Woody Allen está longe de ser uma unanimidade. Eu arriscaria dizer que há tanta gente que o venere quanto os que torcem o nariz para seus filmes. Mas, se olharmos sem preconceitos, é difícil afastar a própria linguagem do cinema desse autor e ainda mais difícil deixar de reconhecê-lo como um dos maiores cineastas de nosso tempo e que ainda trabalha vivamente.
Desde os anos 80, Woody Allen filma com fôlego de menino – é praticamente um filme por ano. Há muito de autoral em suas obras, já que ele é majoritariamente roteirista, diretor e muitas vezes ator em seus dramas e comédias. Também é bem possível identificar fases ou classificações para sua filmografia – o que poucos diretores possibilitam – além de incontáveis fixações e relacionamentos que enchem páginas de biografias. Não bastasse, Allen é escritor com diversas obras publicadas, dirigiu e escreveu peças de teatro, trabalhou na TV, participou de filmes somente como ator e, para não deixar nada de fora, toca jazz em uma banda que se apresenta pelo mundo.
Mas o que sempre me impressiona em Allen é a sua capacidade de contar uma história e de nos lembrar, claramente, que o cinema é cinema. Suas aberturas, sempre similares, com os nomes dos atores grafados elegantemente sobre a tela preta e com música de fundo (muitas vezes um leve e alegre jazz), são como um portal para o início do filme. É algo que nos auxilia na ambientação e na fruição, tal como passar pelas primeiras folhas de um livro antes de encontrar, lá pela página 9, o início da narrativa. A audiência respira e tem a clara noção de que uma ficção se iniciará em alguns segundos.
Obviamente há inúmeras possibilidades de abordar na educação os recursos narrativos de Allen e, principalmente, a quantidade de temáticas que estão disponíveis para interpretação. Vejo, sempre, que há mais a ganhar com seus filmes e com discussões sobre eles do que a perder por eventuais suspiros enfastiados de meus alunos.
Mas é possível começar por filmes muito mais aceitáveis ao paladar juvenil do que por outros, mais levados à reflexão. A “Rosa Púrpura do Cairo” (1985), por exemplo, é um filme de uma leveza ímpar e que costuma agradar. A trama é tão bem colocada que o tempo passa sem que percebamos. Mas não deixa de ser um ótimo estímulo à reflexão sobre debates que envolvem “vida X ficção” ou “entretenimento X realidade”. Estas dualidades são brilhantemente diluídas em filmes como “Zelig” (1983), que mistura as formas de narrativa do documentário e da ficção.
Se o assunto é literatura e o mundo das artes, como não adorar “Meia Noite em Paris” (2011) e suas hilárias revisões das figuras de Hemingway, o casal Fitzgerald, um impagável Salvador Dali aficionado em rinocerontes, entre outras tantas figuras que aparecem na viagem do tempo que Gil Pender empreende, noite após noite. Aliás, a abertura do filme é uma releitura do início de “Manhattan” (1979), com a oferta de visões da cidade de Nova York que oferece um olhar pessoal dos locais preferidos do diretor.
Também há filmes cuja complexidade pode ser mais relevante para discussões com jovens e estudantes. “Crimes e Pecados” (1989), por exemplo, muitas vezes é comparado ao romance “Memórias do Subsolo”, de Fiódor Dostoiévski – isso por conta do aspecto de inércia dos seus personagens e de como a culpa por isso é muitas vezes superior àquela da ação – o que aparece também, mas em outras formas, em tramas como “Match Point” (2005), “Blue Jasmine” (2013) e “O homem irracional” (2015), somente para citar os mais atuais.
Assim, mesmo para quem não gosta muito da figura de Woody Allen (ou para aqueles que acham pouco engraçado o seu humor carregado nos diálogos), não se pode perder de vista a riqueza de sua narrativa e as muitas possibilidades de interpretação de seus filmes. O olhar para o cinema deve superar o nosso mero gosto e ativar a reflexão sobre as complexidades narrativas e estéticas.
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Ricardo Lourenço é bacharel em Direito, licenciado em Filosofia e mestre em Filosofia do Direito pela PUC-SP. Atua como professor de Educação para as Mídias e Filosofia para o ensino médio, e trabalha com a difusão de cineclubes em escolas.