quer dizer, pessoas estão enfraquecidas. E, é claro, que esse contexto leva a isso. A saída seria realmente investirmos na tecnologia de forma massificada, mas com qualidade, ou seja, investimento pra educação, investimento pra cultura. Não basta só educação, como não basta só pão, nem comida, não é? Tem que ter educação, tem que ter alimento, tem que ter trabalho. Nós temos hoje quase 15 milhões de desempregados no Brasil; nós temos hoje quatorze e meio milhões de pessoas ainda analfabetas; quarenta e poucos milhões de analfabetos funcionais. E nós temos muitos professores, hoje, que não têm uma atualização profissional com qualidade, com continuidade, que faz com que não tenham acesso à cultura.

Música:
Há que se incluir toda a população
Há que se enfrentar e acabar com a exclusão

Paulo Roberto Padilha:
Então sem comunicação, não tem educação. Sem educação, não há cultura; sem cultura não há a educação. Então, essa simbiose, essa interconectividade, essa formação para docentes de todos os níveis, essa formação freiriana, que mexe com o coração, com a sensibilidade, com a alegria… Então, não querem isso por quê? Porque isso fortalece quem aprende a participar; fortalece quem gosta de um instrumento musical; quem gosta de atuar no palco, no teatro, o cinema; quem gosta de fazer um hip hop em todas as linguagens dele. Quem aprende isso, cara, nunca mais esquece! E aprende a gostar e aprende a ser crítico. E isso é muito atual. Continua sendo necessário, antes de formar as pessoas, pra se humanizarem, pra ficarem sensíveis quando verem um ser humano como animal deitado na rua, abandonado à própria sorte; para ficarem sensíveis quando verem as florestas queimando, que parece que não têm nada a ver com eles; Isso não se quebra com ciência, isso se quebra com consciência, com convivência humana, com arte, com sensibilidade, com emoção. Por isso que é tão importante estarmos aqui para que educadoras e educadores – todos e todas – possam também fazer parte da comunicação, que é o fundamental na vida da gente.

Música “Quero Respeito” (Paulo Roberto Padilha) fica de fundo

Marcelo Abud:
A educação que estimula a argumentação e a consciência crítica, como a proposta por Freire, é a melhor forma de se combater a proliferação de fake news e gerar um futuro verdadeiramente democrático e mais justo.
Com apoio de produção de Daniel Grecco, Marcelo Abud para o Instituto Claro.

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